Divã

Às vezes, é preciso enfrentar a verdade…

Ph: Amanda Mason

Aquela que dói no peito e bate na porta avisando: não tem jeito.
Eu anoto.
Não antecipei o contexto. Apenas repeti. E previ.
Era outono nas manhãs do nada. Um pássaro morre no meu quintal. Tento fazer a simpatia que minha mãe fazia quando eu era criança. Coloco o pescoço do pássaro em volta dele mesmo. Molho a cabeça dele e depois o coloco debaixo de um balde. Dou as três batidas e mais três. Já não tem vida ali.
Já não há voos na minha manhã sombria. Pensei que seria véspera de asas. Acabou.
– Tem dificuldades em lidar com o que acaba?
– Não! Sou áspera na palavra respirar. Acato. Aceito. Sou submissa na atenção dos dias. O fim é sempre uma porta para um novo começo.
– Mas?
– É a reconstrução de um tecido que já foi rasgado. Ditados populares de séculos – Não deite remendo novo em pano velho – e por aí, vai. Diante da verdade possível fica um vão de medo. Planejei o dia de hoje em uma conversa simples, limpa, feliz e pensei nisto com o coração, lembrei de todas as conversas que quis ter, cafés, sorvetes, sombras e varais repletos de palavras e libélulas penduradas na palavra acariciar.
– E não aconteceu?
– Não. Tive de lidar com a morte logo cedo.
Seria possível remendar sonhos?
Anoto eu mesma a minha resposta.
A verdade é que às vezes, é preciso enfrentar a verdade.
Há um pássaro vazio de voo na minha mão.
Hoje, ela não fala…

Mariana Gouveia
– Divã

Divã

Sei o papel de cor. 

 Mas não chego para uma história. 
Golgona Anghel

Ph: Pinterest

O amor, ao entrar, foi logo me perguntando:
– Leu o manual?
– E alguém lê o manual? Ninguém lê.
– E os estatutos, leu?
– Estatutos? O estatutos são lidos somente em ocasiões especiais, cujo interessado é o único que não segue o estatuto e só quando ele é prejudicado.

Passivamente, ele senta e desenrola um rol de papel que não tem fim.
E ali, discorreu por horas sobre o decreto que definiria viver um amor e que todas as regras sejam cumpridas e pronto.

– Como pronto? E esse bater acelerado do coração que parece uma bateria de escola de samba? E esse alvoroço de arrepio na pele ao pensar nela? E esse atirar-me do abismo em direção à ela sem saber se há proteção.
– Leia o manual – é a resposta única – Leia o manual. Siga o estatuto.
– Confesso que seguir as regras nunca foi meu forte. Não que seja dada à rebeldia. Mas, sigo sempre o coração.
– Quando se começa a amar, há mais pessoas envolvidas e na maioria das vezes, mais de uma. Nesse caso, você quebra a regra nº 1 : No amor, ninguém pode sofrer.
– Sofrer é inevitável. Faz parte do processo de apaixonar. O amor não pode ser de posse, por isso, as pessoas sofrem.
– Leia o manual. O amor é único em si mesmo e a paixão, efêmera. Está no Artigo II – não confunda paixão com amor.
– E o que fazer com esse sentimento estranho, que encanta, que grita e faz com que a gente sonhe de olhos abertos? E lá de novo eu, ponta a cabeça, como em um trapézio sem rede.
– Que nome se dá a esse sentimento?
– Quando você o pronuncia o nome dela o dia ganha cores, a vida fica mais leve e tudo passa a ter sentido. O nome disso é encantamento e pode ser um passo para o amor. Está no manual. Artigo 3. Parágrafo Único: É permitido se encantar pelo que é belo, pelo que seduz, pela riso e pela poesia de cada dia. É permitido o encantamento.
– Encantamento tem manual?
– Só quando ele se transforma em amor.

E já saindo de mansinho, repete mais uma vez:

– Leia o manual!
– E alguém lê os manuais?

Mariana Gouveia.

Divã · infinitamente

Tem jeito de anjo, a moça

mas passou a ser indecente
olhar perdido nas nuvens
Resolve ser na mão de alguém

Vivendo doces mentiras do dia,
na noite se fantasia com asas
e pensa em salvar o final feliz da história.

Enclausurada, lá pela meia noite tira a roupa
Traz sempre um cheiro de rosas
(anjo cheira a nuvens – eu acho)

exala amor novo
Sabe ser quente
sabe ser porto – ela diz

e no conto de areia de água doce disfarçada de mar
quer um final feliz.
Satisfazendo os desejos dela dou-lhe o céu e fim

Mariana Gouveia
*imagem: Kamil Vojnar

Divã

Ela é sóbria

Não tem moedas para pagar o preço de ser livre.
Cruza pontes estreitíssimas e ri.
Adoro a estrela que se insinua em seu riso.
Corteja os azuis em um tempo manso.

Tem vontade de voltar para casa,
se bem que a casa dela é em qualquer lugar.
Brinca com as correntes que não fez. Eu rio.

Ora para que o plano A dê certo,
e no C cruza os dedos.

A vida sorri para ela.
Às vezes, ironicamente.
Mas ri quando no pote de feijão encontra sorvete… e amor.

Plena e indizivelmente batiza seus silêncios.
Tem álibi, atreve-se. Ama.
Sempre se deixa enternecer pelo que a alcança.
Talvez, por isso, as pedras não sejam pedras, mas flores.

E tudo que desejo é que o amor há de encontrá-la
desatenta e assim, entre as palavras e o sorriso ela seja feliz.

Mariana Gouveia.
*imagem: Tumblr 

Das rotinas · Divã

Revirou a terra e inventou sementes.

Cavoucou na parede o estuque. Descobriu o azul morto três tinturas depois – ou seria o verde desmaiado do ano anterior? – e se perdeu dentro da cor, nas lembranças.

Salvou a formiga do afogamento em um balde e a viu segura duas folhas do gervão depois da cerca.

O vento mudou-se daqui – pensou – pois já não sente mais a presença dele. Depois do vazio das árvores não ouve mais a canção das folhas. Tudo é esse desgaste de tempo.

Replantou o jardim de novo. Revirou a terra e inventou sementes.

Daqui alguns meses a estação terá mudado, mas reviverá a primavera no amanhecer.

Mariana Gouveia
Das infinitudes

Das rotinas · Divã

Horóscopo do dia

Me pediram o horóscopo do dia. A pessoa que fazia isso morreu – ou viajou, ou mudou – sei lá!
Há uma contradição dos astros hoje. O astral me povoa. Cria multidão em mim. Estrelas cintilam nos olhos dela.
O vento empurrou Júpiter para perto de Vênus. Marte partiu.
Seu signo combina com o meu. O Decanato mora na esquina da rua detrás. Chamam-no pelo apelido. Nunca atende pelo nome dele.
Hoje será seu dia de sorte. Amanhã também. Isso se não enlouquecer pensando nos sentidos que as várias fases da Lua tem.
O tempo muda hoje. Continue nas rotinas do dia.
Vai conhecer o amor da sua vida – isso, se já não conheceu.
Momento dos mais benéficos para viver ou morrer.
De amor.

Mariana Gouveia 

Divã

contraventor

Fala das horas mortas – embora vivas – todo dia.
Do fascínio que uma menina faceira provoca nele.
repete o nome dela infinitas vezes.
Assiste sua dança no seu quintal.
A chama de deusa e eu, atrevida, dou-lhe o nome de deuso.
Nome que achei para a magia das palavras que ele assopra em um teatro de ousadias.

É contraventor.
Usa anagramas e se perde dela em um céu vermelho quando desaba um temporal.
Não se cala, fala, inventa idiomas, cria cidade.

Como as mãos da cartomante, corta baralho de linhas e letras.
Dá voz ao poder de lua, mesmo ela querendo minguar.
Mas toca o que é proibido,
Porque ousa quebrar os espelhos
E me chama ela pelo nome que acha mais bonito.

Pinta flores em carvão ou giz
usa origami mesmo sem dominar.
Chama os ventos astrais para as marcas da pele
onde o vento não voa e cria mais sentidos numa noite simples.

enquanto eu, em sessão solene vivo a poesia
porque a ousadia não pode parar.

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr 

Das palavras das cartas · Das rotinas · Divã

Das cartas que nunca enviei.

Escrevi para ela enquanto as roupas quaravam no jirau feito de angico. Fazia parte de um ritual antigo que minha mãe adorava repetir. Os lençóis de linho a branquear ao sol.

O cheiro do sabão de dicuada, ali, a clarear as roupas e o sol e o vento…

Era isso… enquanto eu escrevia o vento trazia na memória o balanço das folhas, da rede, do cabelo que caía na boca e a voz da minha mãe a ecoar lições.

Contei sobre o tempo de ontem e que havia um bando de pássaros a desenhar poemas no céu.

Amanhã chove – a moça do tempo confirmou com mapas e cores densas – a apontar o dedo para a parte que no mapa, é meu estado.

Brotou flores novas no quintal. Rosa, rosinhas, cravos e as trapoeirabas azuis.

Quando os pássaros cantam eu corro para o quintal a espiar o céu. Eles revoam no sentido contrário e lembro de coisas que te falei. Devo dizer que ganhei o sentido de asa. Os cães quase voam de um sofá para o outro. O pássaro de todo dia aparece e eu escolho palavras ao acaso para desenhar minhas emoções.

Apago, escrevo e torno a apagar. Algumas palavras ganham formas diferentes e sentido igual. Risco e coloco o ponto final
Os pássaros voltam novamente e mais uma vez recomeço a escrever.
Coloco a data, a cidade e por fim, termino uma carta que nunca vou enviar.

Mariana Gouveia
©️ Anne Kramer
Das palavras das cartas

Divã

Navegar…

no espaço de um segundo. Ser pássaro, ainda que peixe.
Mergulhar nas nuvens.
Voar no mar.

Joakim Antonio
imagem: Anka Zhuravleva

Divã

Nós somos o tempo.

É para ti que transbordo todos os dias
E desenho corações nas flores
E dedico-te o raio mais vibrante do sol.

É para ti que me dispo
Tiro o véu, desfolho as vontades.
Que em camadas encobre meu desejo de ti.
E quando vai, e deixa em mim teu gosto agridoce,

Em mim o sabor de teu amor
Eu suspiro, pela alegria viciante de te ter.
Eu te amo e em todas as músicas de amor
As palavras falam de você.

Quando acorda com vontade de mim, faminta de amor,
e teu olhar inquieto me busca e a gente fala do tempo de querer…
Do tempo que te quero e então,
o tempo não é nada, porque nós somos o tempo.

Mariana Gouveia
Ph: Christophe Gilbert