Corredores, Codinome Locura

Era para ser um poema

Era para ser um poema
e nas miudezas das coisas, veio a delicadeza. O diário chegou ao fim.
Era para ser vento, mas esse, acanhou-se depois de beijar o pólen.
Os mapas vincados na pétala da flor e o eco das palavras ganhando dimensões além.
As memórias se evaporando em meio ao silêncio do dia.
Hoje, o jardim espera a noite para amenizar o calor do dia.
É como se o deserto fosse aqui.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Corredores, Codinome Locura

O pólen sendo leveza…

Podei as plantas do jardim e molhei as flores enquanto canto a minha ancestralidade de água.
A seiva absorve a singeleza do rio, e a sudoeste o vento aponta para o rumo do sol.
A lua, em sua fase minguante caminha lentamente, enquanto delírios acontece dentro da cor.
O pólen sendo leveza na calma dos gestos.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Corredores, Codinome Locura

Ser de flor

Vasculhei o baú de coisas tuas e achei ali – ausência – minha.
Junto das lembranças, um relicário feito de jardim e a flor silvestre no pingente – você transformou a flor que eu trouxe do campo em joia – e as pinturas ao lado do poema que fala de mar, o anel.
Uma borboleta de prata, que uma amiga enviou e as conchas marinhas feito versos dentro dos séculos. A ausência era minha. Tão vaga em você. Releio as frases das cartas que não enviei e ali, exponho gotas de saudades, que é para molhar a flor do campo, em seu relicário, para que ela não morra de sede.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Corredores, Codinome Locura

Tem dia que é feito dia de irmão.

O jardim ficou quieto em dia sem vento. O calor, ao amanhecer, seca o orvalho das flores.
O pássaro de todo dia fica preso dentro da sala e o eco do chilreio me acorda em uma manhã feita de acasos.
A borboleta gerou casulos, o girassol sorriu flores, o menino da rua de cima tocou flauta e eu abri a porta para o pássaro voar.
Tem dia que é feito dia de irmão. Cheio de delicadezas.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Corredores, Codinome Locura

Hoje é dia de vermelhecer em algum canto do mundo.

Anoto em uma carta as frases que diria… as sombras na parede espantam a solidão enquanto o sol aquece os corredores vazios. O jardim envernizado com flores de plástico esconde a parede oca para o futuro do nada. Descobri casas abandonadas na minha rua. Cada uma grita um nome quando a noite cai. 

Hoje é dia de vermelhecer em algum canto do mundo. Os intervalos entre o vento e o muro é o calor. Alguém canta na redondeza. Contam histórias de horóscopos e tarôs. vejo as constelações todas num céu sem nuvem… o rumor da pele desenhando tatuagens. Misturo os assuntos e rasgo a carta.  As frases ficam soltas em uma estrada diferente da outra. o mar afasta a possibilidade de escolha. Em algum lugar, a estrela fica fora do céu. O vermelho ao meu redor é apenas a vontade de estar onde não estou.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Corredores, Codinome Locura

Em estado de pausa

Quando molhei o jardim
a flor cheia de sede quis ser mais
e nas paredes frias rabisquei seu nome infinitas vezes.
Cantei Gadu enquanto a flor em seu estado de embriaguez
pedia mais água e a terra clamava chuva.
E em estado de pausa o vento mudou-se para além dos quintais.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Corredores, Codinome Locura

Os riscos imaginários…

Os riscos imaginários nas suas paredes eram voos migratórios das aves no jardim.
Era asa para todo lado… e assim, espalhavam as sementes.
Nenhum jardim nasce atoa e quando nasce, atrapalha a emoção da migração das aves.
E nos desvarios das incertezas, o pólen da flor é apenas suas paredes brancas com riscos imaginários.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Corredores, Codinome Locura

O elemento do jardim é a flor.

Começou a escrever a história pelas mãos dele – as mesmas que arrancam as ervas do jardim – é a que cuida do jantar e me levanta quando acontece dias como esse.
Calçou-me os sapatos e riu. Brincou com as bolinhas da roupa.
Perguntou sobre a estação. Colheu as amoras. Quis receita de geleias.
Cantou desajeitado na sorte da palavra. Sempre era o lugar daqui.

Ligou o rádio. Me olhou com olhos de serenata.
A intimidade contemplada. Desafiou-me ao riso.
Falou da geografia das horas.
– O tempo é o sinal de tudo. Tudo passa.
Mostrou-me o jardim. Era ali a direção da cura.

Fui.

Mariana Gouveia
Série Ser de flor

Corredores, Codinome Locura

Praticamos o nosso modo coffee talk…

Era aquela alegria conservada guardada em potes,
como a poesia da mãe
Tudo feito em desconcertos para consertar a alma.
Era como se tudo antecedesse o tempo
Por isso, em alguns dias difíceis
Ela ia lá no pote
Respirava a poesia
E com isso, conservava a alegria de viver.
Mariana Gouveia

Chegou o último dia de agosto… E minha carta hoje é para agradecer a você que esteve comigo nesse agosto diferente.  Tentei aqui te entreter com poesia, com minhas emoções. Conseguimos praticar o nosso coffee talk. Você esteve aqui, e a gente trocou mais do que poemas e histórias. A gente esteve junto. Mesmo em dias complicados ou não, você estava aqui com seu like, seu comentário e até sua quietude.

Em agosto, temos o Beda – blog Every Day – que acontece duas vezes ao ano, em abril e em agosto. É um desafio postar diariamente, mas também é muito gratificante ver o engajamento, tanto dos blogs participantes, quanto dos leitores fiéis do blog.

