Divã · O lado de dentro · Scenarium Livros Artesanais

Toque…

Tocou aquela flor como se fosse música
Dançou seguindo o som,
Como se fosse vento

Ouviu a melodia
Como se fosse mantra

Sentiu a pétala
Como se fosse pele

O arrepio
Como se fosse prece

E as notas, sinfonias e verdades todas,
… Uma coisa certa!

Mariana Gouveia
O Lado de Dentro – Scenarium Plural Editora
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso – Suzana Martins e Bob F

Divã

Perdeu a conta dos meses…

Perdeu a conta dos meses...

já havia se passado dois ou três
não se lembra
Só lembra da falta constante dela.

Pensou que ela voltaria na nova estação
Por isso, cuidou do jardim
revolveu as raízes, adubou a terra
– a flor que era delas nasceu –
da semente que ela enviara.
Rubra. Majestosa, reinava no jardim todo.

Deixou as marias-sem-vergonha com vergonha.

Se preparou para o dia com perfume
vestiu a roupa preferida
decorou o melhor poema

o dia corria solto e as horas marcavam que já era o fim do dia

Quis arrancar a flor.
Quis apagar o jardim

Chamou pelo nome como fazia todo dia

e só aí percebeu que a ausência era para sempre

Havia a possibilidade de enlouquecer de amor?
Se desnudou para a flor
Revelou seu amor para quem não existe

escreveu o nome dela em todas as coisas.
Repetia a canção que ela gostava

depois disso, arrancou a estação do calendário.

Mariana Gouveia.
*imagem: Anna O.

Divã

Era uma vez, um século

Contaram para mim uma história. Queriam ler a palma da minha mão. Disseram que as manhãs aconteciam em mim como um desfolhar da folhinha com o dia do santo. E que o azul do meu céu era como um carro antigo exposto na vitrine e meu quintal uma tela difusa de instantes.

Me deram as respostas e eu nem havia feito as perguntas. A arte era barroca em meio ao novo. As paredes da igreja matriz sendo mudadas e o restaurador dizia sempre o nome de quem havia doado a maior parte do dinheiro. A tinta modificada via computador e tudo tão diferente aos meus olhos.

A mulher de preto carregava um luto não previsto. Ficou comigo a espreitar o frio e a sacudir as mãos, como se tocasse uma sonata no ar. Calada, segurou minha mão como se fosse pesada a dor.

Começa a ler um diário distinto e enumera o labirinto da flor. E eu descalça, nem sabia nadar… Queriam ler a palma da minha mão… falaram sobre a estrela secundária e era pobre o destino nos dias frios, enquanto nos corredores, o vento cortava a pele.

Seria perfeito essa noite se chovesse e minha mão fosse colo para acolher a vida miúda das coisas. O amor sendo feito nos gestos. O amanhã, a vida de quem a gerou ganha ares seculares… Repito a palavra fácil em todos os instantes da vida, enquanto a veia fraca conta o cabelo que cai. Mas a mão… ah! Essa é colo para acolher a vida miúda das coisas e o amor sendo feito nos gestos.

Mariana Gouveia

Divã

Era uma vez, a solidão dos cantos das aves.

Há solidão que é como um pássaro fixo na árvore sem folhas… os galhos a pender como garras a invadir o espaço e a alma a ouvir a canção que toca ao longe.
A estação invade a tarde e o coração ocupado demais para amar.

Há dias em que caminhamos para dentro da gente, refazendo caminhos, desenhando novas histórias .

O outono despertou aqui e as folhas caem como se ficar ali, na árvore fosse penoso demais e o chão fosse o aconchego do colo. O outono aparece nesse sábado morno quase às vésperas do inverno, que não virá também – eu sei.

As horas de fim de tarde trazem com elas um vento frio com o qual não acostumo nunca.

Há risos de crianças na rua, as pipas bailam no sol quase morrendo e o pássaro a gorjear na árvore morta, como se quisesse companhia enquanto descubro que seu canto pesadamente no galho, em um céu quase cinzento, quase noturno a anunciar chuva, e palavras que fogem dentro de mim só são ditas na solidão dos cantos das aves. Solidão é uma ave a pousar na árvore morta.

