Corredores, Codinome Locura

Nenhuma noite é igual a outra.

Nenhuma noite é igual à outra… Algumas são mais especiais… Tem horas que teimam em voltar no tempo, em mim.

A noite de lua cheia era diferente. Ela ficava sentada lá fora, num banquinho de madeira e ficava fitando e acompanhava o movimento que a lua fazia, como que enfeitiçada.

Os cogumelos ficavam dourados com o brilho dela. E os pirilampos pareciam as estrelas que haviam descido para o chão.

Eu vi essa cena três ou quatro vezes e nunca mais esqueci. Havia um encantamento naquela mulher que encantava todo bosque, toda fazenda, e todo o universo. A luz rescendia em seus cabelos brancos e ela me lembrava um personagem de um livro.

O bosque fazia silêncio e a silhueta dela à luz da lua lhe dava a magia certa. Ela também se vestia de dourada.

Entendi que todo mistério que a envolvia devia ter vindo de alguma noite dessas. Alguém devia ter visto ela assim toda dourada e a acharam meio bruxa – meio fada – meio flor. Ela fazia os cogumelos ganharem cor de ouro. Ganharem sabor, dependendo de onde os plantavam. Fazia crianças nascerem sobre tuas mãos. Ela era mágica.
Quando passava essa fase de lua cheia. Ela voltava ao normal, se bem que nada para ela era normal. Mas a vida começava a fluir…

Mariana Gouveia
Agosto é o mês das histórias encantadas e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina

Corredores, Codinome Locura

Entre o dia e a noite, há sempre uma pausa quebradiça…

Separo-me de ti nos solstícios de verão, diante da mesa do juiz supremo dos amantes.
(…)

Virás quando houver uma fala indestrutível devolvida à boca dos mais vivos. Então virás vivo também. Sempre esperei ver-te ressuscitado. Desiludiste-me.
(…)

Calo-me.
Reparei de repente que não estavas aqui. Pus-me a falar a falar. Coisas de mulher desabitada.

(…)

É a altura de escrever sobre a espera. A espera tem unhas de fome, bico calado, pernas para que as quer. Senta-se de frente e de lado em qualquer assento. Descai com o sono a cabeça de animal exótico enquanto os olhos se fixam sobre a ponta do meu pé e principiam um movimento de rotação em volta de mim em volta de mim … de ti.
Nunca te conheci – assim explico o teu desaparecimento.

(…)

Luiza Neto Jorge

O vulto na janela da casa 18 da rua de cima me intrigava e se hoje você for lá, não encontrará nada do que vou retratar porque entre o dia e a noite, há sempre uma pausa quebradiça e o silêncio habita atrás das cortinas. Porque silêncio é assim… se impõe e cria raízes onde a terra da solidão é fértil.

Era uma manhã escura dessas que não se costura com linhas. Lá fora, o pássaro agourento – segundo as lendas da minha mãe – grunhia como se isso fosse a missão dele. Depois disso, nada mais prestou – ela escreveu no diário que eu encontrei tempos depois no baú.

Havia vida ali, atrás das cortinas lilases e por algum motivo o riso se perdeu além das flores… a canção de amor perdido ficava no repeat o dia inteiro e estava escrita entre as notas feitas no diário, com caligrafia de quem treinou tanto as letras cursivas…

Cheguei a ver os olhos dela perdidos no nada… Um riso meio sem noção enquanto o cão latia denunciando minha presença e ela repetia o mesmo mantra de ontem-anteontem-trasanteontem – quero ficar sozinha…

De olho brando no carinho, lembrei a ela que estava ali… e ela dizia que não seguia regras – só os fracos seguem as regras… Os fortes, criam- nas… Morro de amor, e não te conto nada. Não falo das madrugadas insones, nem da falta que faz a cada dia. Dos meses que conto no calendário da cozinha, das plantas que arranquei sem mostrar. Porque essa saudade só diz respeito a mim… Escreva uma história, se preferir – e riu num quase sem voz e sumiu entre o esvoaçar das cortinas… Disse que a psicóloga falou que ela tinha um amor bonito. Cheguei a odiar essa psicóloga… devia ser a mesma que me trancou nos dias de confissão quando retratei meu mundo de amor.