Nesse agosto, derramei aqui poesias, cartas, desabafos e histórias vividas por mim. Espero que você tenha gostado.

Setembro vem aí… e a gente logo pensa na tão falada canção de Beto Guedes – sol de primavera – que exalta a primavera e as boas novas:


“Quando entrar setembro
E a boa nova andar nos campos
Quero ver brotar o perdão
Onde a gente plantou juntos outra vez”

Mas, a canção que ficou mais gravada em mim, diante de tudo que escrevi para vocês em agosto, é a música da Vanusa, no refrão que ecoa agora:

Fui eu que em primavera
Só não viu as flores
E o Sol
Nas manhãs de Setembro

Eu quero sair
Eu quero falar
Eu quero ensinar
O vizinho a cantar

nas manhãs de setembro”

E é isso que desejo para você nesse mês que começa amanhã… que você cante e viva a vida, apesar de tudo que está aí.

Conto com você que esteve comigo aqui todos os dias e que possamos fazer com que a primavera seja vivificada dentro de nós… e que possamos fazer valer a frase da música de Beto Guedes que citei lá em cima:

Já choramos muito
Muitos se perderam no caminho
Mesmo assim não custa inventar
Uma nova canção
Que venha nos trazer
Sol de primavera
Abre as janelas do meu peito
A lição sabemos de cor
Só nos resta aprender

Aqui vai ser sempre um cantinho onde você terá seu lugar, independente de qual cidade do mundo pertença. Seja em silêncio ou comentando… vai haver sempre uma xícara de café te esperando.

Grata tanto!

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi Obdúlio OrtegaLunna GuedesRoseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina

Corredores, Codinome Locura

Incompleta…

Levantou-se e pensou na vida. Observou o dia claro, as nuvens, poucas no céu. Lembrou-se das escolhas, dos caminhos. Procurou entre seus pensamentos algo que realmente a deixasse feliz, e percebeu que sua infância havia lhe proporcionado vários momentos de felicidade.

Desejou encher sua barriga com uma criança, dar vida com uma outra vida. Vê-la crescer. Imaginou-se falando:
– Desce, filha(o), daí… vai se machucar.

Lembrou que tinha que comprar comida para o cachorro. Sorriu ao imaginar o sorriso de seu futuro filho.

Não existia ainda um futuro, mas era bom saber que poderia imaginar isso quantas vezes quisesse. Lembrou-se das vezes em que, sentada na sala, montava sua casa de boneca… adorava ver desenhos e se imaginar a princesa da escola. Olhou o relógio e apressou-se… estava atrasada. Havia muitas coisas para cumprir, compromissos inadiáveis, telefones que insistiam em tocar. Mas ela estava lá, parada no tempo. Vendo a vida como se estivesse na janela. As pessoas passando e ela como expectadora.

Gostava de andar com os pés descalços, e estava – naquele momento – descalça. Aprendera que não podia… uma proibição. Regras. Quando era criança, não podia, mas agora, depois de grande, precisava andar descalça. Liberdade para suas manias.

Lembrou-se da cólica, das dores, lembrou-se de um amor passado. Olhou para o chão, conteve-se em procurar um chinelo, mas desistiu. Havia muitas coisas para cumprir. A comida do cachorro para comprar. Olhou a porta e viu recados. Leite. Precisava tomar café. Não havia pães, ficou com fome e pegou um pacote de bolacha. Em sua cabeça, pensamentos soltos, regime, fome, dia, regras, nenéns que não existem, comida do cachorro, bola, brinquedo, pés. Sonhou em estar em uma praia. Escolheu a roupa do armário e colocou a música para tocar. No rádio, notícias. Olhou o céu azul e desejou ouvir uma música alegre. Mudou de estação. Notícias, propaganda e, de repente, um som que preencheu a alma. Pensou novamente no futuro. Queria ser mãe. Não era o momento, mas queria. Vestiu-se.

Por ora, esqueceu-se dos momentos ruins. Fez uma menção aos santos para iluminar seu dia e saiu… como quem cumpre suas diretrizes, como quem sonha em conquistar o mundo…

P.S.: Anos depois, o filho – já grande – chega da faculdade e fala da Grécia. Muda a estação do rádio, põe numa música engraçada e gritante.

– Mãe, tem de comprar a ração da Meg…

O sorriso do rapaz era largo ao brincar com a cachorrinha… e, nesse instante, revivi aquele dia em que desejei ter meu bebê, lembrando-me de todos os anos. O primeiro dia na escola, o primeiro tudo dele…

Vendo-o assim, bebendo água na boca da garrafa pela milésima vez, reprimo… e, pela milésima vez, ouço o “relaxa”…

P.S.²: A vida levou o homem para longe… e depois de anos realizou o desejo de subir degraus em busca da fé e mais uma vez, descalça, reviro os textos que falam do meu amor por ele. Por acaso, encontrei esse e achei que precisava de um complemento melhor. Lembrei-me de uma frase do meu pai de quando me casei: ” Depois que se constrói uma família, tudo que você deseja é que seu filho seja forte… para enfrentar os momentos bons e ruins. Voar é só uma parte do caminho, no alto. De resto, o chão é onde o pouso é seguro e a estrada te espera para seguir adiante.”


Meg se foi há alguns anos e hoje, Yoshi e Lolla cumprem a função de cuidar dessa humana aqui, que mesmo depois de tantos anos ainda pensa se ele comeu, se dormiu, se lavou o uniforme, se levou casaco… essas coisas de mãe. Da mãe que eu queria ser e sou.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de dizer eu te amo e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia LeonardiObdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina