Corredores, Codinome Locura

Monocórdica

Monocórdica

Prefiro a nota principal
estilo invariável, único.

como se estivesse lendo – braile
como se a nota musical fosse dela
e ainda pede que eu cante
Pra ela…

ai, quem me dera que o encanto dure
que a música fosse relicário – fosse

que a sinfonia fosse mais doce…
que a melodia, a voz.
E a cadência de menina…
em nós…

Tão monocórdica
no seu sentido literal
coleciona músicas no varal…

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Poemas indizíveis

Poemas indizíveis-1

Revirei meu baú de lembranças…
Encontrei as coisas como que procurando lembranças do que não vivi, cheiros que nunca senti.
Confusões de sentimentos que meu coração desfolha.

No baú da minha existência existe tanta coisa que ainda nem desfrutei e as lembranças vivem.
Entre tantas coisas guardadas, você se atreveu a estar presente em cada uma delas mesmo não estando por lá.

E o teu cheiro eu aspirava mesmo não sentindo.

Quase comemorei a fotografia que não vi de ti.
Quase toquei tuas mãos em lembranças que ainda busco nas tuas palavras escrita.
Busquei você, além dos sentidos. Nas histórias de contos de fadas que leio e no final você sempre está.

Mariana Gouveia

*poemas indizíveis*

Corredores, Codinome Locura

Carta aos professores.

Hoje relembrando tudo que sou vejo muito dos meus professores em mim. A minha primeira professora se chamava Edna e tinha os olhos azuis da cor do céu e quando ela sorria parecia que tinha estrelas dentro.
Passei o primário todo a estudar com ela e romper a barreira do Ensino Fundamental para mim foi tão difícil quanto adaptar-me sem ela à frente da lousa.

Depois descobri Adair, a minha mestra de português e de olhar manso. Não havia céu dentro dos olhos dela nem estrelas. Mas ela tinha o colo mais doce do mundo. Foi com ela que talvez tenha aprendido poesias. Digo talvez, por que desde sempre eu já escrevia poemas, palavras, “versos” como meu pai dizia e pedia para eu declamar.
A minha professora já atuava na área há mais de 40 anos e nos anos seguintes posteriores eu a perdi para aposentadoria. Com ela eu aprendi piano, aprendi colher rosas sem me importar com os espinhos. Descobri Neruda, Drummond e a arte de Tarsila do Amaral.
Ela não conheceu greve. Nem precisou lutar por melhores condições. E nem tinha. O meu ensino fundamental foi quase que feito todo na Escola Alcebíades Calhao. Havia outros professores, mas Adair conseguia no recreio uma feira/de troca de livros.
Por causa da morte de minha mãe tive de parar de estudar e fui trabalhar, e minha professora já aposentada me dava lições de cidadania e de companheirismo. Aos sábados me dava meia hora aula e depois íamos visitar os ex alunos dela que estavam com problemas. Um, que quebrara o pé. O outro, que estava com febre. Virou rotina nossas visitas e quando ninguém tinha problemas maiores, nos reuníamos na Praça Santos Dumont para ler livros.
Anos mais tarde, voltei a estudar. E mais uma vez fui abençoada por anjos em minha vida com títulos de professores. Amigos protetores eu ganhei. Maria José que me me mostrava o encanto da Biologia, a arte pelas mãos de Iolanda, a filosofia desenhada em poesia pela beleza de Luzia, a educação física que sublinhava a alma pela doce Flavia Luzia. Monique, e com os relevos e o envolver da Geografia. os números que eu detestava e que foram me mostrados de maneira mais amena por Joanil e Luzia. Jesus toma conta na vontade plena de ensinar de Nilza. Zózima não me deu aulas, mas ensinou-me o olhar macio das borboletas e o aconchego de presença quando precisei.
E foram tantos mais e tantas que eu passaria a vida inteira dizendo nomes e a envolvência em minha vida que meus professores tiveram.
Fui educada da maneira mais simples que há. Por vezes, nessas escolas que estudei não tinha cadeiras suficientes, ou mesmo o giz para o professor escrever. Em cada um deles havia o desejo de ensinar e em cada um deles eu sentia surgir a revolta pela falta de condições.
A educação é o bem maior que um governo pode dar ao seu povo.
Infelizmente, vivemos tempos sombrios, mas, em cada escola há guerreiros dispostos a tudo pela vontade de ensinar.

Parabéns à todos os professores.

Corredores, Codinome Locura

Em todo lado a palavra pássaro faz asas e cor.

Julgo ver nele a cura para a dor…
Do outro lado da árvore, a lua tem a cor de mel… eu acreditava nas coisas do destino e lembrei-me de fotografias que nunca tirei. O som da letra do canto da ave é como um poema esculpido na árvore e toma-se a forma das flores. As relvas frescas a molhar os pés e os sorrisos estendidos em mil árvores que meu pai chamava de floresta… o céu a desenhar presença de nuvens e eu procuro as lembranças que escrevi ali. Havia a mão de criança a segurar a saia e um vulto marcou o voo e o pouso… enquanto as lembranças da mãe eram desenhadas nas falas das irmãs, trazendo recordações que parecem tão recentes diante das histórias narradas. Lê-se a presença diante das memórias, lê-se silêncio, sim, tantas vezes… Era o silêncio dos gritos dos dias vividos e as recordações a ecoar dentro das palavras.  O quintal molhado de poema vem daqui… o olhar impregnado de memórias… deixo que elas venham sem metáforas… crio na mente o poema e com ele invento histórias para relembrar em dias sem sono. O poema será quando as crianças e os pássaros se rebelarem, e ainda assim, tudo continuar presente mesmo distante. E no pomar as árvores espreitam a corrida para abraçar o pai e esperar que a asa seja leve…  Guardar tudo isso na fala da solidão para aprender o olhar de presença mesmo quando a palavra poema aproxima do que meus olhos me veem enquanto só sei escrever o seu sentido.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Em outra vida

Cortou o cabelo, deixou de pintar as unhas com o verniz escarlate e assumiu as brancuras dos fios. Fingia não ver o espelho a desenhar as rugas dentro do riso. Gostava de dar nomes às nuvens.

Era outra, aquela menina de antes e embora ainda escrevesse em cadernos
e diários nas noites quentes já não era a mesma. Gozou quando conseguiu descobrir o nome da estrela de estimação. Mas, isso foi em outra vida.

Mariana Gouveia
Das coisas breves

Corredores, Codinome Locura

essas coisas do destino vêm ao acaso…

Conheceu outros lugares, de vida e de alma e disseram-lhe que aquele lugar novo não possuía os ritos, nem o cordão umbilical plantado como se fosse sementes…, mas, sentiu a vida nova pelas ruas e muito além dos corredores, uma porta se abria e estava viva.

Não sabia quanto tempo duraria isso, ou se renasceria de novo, nunca se sabe

essas coisas do destino vêm ao acaso

Mas, enquanto molhava os pés de hortênsias no vaso, as rosas do deserto florindo no seu canto, a horta toda verdejante, lá se sabe por que, ela vibrou de novo pela segunda vez que nasceu.

Mariana Gouveia
Das coisas breves

Corredores, Codinome Locura

3 D

Os dias passaram como nos filmes
E a imensidão do mundo ganhou caos em seus olhos…
Mas, um dia, não se sabe por que razão, quis viver a fama de louca
E de fato, rasgou as roupas que lhe impuseram… nunca pensou que era tão bonito morrer

E ali, nasceu pela segunda vez.

Mariana Gouveia
Das coisas breves

Corredores, Codinome Locura

Dançava com o vento,

na maioria das vezes, continha o riso para não escandalizar os ausentes.

Diziam que tinha a loucura no olhar.

De vez em quando, por reflexos, através de um espelho, via a vida como se fosse um autógrafo para que ninguém apagasse dela o costume de viver. Ainda assim, todo dia escrevia uma carta sem destinatário contando seus segredos internos… Ou seu diário de amor.

 Mariana Gouveia
Das coisas breves

Corredores, Codinome Locura

Se apaixonou por heras,

Por folhas secas que caiam como brindes do quintal da vizinha.
Desenhava nos muros coisas aleatórias de quem acreditava que só se vive uma vez.
Essas coisas de quem se acostuma com uma única estação – o outono era sua preferida –
O ocre das paredes sem estuque, também.
Conhecia os odores da terra e o cheiro de chuva quando cai.

Mariana Gouveia
Das coisas breves

Corredores, Codinome Locura

Das coisas breves

Tatuou a vida nas costas, assim que nasceu a primeira vez – a mãe “plantou” o cordão umbilical embaixo dos pés de bananeiras. Era a magia de permanecer na essência de quem acredita em coisas surreais, de geração em geração… Assim que entendeu que o seu lugar era o mundo teceu as asas de borboletas e descobriu que podia voar…

Mariana Gouveia
Das coisas breves