Escrevi milhares de histórias depois disso… ainda continuo escrevendo sobre o amor e suas diversas nuances… Nenhum tempo é essa coisa de agora… Era Leonor seu nome, embora seus amigos e familiares a chamavam por outro nome. Mas, quando eu pensava nela era ternura que eu sentia e só de imaginá-la, era ternura que eu via.

Trocou a casa dela por aquela última da rua cheia de escombros e vive ali, na solidão que encontrei dentro do baú esquecido na casa 18 da rua de cima… sempre que passo por ali, ainda vejo um vulto na janela. Deve ser o fantasma do amor que ficou…

Mariana Gouveia
Agosto é o mês dos amores quebrados e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes  Roseli Pedroso  Adriana Aneli  Darlene Regina

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Gosto de existir no mistérios das coisas…

Arterapia:
desenhe sua casa.
As minhas sempre foram ocos de árvore ou botas com chaminés Tudor
ou abóboras com escadas e varais ou cogumelos com hortas.

Luciane Lucieri

Luci,

Estive visitando seus lugares e me perdi entre os mistérios que te rodeiam e a maciez com que você toca minha alma. Vi que encontrou uma carta de amor e que não era destinada a você e resolvi te escrever… não é uma carta de amor ou até é… de um amor nas coisas que gostamos e que guardam mistérios que não sabemos desvendar, nem resolver.

O sol filtrou aqui também, logo além do bosque que já nem existe mais – estão derrubando todas as árvores de lá – onde conheço cada uma.

Dizem que vão construir no lugar mil e quinhentas moradias e sabe-se lá quantos jardins… Mas, já era um jardim que eu mesma fotografei mais de mil e quinhentas vezes os bichos, os brotos dos ipês que nasciam das sementes trazidas pelo sanhaço azul e por descuido ele deixava cair. Fotografei ali vários fins de tardes e algumas manhãs acabadas de acordar. Os cogumelos que nasciam por ali pareciam doces de vó ou o sorvete de flocos da sorveteria da infância. Dava até vontade de comer. A pata de vaca muitas vezes me cedia folhas para o chá contra infecções e as libelinhas azuis cabiam num canto qualquer de tão pequenas que eram.

Agora, aquilo tudo vai se transformar em moradia e hoje, quando fui buscar as cestas para as doações vi tudo limpo. Deu um vazio no peito… Corri para seu lugar e fui beber poesia nos estuques do muro. Ainda bem que tenho as sementes de quase tudo que tinha lá… a maioria brotou como que por encanto e fui estrada afora cavando covinhas e deixando elas em uma nova morada. Achei que devia te escrever sobre isso, Luci e sei que o que sinto é que o mesmo que sentiu quando seu coração se tornou em um cemitério de borboletas tocando Mozart… O meu, hoje se transformou em um de cogumelos, florestas e seres cheios de mistérios que existiam por lá… e não tocava canção nenhuma.

Hoje, tive que criar um lugar para eles no meu quintal, Luci… por que em alguns momentos gosto de existir no mistério das coisas em que ninguém mais acredita.

Abraço carinhoso

Mariana Gouveia
Agosto é o mês dos bosques derrubados e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina

Corredores, Codinome Locura

Tenho uma almofada feita de “memories…”

Perdida, encontrou a poesia
que morava no caminho
imaginário de suas fábulas

Suzana Martins

Querido Agosto,

É inútil dizer que minhas fábulas em seu mês se tornam mais reais… Confesso que grande parte do meu imaginário ganhou vidas em suas noites, lá na minha infância, quando eu ainda corria descalça na estradinha de terra…

Era em seu mês que minha mãe temia os cachorros loucos e suas babas amarelas… um dia, cheguei a ver um, de olhar perdido, na relva, entre o alagado dos pés de buritis. Depois disso, fiquei dias sem sair para além da cerca, onde o Malhado – nosso cão perdigueiro – nos protegia dos cães “doidos” que vez ou outra atravessa a porteira.

O carteiro que aparecia a cada quinze dias, também contava histórias com seu nome… Se por algum mistério de quem contava as histórias, agosto era sempre o mês dos cachorros loucos, o que dizer dos humanos – seres tão desprovidos de amor iguais aos deles…

Cheguei a ouvir um causo, do velho morador do casarão abandonado que ficava depois da ponte que o cachorro dele endoidara, mas que não o mordeu de jeito nenhum… sumiu estradinha afora, com olho perdido na loucura de cão… Achei na época – embora não conferisse os dias no calendário – que seria o mesmo cão que vi entre o alagado e os pés dos buritis. Quis dizer que mesmo quando enlouquece, o amor do cão é fiel e não morde o próprio dono.

Alguém contava que nas noites de lua cheia também surgia uma mulher louca, sabe-se lá porque, para buscar um filho perdido… nunca acreditei nessa história… sabia que era mais coisa de meu pai, para que eu não corresse atrás dos vagalumes que brilhavam perto do jardim quando escurecesse… o peixe que virava homem e vinha roubar a moça para casar e tantos outros causos que minha memória guarda.

Sabe, embora imaginasse que tudo isso fosse lenda e histórias para nosso imaginário fluir na arte que minha mãe conduzia em nós, quando cresci guardei essas histórias em uma almofada para quando o mundo ficasse difícil de viver e de vez em quando, é nela que busco minha fonte de encanto só para suportar esses instantes que surgem na vida da gente, tal qual os cachorros loucos durante seus dias.

Para isso, eu tenho uma almofada feita de “memories” que em noites de insônias se transforma em um livro cheio de fábulas que vivi e me fizeram acreditar que a poesia é cada instante costurado na alma, tal qual bordado de avó.

Teremos um mês inteiro para recordar esses instantes. Vamos vivê-lo?

Mariana Gouveia
Agosto é o mês dos cachorros loucos e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi Obdúlio OrtegaLunna GuedesRoseli PedrosoAdriana AneliDarlene Regina

Corredores, Codinome Locura

Ah,vou trazer meu menino pra cá.

ah,vou trazer meu menino pra cá.

Quando eu olhei para o menino do lugar

eu vi ali, o meu menino

que deixei a dormir

em lençol de organdi, bordado por mim

e o menino sorria e fingia viver

enquanto o meu não queria comer

o bife do dia…

nem tinha a alegria de saber correr

atrás de uma pipa que um outro empinava e o meu não gostava…

queria jogar os jogos de lutas, filmes de matar.

Quando eu olhei o menino daqui, lembrei meu guri

que estuda inglês

e esse, de vez

tem os pés no chão

e o meu nem mais quis

tênis de liquidação…

o que ele escolheu era quase um salário

e assim, ao contrário,

odeia estudar…

ah,vou trazer meu menino pra cá.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Em Mi Maior

Em Mi Maior

A palavra que falo é a mesma que canto
e eu não sei mais sei-te mais que eu canto,
teu nome melodiosa música em mim.

Eu em Mi Maior, sonata,
suave amplitude sinfonia, amor

que ecoa literais acordes
nas pontas do dedos suaves gestos.
Corpo,
instrumento do desejo meu
Estranha escala doce,
Beber a melodia em ti…

a.m.o.r suavemente soletrado
teu nome entre as letras digo
e amo, e amo e canto e amo
e dou a ti nas sintonias loucas
sou mais que eu aos pés de ti, sem roupas
tão lírica e serena, tão tua

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Artesã

Escreverei teu nome nas noites de lua

Escreverei teu nome nas noites de lua e bordarei com os fios das estrelas teu caminho até mim.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

É importante que continuemos a sonhar…

Querido Edi,

Durante muito tempo assisti seu aniversário como expectadora. Já conhecia os rituais que sua mãe seguia. Era sempre como se estivesse se preparando para uma festa – embora fosse mesmo uma festa o dia em que você nasceu.