Mariana Gouveia

Das rotinas · Divã

A intenção do silêncio no barulho das coisas

Ph: Tumblr

Depois dos dias de silêncio passou a inventar histórias… Ouvia canções em idiomas que não conhecia e nem sabia a tradução.
Era uma maneira de matar o silêncio das coisas.
A bailarina de porcelana a enfeitar a mesa do canto. O elefante de vidro fosco – sempre mudo – ao lado da vitrola antiga, encontrada em perfeito estado no brechó da amiga.

Repassava os discos de vinil como se buscasse motivos para o acontecimento das coisas.
O encanto guardado no baú da memória.

Depois dos dias de silêncio passou a escrever cartas que nunca enviaria – com exceção de uma, relatando o fim – e nunca seriam lidas.

Depois dos dias de silêncio passou a ouvir as folhas e o pouso da libélula no varal de roupas e a condenar o barulho dos cães na rua debaixo quando percebiam que o homem da reciclagem se aproximava com sua carroça e a cantoria que acordava o silêncio das coisas e depois disso tudo era barulho dentro dela.

Mariana Gouveia

Divã

Dos dias de saudade

Dos dias de saudade

 
 

Morri nas gavetas sangrentas da memória.
Havia ali uma faca cortando minha pele e a respiração para e a vontade extrema de gritar seu nome. O quintal é pouco para a loucura que antecede milimetricamente dentro de mim.
Rabisco seus nomes – todos aqueles que eu te chamava – nos muros.
Desenho corações tortos e o céu cai em uma canção que entoa sem parar.
Não é o dia, não é o dia – eu repito – e as crianças riem de mim.
Alguém desavisado de minha loucura pede ajuda. E meu olho segue o pássaro sem asa. Sou levada e não canso de falar.
Todos os dias eu aconteço nas memórias dela. Todos os dias ela me mata na memória dela.
Toda manhã eu recomeço a rotina de reviver dentro do que eu lembro.
Há um corredor extenso e a moça vestida de azul me aplica algo que aplaca a fúria da alma.
Ela diz isso rindo e dou meu braço para o líquido que alivia a dor física. E a alma apenas quer o riso amoroso que um dia ela me dedicou.
Perguntam-me o nome. Tão vago, tão distante, por pura burocracia já que todo mundo me conhece e sabe de minhas loucuras plenas.
– Me chamo flor – eu falo – o que atrai o riso na moça vestida de azul e que repete comigo o nome pelo qual me chamam.
Não, seu nome é esse. Flor é a que mora dentro do seu coração.
E canção repete:

“Pode ter meu número
Pode tirar meu nome
Mas você nunca terá meu coração”…

e eu repito: porque meu coração é dela. Morro outra vez nas gavetas vazias das lembranças dela.

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo
Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega
*art: Christian Schloe

Divã

Tenho um dragão que come na minha mão.

O dia rompe as rotinas do nada. Era hora de espionar segredos. Na rota dos olhos, o espelho. Denuncia o cansaço de não dormir.
Ela anota. Eu anoto. Rasgo palavras que havia escrito. Uma espécie de silêncio no ar. Tão gritante e ao mesmo tempo, ensurdecedor.
Ando até a janela. O horizonte mostra a ilusão que vivi.
As frases ecoam na cabeça. Divagações do que poderia ter sido diferente e de como ainda brinca quando fecha etapas.
Escrevo o nome dela na janela do agora. Quase grito, quase chamo. Calo.
Ela anota. Eu apago. Rasuro. Sublinho. Acho bonito um nome sublinhado.
Desenho um coração junto. A neblina de fora oferece a opção da escrita.
Um homem pinta um portão de verde. Uma joaninha cai na lata de tinta. Eu a salvei antes que a tinta marcasse as asas.
Ela me olha. Espia os sentimentos que me atinge.
Falo de coisas surreais. Tatuei o nome dela no meu peito. Tenho um amigo imaginário que conversa comigo. Me diz que se chama Tempo e que a melhor escolha da vida, é viver. É um dragão que vive na minha mão. Sublinho a palavra tatuei. Ela ri.
Lembro do riso dela. Lembro de tanta coisa que fizemos juntas.
– Segura ele. Nunca vi um dragão.
– Ele é inofensivo. Só vive no meu imaginário.
Ela anota.
Fala da boneca de milho que era amiga dela quando era menina.
Penso na rapidez das horas. Ela olha o relógio na parede.
Confirma o diagnóstico: Falta de lucidez.
Coloca um comprimido vermelho na minha mão. Meu dragão come.

