Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta ao amor dentro dos dias

 

Como a gente dimensiona os dias? Qual a intensidade que a vida nos atinge? Se eu fizer essa pergunta, você teria a resposta ou a gente buscaria ela nas memórias de antes?

Eu ainda trago em mim coisas do tempo em que eu era apenas a irmã do meio que ficava admirada com a irmã mais velha normalista… aquela que me inspirava a escrever poesias, me animava a criar as coisas de encantar e aquela que eu espiava de longe e admirava a força e a coragem, mesmo sabendo-a medrosa…

Os anos vão nos moldando e nos confronta todos os dias e a rotina cumpre seu papel diário… cada um segue seu caminho e o destino nos levou uma para longe da outra e não me lembro buscando na memória qual aniversário seu a gente passou juntas…

Eu sempre vivia o 18 de fevereiro em pensamentos para você e enviando mensagens de todos os desejos de bem viver para que você nunca se sentisse só, mesmo estando com mil e quinhentos problemas na cabeça… era seu dia e eu amanhecia plena de você… a minha mia que cruzava a estradinha e ia estudar for para ser alguém na vida… a minha irmã mais velha que era o exemplo de mulher e coragem e ainda é… mesmo que você não acredite nisso.

Hoje, estou aqui… escrevo enquanto a cozinha não te cabe e vive cheia de presença sua… enquanto sua arte predomina na casa toda e extravasa na soberania de sua presença… hoje, meu abraço é de perto e meu amor tão grande que ultrapassa o sentido de admiração.

Te amo muito!
Feliz Aniversário!

Mariana Gouveia


Corredores, Codinome Locura

O idioma da tua língua

uso o dialeto das digitais

aquele em que a mão vagueia para tirar tua roupa

e descobrir teus nortes

teus rumos

teus desvios

tua rota

onde trafego insana

e busco o idioma da tua língua

Mariana Gouveia
Ph: Pinterest

Colheita · Scenarium Livros Artesanais

Colheita

Desde pequena, o pai a armou de sementes
A parteira que a viu nascer rezou e desejou-lhe o dom
de semear.

Era assim com os irmãos, com as meninas dos vizinhos… com toda a gente que via nas vielas, trieiros e caminhos.
Ria e oferecia sempre potinhos prontos com terra, adubados… e as sementes – germinadas.
Com ramificações a criar vidas.
Ajudava a molhar a terra
A vida, era feita de lágrimas e nem toda semeadura era boa.

Depois que plantava
contava os dias no calendário
Sabia a data exata que o broto surgiria na terra

A folha crescendo…
o olho acompanhando o rito do amor
Acontecia de várias formas no quintal

Mariana Gouveia
Colheita
Scenarium Livros Artesanais
Ph: Xing Jianjian

Corredores, Codinome Locura

Consumista

Comprava vestidos de outras cores e incrivelmente não os usava.
Adorava os vermelhos.
Tinha um quê com a cor.
Precisava descobrir porque.

Mariana Gouveia
ph: Pinterest

Colheita · Scenarium Livros Artesanais

Colheita

Descobriu que a terra devia sentir o gozo com o toque das mãos
Feito a pele… em noite de lua.
Tem lua que é ideal
para semear… e gemer!
Em noite de lua cheia,
toda loba uiva ao semear
desejos no corpo.

Ao semear, cantava e seguia o rito das águas
A terra – em alguns períodos era árida.

Molhava os dedos com a língua e
… e ia jardim afora florir
a flor absurda do prazer.

Mariana Gouveia
Colheita
Scenarium Livros Artesanais
Ph: Pinterest

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

É, Maria…

“Maria é sua tia…” você respondia…

Minha Maria Eudes

,
Ainda consigo rir de algumas frases suas… é como se eu tivesse ouvido a pouco e embora esse ano sem você tenha sido vazio eu te percebi nas coisas que fiz. Devo confessar que em certos dias busco seu número no meu celular à espera de que me diga: coragem, faça, pinte de vermelho, corta, raspe a cabeça, use saia curta… essas coisas que você dizia e me encorajava e só daí me lembro que já não está mais aqui.
A minha casa está cheia de lembranças suas… desde tecidos de artesanatos que ficaram parados dos projetos que fazíamos juntas até as revistas dos bordados.

O último vidro de perfume que ganhei de você ainda tem as últimas gotas que não usei, o brinco de pérola, a blusa de bolinhas, livros que a gente dividiu juntas as páginas…

Devo dizer que nunca mais atravessei a ponte para sua cidade, porque eu só ia aí para te ver e meus sábados ficaram insignificantes sem você… é o dia da semana vazio, onde meu compromisso por tantos anos era ir almoçar/viver o dia com você…

E assim, os dias se transformaram em semanas, meses e já é um ano… como a gente conta isso? Como se traduz tanta vivência em uma partida insana?

Mas, talvez, eu tenha sido abençoada mais uma vez… lembra-se que eu dizia sobre Marcelo e o poder da voz em uma mensagem que me resgatou de uma depressão terrível? Agora, tenho a amizade dos seus meninos todos. Às vezes, nos consolamos nas mensagens, nos abraçamos no seu amor ou simplesmente estão ali, ao meu alcance quando sua saudade me abraça.