Ela ficava contando as horas para quando o relógio movesse os ponteiros e trocasse o dia. Eu acompanhava isso e todos os desejos de bênçãos eram feitos e por isso, o dia de hoje – aí, já é 25 de julho – ficou em minha memória, assim como os dos outros seus irmãos.

Sei que está sendo difícil, mas quero, com essa carta, que seja menos dolorosa a lembrança. Em nossas conversas sempre tento dizer e reforçar o que ela mais queria: que você fosse feliz. Então, honre a vida que ela te deu fazendo de tudo para ser feliz. Ela acreditava muito em sonhos, então, é muito importante que continuemos a sonhar.

Eu o admiro muito e tenho na memória os dias em que ela passou aí com você. Essa foto foi enviada por ela… E com ela, simbolizo a beleza do lugar em que você vive com sua família.

Te desejo forças, te desejo paz e muitas alegrias. Criei um poema para você… Para que caiba em seus dias o homem extraordinário que você é:

Que os homens normais sejam extraordinários
e o extraordinário, poeta…

Que os homens normais sejam extraordinários
que o fardo pesado, leve

Que o vento te toque manso
o instante da dor,
breve

Que o comum, intenso
brilho
a rotina diferente, cada dia
que os atos de pai, irmão, marido, filho
de homem, de amor, amado
alegria

se transforme no riso entre gente
e os atos banais
raridade
e que tudo comum seja inerente
e teu coração
pleno de felicidade

Feliz aniversário!

Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

É o paraíso, a moça!

Anna & Elena BALBUSSO

Se lança no infinito e nem me conta nada
Vira hippie na banca da esquina.
Sorri em dias despencados
quer morar dentro de um livro de Bukowski
e ainda reza.
Chove quando acorda, acorda sol maior no lado B da vida.
É o paraíso, a moça!
ri das minhas bobagens,
é corruptivel em seu ideal ecológico. Mas, só quando o professor pede.
Perdeu tudo quando a casa virou flor. Nem tinha seguro.
Mas, no caminho até ela eu descubro o Paraíso. É.

Mariana Gouveia
*imagem: Anna & Elena Balsusso

Corredores, Codinome Locura

Hoje, o tempo…

1987 – a vontade de ser mãe fala mais alto no meu corpo feminino… Eu, semeadora que sou – quero gerar. Um amor que não posso medir começa a crescer em meu peito e a barriga traz a vida…

1988 – nasce um menino do signo de leão. Com a força habitada em seu decanato – embora, anos depois, ele ainda busque essa força. É o protagonista – mas precisa se reconhecer nisso – e dono de sua história… embora, eu saiba escrevê-la. Nasceu de mim.

Os anos são imensuráveis nos dias que ele cresce e os pés lhe dão a liberdade de ser o que quiser e ele quis… voou, pra longe do abrigo e foi ser.


2018 – entre idas e vindas, ele pegou mochilas, malas e foi… rumo ao destino que ele mesmo traçou… e  eu que fui ninho, fiquei vazia do “perto”. O menino voou, buscou lugares, amores e sonhos e eu, a limpar cabides vazios, quadros antigos nas paredes… os carrinhos da coleção ficaram ali, na estante, junto dos livros que não couberam na mala. Algumas camisas de time, a bola de futebol americano – que mofou – desgastada pelo tempo. 

2021 – Diante de minhas memórias hoje ele é tempo. Contado nos anos e nos dias em que passou a ser meu… meu filho e só quem é mãe entende esse amor.
Eu o ensinei a ter coragem… a lutar pelos sonhos e a respeitar as pessoas. O ensinei que se o caminho estiver errado, não faz mal nenhum voltar ao ponto de início. Era meu menino…
E o menino que realizou meu sonho virou homem e hoje, com a força habitada em seu instinto corre atrás dos seus.

Feliz aniversário!
Te amo imensamente!

Mariana Gouveia