Mariana Gouveia – Divã
Das fragilidades secretas

Divã

Ecoa

Ph: Savannah Daras

Ecoa.
Era quase vento sem ter asa.
Era quase pele sem ter poro.
Às vezes, é preciso vento.
Um poeta completa anos e eu, mesa.
Ela, cama…
Libélula na boca em asa
e gozo.

O vento mora aqui
e a maresia invade as cortinas.
Ganha rumo na risada dela.

Quebra regras,
cita nomes.
Me desenha em círculos
e daí eu sou só poema na palavra dela.

Relembra o dia
em memórias todas.
Canto ela nas nuvens
Pego ela no ar.
Respiro a leveza no encanto dela.
Depois disso, prazer é meu nome

Mariana Gouveia
Divã

Divã

Kandinsky e Matisse

Ela trocou o quadro de Kandinsky de parede. Agora fica atrás do sofá, então não posso ficar olhando para ele como antes. Em compensação Matisse me encara por dez longos minutos antes de entrar.

– Parece que faz zum século que não venho aqui. Mudou tudo. – falo comigo mesma, mas ela escuta.
– A cor já estava desbotada e fiz algumas mudanças na entrada. Não gosta de mudanças? – ela pergunta.
Respondo que algumas mudanças me atravessam e meus olhos fitam a janela, Reparo que a cortina não é a mesma – a sóbria de sempre – e que o sol entra por uma fresta.

– Matisse? – aponto o quadro na parede lateral, onde antes havia um vaso grande com uma folhagem estranha que não está mais lá em canto algum.
– Você entende de arte? ela me pergunta com atenção voltada para as anotações.
– Que nada! Conheço algumas, mas notei Matisse e Kandisnky na sala. “Um único tom não é nada em termos de cor; dois tons são um acorde, são a vida.” – falo quase em sussurro.
– Oi?
– Frase de Matisse – digo – e a pintura me lembrou dela. Gosto das cores. É isso. gosto das cores.

Ela anota e eu suspiro. A cortina balança, um vento atravessa a janela semiaberta. Falo do tempo, das coisas que penso, de como o mês ganha velocidade das horas e do azul cobalto da parede da frente.
– Dá para criar poesia hoje? – ela pergunta com um sorriso terno…
– Acho que consigo falar sobre o azul cobalto e das cores.
Ela ri enquanto me levanto e vou… com a frase de Matisse na cabeça e o azul cobalto na inspiração.

Mariana Gouveia
Divã

Divã

Às vezes, é preciso enfrentar o imaginário.

Ph: Omerika

Ela senta. Anota.
– Sugiro que fale mais sobre isso.
Disparo a falar sobre possibilidades de espera.
O mundo é um lugar comum. Dispensa atenuantes de comparação.
O sonho de conquistar o mundo cabe em um abraço.
Meninos espreitam a solidão, enquanto espanto pássaros no jardim.
Levo eles para o céu. É a estação que sopra em direção do voo.
Coisa de menina dentro da estação..
Despeço do homem na porta da esquina.
Lembro do corpo dela dentro de mim.
Lembro dela dentro de mim.
Eu. Dentro dela.
A pele com cheiro da maresia. Ela todo mar. Direção da minha nau. Ela, meu porto.
Divago sobre vento. Falo da alusão ao que minha mãe dizia:
– Vento é o Espírito Santo. Assovie e ele virá.
Faço isso só pra demonstrar. Uma brisa suave mexe o cabelo dela. Anota.
Imagino roubar as anotações dela.
Ela me pergunta sobre o que penso do imaginário – suspiro –
– voos…
– Pássaros?
– Asas. Liberdade. O voo não é solúvel no ar. De toda queda. Só às vezes, eu quero o chão. Há dez maneiras do imaginário agir.
-Liberdade?
– De dançar, voar, pousar…
Empurra os pássaros com a mão.
Ela anota. Pega na minha mão. Olha na direção da janela.
– Me mostra.
E começa a falar de ninhos.

Mariana Gouveia
– Divã