Eu conheci a rota dos inventários e os riscos nos mapas mudando os caminhos. Fiquei a tua espera e o vento arrastou as folhas no quintal. Queria te contar que as flores amarelas floriram. Foi um insulto para o jardim inteiro. Todo o quintal olhava só para ela, enquanto as lagartas procriavam na lanterna chinesa. Estão grávidas as folhas do gervão… E o amarelo ri das coisas que conto. São muitos dias de sol e noites de lua. Era para ser em agosto esse cheiro de setembro amarelando as coisas… Mas isso tudo é só um sinal de vida da roseira que havia morrido.
O caminho do sol segue a bússola da lua… Era ali, no quadrante leste do meu quintal que Saturno brincou de jardineiro. Um gênio partiu e sua arte fica gritante, viva, dentro da gente. O calor incendeia os pensamentos no gesto e 44 graus vira poesia no vento morno. Marte e Saturno em sua quadratura recebe do caos uma forma que vaga. O regador cumpre a função. Revolver a terra, elaborar a alma para a perda… O rito é essa primavera desavisada de flor.
Devia morrer-se de outra maneira. Transformarmo-nos em fumo, por exemplo. Ou em nuvens. Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão de convite para o ritual do Grande Desfazer: “Fulano de tal comunica ao mundo que vai transformar-se em nuvem hoje às 9 horas. Traje de passeio”. E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir a despedida. Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio. “Adeus! Adeus!” E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento, numa lassidão de arrancar raízes … (primeiro, os olhos… em seguida, os lábios… depois os cabelos…) a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se em fumo… tão leve… tão subtil… tão pólen… como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono ainda tocada por um vento de lábios azuis… José Gomes Ferreira
rasgando os dias no calendário já conto 39 anos que você se foi… seria estranho dizer que parece que foi ontem e que sua falta é esse abandono na alma. Queria que fosse igual ao poema e pudesse te alcançar em uma nuvem… mas, as nuvens são feitas para chuvas – você diria – ou para desenhos engraçados no céu.
Confesso que gostei mais da alusão das nuvens, do que da fumaça, que ronda meu lugar, o cerrado transformando em um cenário desolador. Não sei se você gostaria desse tempo…
Além dos aniversários, eu te escrevo sempre nessa data, como forma de te manter aqui, ainda na memória viva do tempo em que fui sua filha. Não temos muitas fotos suas e as que tínhamos se perderam em álbuns guardados em fundos de baús. Essa, acima, recebi a pouco tempo e lembro-me bem desse riso, dessa pose e de tudo que retrata a fotografia. Lembro-me até da cor do vestido, que foi feito por você quando saiu do luto pela partida do meu avô.
Hoje, falando com uma amiga, em outro contexto, falei sobre a canção que fala do sol quarando as roupas no varal e essa é uma memória que nunca vai se apagar de mim… os lençóis sendo quarados, o cheiro de roupa limpa, o anil sendo preparado para as roupas… nossa, mãe! Parece que é agora e já foi há tanto tempo.
Essa carta é só para dizer que ainda tenho tantas perguntas sem respostas, mas que também tenho recordações de tantos momentos que dizem muito mais do que posso escrever. As perguntas ficarão para outro momento, dentro de um tempo em que poderá responder.
Nas gavetas reviradas, procuro o perfume esquecido das rosas que minha mãe plantava. Era hoje, há anos atrás – as flores e seus insetos feito pingente – a fragrância exalava pela rua de calçadas altas. Ela contava histórias de jardins, quintais e de que a felicidade pode ser colhida diariamente, em pequenos momentos – ninguém é feliz o tempo todo – e lembro-me da borboleta que passou e ela falou de viagem. Guardei aquele momento, onde a realidade era completa. Nunca mais se repetiria as frases ditas naquela rua de calçadas altas… No outro dia ela se foi e ficou apenas o perfume esquecido das rosas que ela plantava.
Somente no impulso de ultrapassar os dias para vencer o espaço da minha vida dentro da primavera, eu achava o céu vazio, mas a memória era minha – eu sabia – e por mais que eu buscasse o fulgor da estação, voltava em mim esses avisos surdos que abalam as raízes do meu ser… a sensação de plenitude ou nada… Ouvia as promessas de antes quando certas horas me visitam e quando uma música me fazia recordar momentos… Chopin, Noturno nº 20. Falei aos moços de Proust, no tempo que apenas leituras moravam nas minhas lembranças.
Do halo que se ergue nas flores que nascem no quintal. Do doce feito da fruta colhida fresca, e um sabor que se conheceu na infância.
Dos maracujás reencontrados mais tarde com memória de outrora… Ali, no cerrado que já não existe mais…
Mas, a minha memória não era bem essa. Minha memória não tinha apenas fato vividos… não exigia sua recuperação para que o halo se abrisse…
minha memória não era lembrança de nada… uma música que se ouve pela primeira vez, um raio de sol que atravessa a vidraça, uma vesga da luar de cada noite que podia se abrir lá longe, na dimensão absoluta, de um céu cheio de estrelas.
O eco dessa memória ia para além da vida e soava pelos espaços desertos, desde antes de eu nascer e se espalhava para além das flores que nasceram dentro da estação.
A vista me lembrava o terraço da casa de minha avó. Os bordados sempre engomados dependurados e os hibiscos derramavam suas flores em seus diversos tons. A estação muda as cores da manhã e lembro – me de que a vida cabia minúscula nos lenços bordados com monogramas e as lembranças daquelas manhãs regadas de doçura e das roupas espalhadas no chão, e sem esforço, ainda sentir o sabor doce do melhor beijo. A casa tinha rotinas logo pela madrugada. O café era servido na casa grande e os pássaros invadiam os jardins em seus galhos e os beijos eram furtivos – ou roubados – sob as janelas pesadas entreabertas depois do terceiro toque. O relógio do pai sempre desobedecia a temporada das flores. O cafezal seguia o ritmo primeiro do afago na terra que a mãe em sua sabedoria fazia…
Mariana Gouveia Ser de flor Dos diários que não escrevi
As aves, perdidas, morreram no ninho. Os animais, perdidos, sem jeito de fuga, sem rumo. A sede devastou a vida conjugando o verbo diário do rio, que secou… E como encontrando uma maneira de acalmar meu coração fiz mudas de esperança e estou guardando as sementes, algumas memórias, um pouco do vento, o som que trago no peito, grifado como tatuagem, gravado como se fosse agora para seguir em frente, depois que tudo isso passar.
como é dolorido o processo da morte. O fogo acontecendo em todo lugar. Das flores, que vi no Pantanal já não resta mais nada. A solidão da primavera de luto diante da semente que não germinou. E nos jardins, a alma clama chuva. E a vida que ainda busca esperança para quando tudo isso passar.
Quando o jardim chegou ao ápice virou colo, a flor. O cheiro exalando fragrância de terra molhada. Um menino, que enfeita meus dias nasceu há cinco anos atrás. O verbo do dia cheio de desejo de riso e o pólen, saciando fome do inseto que voa. Tem dia que a festa é dentro do coração.
O corpo avança seguindo a canção. Clave de sol, lá menor… A melodia acompanha o vento e a flor, tão cheia de som capta o riso. A ave de todo dia, o ressonar dos cães… a canção recém descoberta… O dia foi pura sinfonia. Dança comigo?