Sei que sua danadeza deve estar fazendo arte aí e claro que você daria um jeito de enfeitar as nuvens com laços igual fazia aqui com as caixinhas vazias de margarina.

A gente ainda vai se abraçar de novo…

Com saudades,
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Arco-Íris

Luci,

Eu também vi um arco-íris hoje… ainda era manhã chegando e ele engoliu a casa da vizinha num gesto de abraço. Sorri quando vi a cena e quis registrar. Depois, caiu uma garoa miúda e a chuva se foi. Ficou nas trepadeiras as gotas como se fosse um colar de contas.

Eu vi o dia passar leve dentro do segundo dia do ano. Brinquei com o estuque do muro e lembrei-me do seu pai na época em que ele não queria comer. Depois, procurei por nuvens que talvez te servissem de estimação e no fim do dia eu queria te contar uma história bonita…

Vi as aves retornando aos seus umbrais, os cães se estranhando por causa de uma bolinha e a magia do casulo se fechando…

Tinha ainda tanta coisa que eu queria te falar, mas o que ficou em mim nesse domingo é o arco-íris abraçando a casa da vizinha.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

2022…

Eu quero um colo, um berço, um braço quente em torno do meu pescoço,
uma voz que cante baixo e que pareça querer fazer-me chorar.
Eu quero um calor no inverno, um extravio morno da minha consciência.
E depois, sem som, um sonho calmo, 

um espaço enorme como a lua rodando entre as estrelas

Caio Fernando Abreu

Olá, Ano!

Não sabia se te chamava de meu caro, de querido – ainda não somos íntimos o suficiente para ser tão informal. Confesso que, daqui do meu quintal nada mudou ainda. Com exceção do calendário que troquei – o qual ganhei do pet shop, com uma foto engraçada de um cão – que ficou vazio depois de arrancar a última folhinha ontem… apenas com o cão a saltar, estático em papel… foi ali, que ao longo do ano que terminou que anotei o dia da troca do gás, a data da consulta e o dia em que os casulos se fizeram asas…

Curiosamente, hoje, havia borboletas por todo canto… fiquei a respirar a brisa que oscilava todas as folhas do pé de ipê enquanto a água fervia para o café. Molhei as plantas, arranquei algumas folhas velhas… dei afago aos cães e virei colo da rolinha por aqui.

Devo dizer que você já chega chegando por aqui… a ave que vagueia no quintal todos os dias veio parar na minha mão em busca de aconchego. A princípio, pensei que estivesse machucada, mas, dentro dos meus carinhos e toques em busca de alguma asa quebrada ela sobrevoou e se alojou novamente em minha mão… dormiu, enquanto eu respirava amor olhando pra ela e tentando fotografar o momento…

Sabe aquele momento em que a esperança ganha força dentro da gente? Pois é… tive esse momento hoje, enquanto todos dormiam e apenas eu, a xícara de café, o quintal, os cães, a ave e você iniciando sua jornada de 365 dias presenciaram esse momento mágico.

Você ainda é um menino, Ano… e daqui a alguns dias estaremos mais próximos, quem sabe ainda não te escreverei mais cartas ao longo dos dias… por enquanto, te envolvo na minha mão com a mesma confiança que a ave teve em mim.
Vou ali te viver!

Feliz Ano Novo!
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

# extratos

#extratos III

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Às vezes ouvia músicas que trazia momentos. Meio relicário, sei lá… O rádio tocava a canção e ela queria dançar.

Também usava palavras que não eram suas para dizer que a amava. Palavras da própria canção que ouvia e que ela queria dançar.
Era um desejo secreto.

#

E o silêncio tomou conta de tudo. Ao percorrer os aposentos nesse dia buscou ela em cada canto.

O espelho mostrava a estranha em que ela mesma havia se transformado.

Não havia mais música tocando.

Só o vidro vazio do seu perfume continuava a exalar a essência que ela tanto buscava nos lençóis, no travesseiro.

 

#

E havia ainda o sabor da sua pele, a textura, aquela maneira de apenas fechar os olhos e tocá-la…quase sentia o gosto.

#

Chovia. Chovia sempre. E as palavras dela sobre a chuva ecoavam por ali…

e a maneira como ela lia Maria Teresa Horta ficou registrado: Ah, essa Maria Teresa!

#

Também sentia a sua falta:  a suavidade plena de pensar nela ali.

bebia o café junto com ela. Era assim que o dia começava a ser lindo.

#

Um dia, o rádio tocará a mesma canção e ela estará ali ao alcance dos beijos e das mãos.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

# extratos II

# extratos II

Hoje não me lembro bem do que disse – ou lembro de tudo, sei lá… –

comecei a esperar pelas visitas

a marcar a cidade no número de quem entrou

comecei a desvendar nomes dela…

a criar mitos, lendas.

Precisava dela pra começar o dia.

Reitero…PRECISO

assim de precisar mesmo.

E dos azulejinhos que chegavam e arrancavam sorrisos

aprendi a provocar

a mudar desejos de palavras;

a chover…

“não vou esquecer nunca da sensação de chuva… está a chover aqui…”

aprendi a sentir borboletas a voar na barriga;

a gostar do azul, do laranja, do escarlate, do preto e branco…

a descobrir palavras novas e aprendi a medir a saudade pela imensa solidão que os dias fazem em mim.

E que em mim existem dois mundos…

Mariana Gouveia