Corredores, Codinome Locura

A inquieta tarde…

e o pouso imaginário era de um homem, só o canto. Cabia na certeza das coisas o afeto rabiscado na parede crua. O muro tinha a tinta apagada e as folhas do pé de algodão caíam no quintal.

A senhora na janela do outro lado da rua resmunga a solidão e o roubo das frutas. Nunca sabe se planta para si mesma ou para as aves, que as roubam antes mesmo de provar. Escrevi mais cartas para os envelopes coloridos e joguei fora lembranças mornas de amor.

No baú não coube mais as notícias diárias e nem as receitas das noites de insônia. A ternura pousa na minha frente e tem asas de delicadeza no azul. Sabia do encantamento da ave e quis repetir que não havia dado nome a ela. Nome é essa coisa pelo qual te chamam e você se reconhece dentro dele… mas o que dizer de um pássaro que é estrangeiro no céu que voa?

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Tenho tido visões marinhas no tapete da sala…

Dizem que enlouqueci nos últimos dias. Deve ser abstinência de sua voz ou essa mistura de estações dentro do dia. Vejo o tempo todo asas que voam a esmo nas ondas que crio na mente.

Sinto essa obsessão incessante sobre você e suas lendas acontecendo no meu quintal. Viajo contigo pelas ruas do bairro. O horizonte se veste de cinza dentro do jardim. Por sorte, os correios hoje não funcionam. Escrevo cartas que não enviarei.

A solidão tem esse dia de domingo tatuado na pele. Tem toque onde a sensação de sua pele em minhas digitais arrepia a alma.

Deu vontade de morrer de amor. A gente deveria morrer aos domingos – quando as sombras das amoreiras ficam mais leve – de frente para o quintal em seu instinto de asa. Essa fome de maresia rasga a pele e esse muro que não rompe os diques do rio que deságua na minha rua e conto no calendário os dias que te perdi.

Mariana Gouveia
Ph: Nicoletta Ceccoli

Corredores, Codinome Locura

# diário

# diário

Da minha janela vem um vento…
Um vento que me alegra…me alegra porque traz o canto dos pássaros com ele e sacode a cortina cor de amora.
Chego a pensar que o vento é um menino brincalhão que tropeça nos meus cabelos curtos e fica sem ter onde segurar e por isso sai levantando a saia do meu vestido lilás.
Aliás, quase todos os dias ele vem assim…Adora o ritual tênue da manhã que se agiganta onde o sol espreguiça e ele dependura nos galhos das árvores da vizinhança e canta sua melodia suave de começar do dia.
Ali, amparada pela parede rente a janela, colhendo canto de passarinho que junto com o vento vem todo dia eu abro os braços pra caber você no meu abraço.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Sui generis

Sui generis

De seu próprio gênero e adjetivo
tão imprevisível
e comum
e por isso rara
e por isso cara
e por isso vem de especial
quase estaminal
colo, abraço, um…

Prefere a cor
e envolve amor
sempre quando vem
traz bem…e alegria
alegria é ela e ela tem…

Alegria
alegria ela,
alegria bela


Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

O dialeto das digitais

uso o dialeto das digitais
aquele em que a mão vagueia para tirar tua roupa
e descobrir teus nortes
teus rumos
teus desvios
tua rota
onde trafego insana
e busco o idioma da tua língua

Mariana Gouveia.

Corredores, Codinome Locura

As lembranças ecoam aqui.

Folheio as fotografias como se elas pudessem me fazer voltar no tempo – quase vejo as cenas de novo – e todo ano é essa memória que busco.

Meu pai, ao redor da fogueira, nos falando sobre as simpatias da véspera do dia do santo. O cheiro dos doces, do milho, do fogo e os irmãos menores, na correria como sempre. Será que algum dia eu também corri assim?

Isso era tão comum no 23 de junho. Viver esse dia era tão mais legal do que o próprio dia de São João. Os enfeites, feito durante a tarde, dentro da mesma algazarra fazia com que minha mãe repetisse o mesmo mantra de todo ano: o melhor da festa é esperar por ela.

E assim, acontecia a alegria na dança ao redor da fogueira, nos comes e bebes e na lua que sempre foi testemunha do amor que havia ali.

Viva São João!

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

O que faz brilhar seus olhos?

Diante da pergunta de minha editora busquei na memória o que faz meus olhos brilharem… Não encontrei só uma coisa, um fato. Encontrei várias coisas e momentos.

Quem me conhece ou me acompanha por aqui sabe o quanto o meu quintal me abraça e de como me sinto nele, entre os voos do meu beija-flor e a confiança para o pouso e uma brincadeira com Yoshi.

Como muita gente sabe, ele nasceu aqui, no meu quintal, dentro do xaxim de orquídea, e foi abandonado pela mãe ainda pequenininho. Desde então, há quase 12 anos, eu cuido dele, nos momentos em que ele me permite ser mãe e colo.

Meu olho brilha quando vejo ele dormindo no varal… meu coração conhece a ternura que ele exala e atende a um simples chamado, quando grito seu nome.

Acompanhar seu sono me acalenta a alma e ouvir seus chamados pela manhã, bem antes de abrir a porta me mantém dentro da poesia que faz com que meus dias sejam melhores.

Eu poderia dizer aqui que meus olhos brilham pela delicadeza das flores que nascem aqui, pelo brilho da lua que caminha no meu céu… que o ipê quando amanhece florido embala minha alma, que Yoshi com seu jeito carinhoso me envolve todinha e que Lolla e sua doçura se torna humana com seu olhar pidão. Poderia falar do sol que ilumina com seus raios o meu quintal, deixando seus rastros por aqui…

Também poderia colocar aqui mil fotos dele, de várias formas… mas aí, seriam seus olhos que iriam brilhar, isso, se já não brilha aí!

Mariana Gouveia
Participam dessa Blogagem Coletiva
Obdúlio OrtegaLunna GuedesRoseli Pedroso
Scanerium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura

O cheiro do tempo suave

o cheiro do tempo suave

Habito nas imensidões do campo
decoro o decote insano
onde tuas mãos e teus olhos pousaram
o cheiro do tempo suave será tão tênue
trará sentidos de perfumes teus
e os avisos da saudade, constante
Te olho, me molho
para ti

o néctar que gostas de devorar
e a pele em arrepios.
A vastidão das madrugadas insones e do dia leve que me traz você.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Simulação

Simulação

Não simule que eu me cure de você.
Deixa o respirar passar,
deixa o som ligado pra eu dançar mesmo que você não possa ver…
Deixa eu me corar, suavizar
Não simule que eu me perca de você…

Porque mesmo no mais raiar da primavera
acontecem horas de outono

(internamente)…

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Como dominar os quatro ventos?

Como dominar os quatro ventos
Você foge de mim porque tem medo do amor ou de amar.
Mas eu sou discreta, amor…
eu só falo de você aos quatro ventos…quem espalha por aí é ele.

Como dominar os quatro ventos?
Eu mal consigo dominar meu pensamento quando penso em você.
Quando penso que te toco desencavo redemoinhos, sinfonias soltas, fantasias loucas.

A culpa é do vento mensageiro que mal meu pensamento pensa em te tocar, ele espalha pelo universo inteiro.
Por você, o vento leva a melodia espalhando e faz com que o teu perfume me embriague.

A culpa é do vento, amor. Não culpe a mim nem os meus sentimentos.
A culpa é dos quatros ventos. Como dominar a melodia, a essência, a brisa e a poesia?
Como dominar, amor, meu pensamento?

Mariana Gouveia