Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Livros

Há aqueles que não podem imaginar o mundo sem pássaros; 
Há aqueles que não imaginar o mundo sem água;
Ao que me refere, sou incapaz de imaginar um mundo sem livros.

Jorge Luis Borges

Eu, criança ainda
Os olhos voltados para os livros que chegavam até nós através de doações, ou enviados via correio pela minha avó materna. Tive tantos livros em minhas mãos que meu desejo era colocar em palavras tudo que eu sentia.
Minha mãe conseguia arrancar da gente o que estava guardado lá dentro da alma. E foi ali, no interior de Goiás, em meio às capas puídas de Fernando Pessoa que desejei ser escritora.
Os cadernos – às vezes, artesanais, costurados pela minha mãe, feitos de papel de pão – ou alguns novos, que eram tratados como tesouros foram testemunhas das primeiras palavras.

O tempo foi passando e como junto com o relógio a vida gira e foi ganhando rumos inesperados. Me tornei radialista e as palavras escritas eram lidas em um programa de rádio. O desejo, ali, guardado no peito e os cadernos, um a um, guardados em um baú.

Um dia, recebi um convite tentador através de um comentário no blog – que eu criara para compartilhar as palavras. O blog era nada mais do que um livro virtual e foi ali que Lunna Guedes, editora da Scenarium Plural me fez o delicioso convite para publicar um livro pela Série Exemplos e nasceu ali O Lado de Dentro.

O livro era mais do que eu sonhara a vida inteira. Com a graça e a arte do artesanato e com o carinho estampado em cada página.

Junto com O Lado de Dentro vieram participações na Revista Plural e outros projetos coletivos da editora.
Já não era mais um sonho. Já era realidade e minhas palavras ganhavam voos para além do meu lugar.

Com isso ganhei o mundo e Cadeados Abertos – Diário de Quatro Estações e a poesia ganhou as rotinas do dia a dia.

E para quem sonhava em escrever um livro, nesse ano nasceu Corredores – Codinome Loucura.  Agora, já são 3 livros. Todos no formato artesanal e com a poesia derramada em cada palavra.

O livro artesanal tem a simbologia de te abraçar em cada costura e o projeto trouxe para minha vida muito mais do que sonhos realizados. Trouxe para minha vida a paixão pelas histórias. As mesmas que encontro nos livros da Scenarium Plural, além de presentear com amigos espetaculares.

Ser Plural dentro dessa singularidade toda me faz mais uma entre os tantos que amam os livros.

Mariana Gouveia
Participam desse projeto:
Ana Claudia – Anália Boss – Claudia Leonardi – Fernanda Akemi – Luana de Sousa – Lunna Guedes – Mari de Castro – – Obdúlio Ortega 
Maria Vitória

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Scenarium 6 Missivas – Outubro

“Era toda errada…Fora feita pelo avesso
Sentia primeiro e só depois via
Era toda trocada…Andava na contramão
Amava antes a alma…Não queria explicação
Era totalmente sem noção
Se jogava em um mar…Sem nem ver a tempestade
Era só emoção…Esqueceram de lhe dar a razão
Tinha suas próprias verdades e nem se
importava se fossem imaginárias ou não
Era o reverso do universo
Somente uma gota…Mas pura imensidão”
(Dina Isserlin)
Carta Outubro.jpg

 

Outubro, 2018.

M,

Daqui da minha janela vejo quase o mundo inteiro. Era primavera em algum lugar para além das ruas e ainda nem existia a rua do meio, nem a de cima. Havia ali, um trieiro pelo qual eu avançava em meio às libélulas e as teias de aranha faziam carícias nos meus pés. O riozinho era uma imensidão de desejos e você não sabia que irá ser subversiva. Era apenas a palavra dona de casa dentro de outras imensidões de palavras. Mas lá na frente, você seria conhecedora do futuro. Olharia a borra de café nas xícaras e contaria para as pessoas o segredo delas e nem será preciso ser adivinha.

O mundo se agiganta aos seus olhos e as gotas mostram as estações nos dias em que você conta a solidão. Era ali, ainda, menina e ao mesmo tempo, mulher e lutava pela vida em sua forma gigante de ser.

A vida é esse fio de seda que quase arrebenta quando se estica. Você deve saber que tirando a crise que o mundo enfrenta – e ainda enfrentará daqui a dez anos também – o mundo comemora o primeiro presidente negro da história. A esperança atravessa o mundo e Pequim abraça os campeões olímpicos. Aprendi a ver ouro nas medalhas de Cielo, Maurren e as meninas do vólei. O espírito olímpico é bonito de ver. As histórias nas entrelinhas me causam mais emoção do que a própria prova.

Dercy, Caymmi, Jamelão se foram para sempre e para sempre viverão em quem gostava deles. O universo aponta sabedoria e eu escrevo cartas de amor. Descobri o amor em versos e vesti a primavera de flores.

Dizem que a cura vem a passos lentos, enquanto busco refúgio em colo de pai e irmãos. O rio é um convite dessa viagem no tempo. Embora eu seja resistência em todos os tempos, escrevo na certeza de que você se redescubra dentro da coragem e se sinta livre no grito que querem fazer calar e acredite que nas palavras do passado o futuro renasce, mesmo que seja daqui a dez anos.

Eu,

Projeto Scenarium 6 missivas | Outubro -18
Participam: Lunna Guedes |  Maria Vitória | Adriana Aneli | Obdulio Nunes Ortega

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 – trick and treat.

A vida é esse estranho modo de brincar de viver.
Vai me dizer que você não adora uma brincadeira? Ou doces, que posso traduzir em doçuras?

Tá bom! Tá certo que eu mesma, para alguns sou pura sobriedade, mas contar e captar histórias de amor é meu tempo.
Doces ou travessuras?
Ah, quero sempre a doçura do beijo e a travessura da língua a desbravar vontades.

E sabe aquela brincadeira de que amigo junto é mais do que irmão?
Mas que também traz a travessura do riso e abraço que vale mais do que doce?

E a doçura do abraço que cura?
Sabe do poder que tem o amor de amigo? Esse cura!!
Mas, também fortalece a travessura do gesto que vira surpresa e que colabora com a doçura da alma.
Doce ou travessuras?
Dá para ser os dois?

Quem me vê na sobriedade dos dias, nem imagina que sou pura travessura ou seria doçura?

Essa coisa da ligeireza dos dias é mais do que doçura. Ou seria travessuras?
Quando a gente vê o amor nos olhos de quem o coração acolhe como filho, mesmo sendo sobrinho e a verdade sendo quase travessuras… Posso pular essa parte e dizer que prefiro a travessura no olhar do Pedro, meu amor?

E cabe no gesto as duas coisas?
Posso ser puro amor e traquinagens?
Posso ser onwttt e Ahhh?
Lolla é esse avanço de alma onde meu coração vagueia. Lolla é resiliência e superação.
Lolla é travessuras e doçuras em todos os gestos…
Entre as duas coisas eu sou as duas coisas….
E você, prefere o que?

Mariana Gouveia

Ana Claudia – Anália Boss – Claudia Leonardi – Fernanda Akemi – Luana de Sousa – Lunna Guedes – Mari de Castro – – Obdúlio Ortega 
Maria Vitória

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta à primavera aos cuidados de minha mãe

 

Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.
LeonTolstói

 

 

Ah, mãe… a vida é engraçada e muitas vezes, pintada ao avesso… São 36 anos sem você e parece que foi ontem. Olhando da janela para trás, ainda era dia e o rádio ligado na radionovela e você, muitas vezes, torcia para os vilões.

–  Os mocinhos são previsíveis – você diria – e são tão comuns que me faz preferir sempre o inusitado.

E com isso, você mudava o dia com suas pinturas e seus bordados. Sua habilidade em costurar retalhos e atravessar a visão de seus filhos e transformar o destino de cada um com sua sabedoria.

As cartas, mãe… ah, essas cartas que atravessam o universo todo foram ensinadas por você.  Os destinatários não interessam… o que importa é que você escreva e leve sua palavra onde o vento alcança.

Muitas vezes, a palavra é feita sozinha. O papel manteiga dos riscos dos bordados, esse da foto, feito por você, já mostrava a singela das asas que rodeiam minha vida.

Os galhos colhidos com suas cores diversas, para que a linha ganhasse a tintura que você queria. O som da roca a desfiar o algodão e dali, se formar o fio. Eu ficava horas a te espiar diante do papel e lápis para  então o desenho ganhar vida e diante de meus olhos a magia acontecer em um pano comum e eis a arte.

Os filtros do vento invadindo o silêncio em sintonia com as folhas das árvores.

Devo dizer que a saudade me abraça e que hoje te chamei muitas vezes? Estou aqui como mãe, a rezar para que a vida faça de meu filho coluna forte da descendência herdada de você. Dá para você soprar e vir aquele instante de magia em que você conseguia sarar a dor com um sopro? Ou beijo?

Me ensina a fazer assim com ele, mãe e que eu seja nas lembranças dele tudo aquilo que você é para mim:
Leveza, sem negar a força. Coragem sem perder o medo e principalmente colo sem esquecer o amor.

Mariana Gouveia

Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Para quem voa é permitido o infinito

Para quem voa

“Todo mundo gostaria de se mudar para um lugar mágico.
Mas são poucos os que têm coragem de tentar.”
Rubem Alves.

Ouço a melodia das asas no meu quintal e transporto-me para a dimensão das lembranças.
Vou te contar como aconteceu esse amor alado e talvez só depois, entenderá que sou feita de asas.
O dia, era qualquer coisa entre 30 de um friorento junho e o dia primeiro de julho. A água no fogão de lenha sempre aquecida na espera de um nascimento rompante. Todos a postos na cozinha, na sala e o pai, entre a agonia de ouvir o choro ou o grito da Dona Fulô, dizendo nasceu – foi assim com todos os três primeiros filhos.
Lá fora, uma garoa fina os mantinham ali, próximos do fogão a lenha e na atividade de picar a galinha para o caldo.
O olhar da parteira era preocupado. Levava muito tempo entre dores, contrações e quietude. A cidade ficava um pouco longe. E foi ali, entre a espera e a busca de ervas para um banho ‘apressador’ de nascimento que ela viu as asas. Um movimento frenético de quem se afogava e tentava sair da poça.
Invocou os santos todos que conhecia e salvou a borboleta que debatia desesperada para voar.
Um voo meio desequilibrado e sem jeito e um pouso forçado na dobradiça da janela.
E ali, entre o espiar da borboleta colorida, depois de uma manhã inteira de esforços, eu nasci.
As mãos de Dona Fulô me trouxe ao mundo e como era costume presentear quem nascia com uma evocação ao universo, me foi oferecido o poder alado – como ela dizia – e que o espaço me recebesse com o dom divino de comandar as asas.
“ Que ela tenha o poder sobre o que voa, sempre em favor do bem e do acolhimento. Que ela seja acolhida pelo que voa, entre o pouso e a dimensão do vento. Que sobre ela venha a atitude de emanar coragem. Rogo a todos os deuses, declaro, oro e ofereço à ela a escolha de querer ou não quando assim tiver o discernimento para escolher, se prefere a asa ou o chão. E assim será! Oxalá! ”
Ouvi essas palavras minha infância toda e com o tempo fui me acostumando a ser a menina borboleta, porque incrivelmente onde quer que estivesse, surgia uma. Entre voos mirabolantes e crisálidas perfeitas. Eu amava o movimento das asas. E um dia, quando pude escolher, já nem precisava mais.
O nome já era ativo entre meus irmãos. E fizesse sol, ou chovesse, havia qualquer coisa de asa onde eu passasse.
Primeiro as borboletas e suas espécies mil.
Depois, vieram os pássaros e suas variantes. Depois, o sonho de voar com as palavras.
Muitos achavam estranho. Outros, admiravam. E eu cresci, entre a magia de uma fada que me deu poder de voar e um lugar que tinha um portal para a imaginação.
De repente, elas vieram para minha mão. Entre a confiança da espera e o encanto que me proporcionava e assim, mesmo depois de anos, continuei a ser a menina borboleta, onde as palavras voam em direção ao universo.
Relembrando tudo isso com meu pai, ele diz, entre um saudosismo quase infantil, na doce instância dos seus 81 anos que meus pés são fictícios, que na verdade, tenho asas. E para quem voa, é permitido o infinito.

E você, se permite voar?

Mariana Gouveia.
*texto integrante da Revista Plural Rubem e Casa Cheia – Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Passos

“São os passos que fazem os caminhos”.
Mario Quintana

Luci, faz tempo que eu queria te escrever….

Mas meus dias esteve – ou estão – tão cheios de realidade que as palavras não cabiam dentro do seu mundo. Escrever sobre a realidade, Luci, é quase como rasgar as folhas do caderno quando você tem pouco papel para a caneta trilhar entre as linhas e a gente aproveita cada cantinho em branco para desenvolver escrita. Realidade é o álcool gel de uma UTI, touca e pantufas sem bichinhos engraçados… realidade é o apito estridente de um aparelho que te assusta e te faz tremer feito vara verde. Realidade para além dos dias é a reza para tudo que é místico e acreditar que a vaga venha, que a febre ceda e que o amor minúsculo – tamanho da irmã caçula – vença a luta contra a morte – aquela imagem da foice e uma boca aberta vem à memória e você acha tudo tão engraçado que a fé se torna concreta em tudo que é santo-nossa-senhora-ave-maria…
Hoje tenho que falar de passos e pensei que esse seria um tema ideal para que eu pudesse fugir do trilho do tocável e te alcançar dentro da magia que seu olho me alcança.

Vem comigo?

Já te contei que ando sobre instantes e que quando meus passos tocam terra-chão-grama acontece coisas inimagináveis? Às vezes, até eu mesmo duvido, Luci e juro que esses momentos me levam ao estuque do seu quarto e sua parede quase azul – era isso mesmo? ou seria verde? – e lembro – me de que nessa altura da lembrança você não queria comer – e que te dei asas para além das florestas e dos pajés que reverencio todo dia… não comer era quase um desaforo diante de tanta fome no mundo. A fome atravessa os séculos e as florestas e para ali, dentro da imaginação do meu quintal, não comer é quase um atentado contra o que de mais sagrado que existe. Você tem o que comer? Tem de onde tirar a comida? Tem a sonoridade da alegria de quem encontra a comida, em qualquer lugar que seja?
Ainda bem que isso seja só lembranças, Luci e que ela nos leva sempre para as cartas e palavras.

Acontece que em alguns acontecimentos me transmuto para além do que escrevo e só para comprovar que não é miragem, eu registro o minuto dentro da magia.
Por falar em magia, conheci um cacique tão mágico – que parecia ter surgido de um filme desses da sessão da tarde – e que trazia a mansidão no olhar – a realidade, pelos olhos dele, tem a docilidade da aceitação.

” O que não se pode mudar, aceite… “

Falou na sonoridade do ar condicionado que acontecia entre um gruuu – ou seria vraaaaa?

E meu pensamento viaja para onde não posso estar e nesse momento sou quase rebeldia dentro da fé, Luci, enquanto o olho dele me atinge e leio quase uma floresta inteira e suas densidades. Um dia, Luci, quero te mostrar esse olhar… Você nunca mais vai querer ficar sem comer nessa vida e em todas as outras vidas que tiver – e eu, nunquinha mais, perderei a fé – e tudo será apenas gratidão.

Tem o jeito tão fácil de pai – o cacique – que quase me aninhei nos braços dele, Luci. Tive que me conter, devido a seriedade do encontro. Dava a impressão de que ele era o Samurai de todas as histórias e até da música do Djavan – se bem que nunca entendi direito essa música do Djavan, que pensei no tal verbo inventado sobre djavanear…

Os passos nos levam para cada caminho, que muitas vezes, só o lúdico nos faz fortes para que a caminhada seja fácil.
Lá na rua de cima tem cada instante de rua florida que dou uma volta enorme para não pisar nas flores. Você iria rir e talvez até me convencesse a deitar sobre elas – aposto…

Mas você não faria isso com o quintal “florido de teias de aranhas”…

Isso, eu consegui registrar e não importa se é aqui, logo que abro o portão, depois desses dias frios, de garoa – ou na rua de cima, logo além das porteiras do sítio Altos da Mata, para onde os olhos do meu pai vigia.
A vida, é o aceitar, Luci… tipo presente ou bolo da vizinha que insiste em nos imputar o pecado da cobiça. Vai me dizer que nunca cobiçou o cheiro de bolo que vem pelo vento e que a gente nunca sabe de qual casa vem o tal cheiro?

É um querer tudo e até o que não nos cabe na mão. Se minha mãe estivesse aqui, talvez, o olho fosse o termômetro para a vontade de ser, Luci… e ser é apenas aceite… Aceite dos caminhos que os passos cruzarem…

Os passo fazem parte do caminho… seja no ar, na imaginação ou na terra…

Luci… ah! Chego a suspirar quando me lembro dos pés a beijar a terra e a vida se torna tão gigante nos retratos pendurados nas memórias.
Era Maria, Branca de Neve, era Dolly e logo atrás de tudo aonde a câmara-olhos não alcançaram Manu, brigadeiro a desenhar instantes do para sempre. Devia ter escrito conto de fadas, Luci… igualzinho tu fez com Baunilha e tua Anna e nessa hora imagino tua grandeza dentro do poema do Bukowski…

Já te contei que meus passos me levaram às nuvens, Luci e que lá de cima sua cidade ficou quase que ao toque das minhas mãos? Juro que se tivesse poder de verdade, soprava as dores e tudo viraria apenas histórias para tua Anna.

Eu estive aí, Luci… tão perto de você que em alguns momentos a visualizei no rompante da escada e lá estava seu riso anos 60 e Anna para os passos do abraço.
Corredores me alcançou na graça do amor e resiliência dentro dos dias. Foi pura emoção, Luci. O livro sendo fonte de resiliência e amor.

Enumerei um a um a quem eu daria abraços no ar – porque alguns, abracei de cheiro de perfume e de café – e esse cheiro sempre me levará para a magia que me rodeava como se fosse eu mesma uma personagem das histórias que a vida escreve…

Talvez seja! Vai saber!

Mas a vida, Luci… Ah, a vida? A vida é feita de passos.. Ah, se eu pudesse escrever sobre os passos da vida…

Ainda bem que existe a fotografia pra se fazer entender.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural
Participam desse projeto:
Cilene Mansini | Maria Vitoria | | Mari de Castro | Obdulio Nuñes Ortega | Lunna Guedes

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Missiva à Senhora D, aos cuidados de Hilda.


“Queria tanto te falar, por favor, queria te falar, te falar desses nadas do dia a dia que vão consumindo a melhor parte de nós, queria te falar do fardo quando envelhecemos, do desaparecimento, dessa coisa que não existe mas é crua, é viva, o Tempo”.  

Hilda Hilst
In: A obscena Senhora D.

 

DSCF8143

 

Sabe, senhora D. muitas vezes também me vi à procura do sentido das coisas. Olhava o pé de ipê – que nesse mês renasce nas minhas ruas, no meu cerrado – e indagava por infinitas vezes o porquê de tamanha beleza. Buscava as dobras dos muros, pensando ali ter além da quina feita de concreto batido, um portal para o mundo das solidões.

Talvez nossas indagações se diferem muito umas das outras ou não.
Também indago sobre a morte. A vida parece aquela bolinha de tênis que sempre cai no meu quintal e o filho da vizinha sobe no muro, mesmo com os latidos dos cães, e aponta a bola atrás de um arbusto. O tempo é esse curioso menino que cresce a cada dia. A vida é a rede que treme ao toque da bola. A morte é essa bolinha amarela fugindo para além dos quintais. O meu, por exemplo.

Sabia que aqui os peixes também morreram? Não foi por falta de cuidado com o aquário não. Foi o calor que é tanto por aqui. Um dia, eles não aguentaram os mais de 40º e quando vi, já não eram mais.
Perdi – me nas cores mortas dentro do vidro, sem vida e decidi que não seria mais rio sem corredeira.
Hoje, meus peixes são as sardinhas de louça ou material similar que vieram de Portugal embrulhadas em papel de presente. No dia que chegaram – o carteiro que não suportava mais minhas perguntas sobre alguma correspondência para mim, gritou para além da caixa de correios: até que enfim! – eu abri o portão e assinei os papéis com meu nome e timbre de vários selos e segui casa adentro. Desde então, os peixes ocupam a sala numa decoração que traz o oceano nas paredes da sala e cozinha.

Mas eu gosto das coisas vivas. O pé de romã – que ganhei da moça que é portal de humanidade – cresce dentro da caixa velha de Eternit. Ali, faz companhia para o pé de mamão – que precisa ser cortado – as raízes já invadem as paredes do canil. Meu pai disse que a vida é assim. Tudo tem o tempo certo das coisas.

Isso de sentar no vão da escada também nos une. Na verdade, eu uso o vão do telhado. É a hora que tento chegar mais perto de Deus – e do que é profano.
Já fixei desejos no corpo deitada sob o céu estrelado. A geografia sendo sempre imaginária nos relevos das mãos que nunca me tocaram.
Sempre a imaginei nua, a andar pela casa, no quintal e o vento a beijar-lhe a pele.
Hoje, ela só é um vulto dentro da lembrança.

Por isso, escrever talvez seja a forma mais lírica de viver e morrer e endoidecer deve ser essa coisa de alma fechada. Meu pai me contou tantas histórias onde as pessoas perderam a alma e ficaram fechadas por anos em lugar de louco. Meu pai tinha medo de loucura. Tirava o chapéu e erguia os olhos para o céu. Dizia que não tinha estrutura para passar na rua dos doidos.

Dava uma volta imensa para atravessar a ponte do outro lado. Meu pai tinha medo de vazios. Gostava da casa cheia de gente e eu tenho medo de casa cheia. Caibo sozinha nessa solidão onde deito no telhado e finjo saber o nome das estrelas. Já te contei que vi dali de cima do telhado, a lua dentro de um balde de água? E que às vezes eu sou esse rompante do universo e só de vez em quando cruzo a barreira do sexo e das vontades?

Desde menina, sentia essa barreira dos sexos e das vontades.  Meu pai me proibiu de contar sobre a ruas das meninas. Duas vezes, ele me pegou no quarto da Valci – que meus irmãos a chamava de Valcizona, só porque ela era grande – e mal sabe ele que muitas das vezes eu ia escondida e saí dali com tantas histórias para contar. Mas ele proibiu e dizia que as moças de famílias não podiam nem passar naquela rua, apesar da padaria ser muito mais perto passando pela rua delas do que atravessar o gramado do campinho onde meu irmão perdia toda vez que insistia em jogar.

O dia que disse para ele sobre as vontades e de como seria depois de casar ele envermelhou-se e disse que eu aprenderia quando fosse o momento certo e passou a falar do enxoval bordado que a mãe deixara.  E que o resto era tudo loucura e lá ia ele dirigir o olho para o céu e tirar o chapéu em sinal de reverência e saia falando que eu só perguntava sempre o irrespondível e que a vida para ser boa era preciso aprender a entender os mistérios e o tempo certo de cada coisa.  Mal sabia ele que as meninas da rua do pecado já haviam me contado sobre tudo que devia saber para viver o amor ou mais coisas além dele. E como o menino deixou mais uma vez cair a bola de tênis, lá vou eu a catar atrás dos ipês que crescem no meu quintal a tal bola perdida, porque meu pai também dizia que era através dos meninos que a vida fluía.

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural – Clandestina Agosto 2018
Editora Scenarium Plural

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

“Acorda, joga água nele!”

Pai, acho que você iria se orgulhar de mim.

Talvez, você em sua rotina de menino que sonha e vê a lentidão dos dias em sua cadeira de rodas nem imagina que sua filha escreveu mais um livro.

Eu te contei anos atrás sobre Corredores e vi seu olho atento à minha história e vi sua afirmação dentro dos momentos.

Pai, grande parte do que escrevo vem do que aprendi durante os caminhos. Não é só juntar letrinhas e cavoucar memórias, é desenhar instantes e com eles o apontamento de direção.

Descobri hoje que ontem, o moço que fez com que com que eu me apaixonasse pelo rádio se foi. Você e minha mãe dizia que se eu escrevesse as histórias que declamava para vocês eu iria ser contadora de histórias.

Zé Betio era a voz no velho motor rádio e seu riso diante do bule de café feito fazia com que a madrugada soasse vibrante nas manhãs.

” Acorda, joga água nele, dona Maria!” E ali, discorria sobre o galo a cantar, a vaca a esperar pela ordenha.

Eu poderia escrever sobre isso e aquele homem que lia as cartas que a gente enviava, hoje, a voz se transformou em restrospectivas …

As canções que você queria ouvir ganhava tons dentro da resposta à canção: 🎵🎶 quem é… 🎵

E o locutor a responder: é o Zé Bétio!

Pai, hoje, caminho pelos Corredores… Os mesmos que detalhei como se fizessem parte de nossa história e que você apenas suspirou e enumerou nomes dos quais nem me lembrava.

Afinal, como o locutor dizia a vida está logo ali, para ser vivida.

Você é essa criança levada pelas mãos enquanto realizo sonhos. E levo comigo a certeza de que se orgulharia de mim, não pelas palavras que espalho feito sopro de vento, mas sim pela delicadeza de ainda lembrar 41 anos depois do homem que me fez apaixonar pelo rádio.

Tenho certeza de que você tiraria o chapéu em sinal de reverência a quem fez parte de nossa história…

E é o que faço, pai.

Te amo!

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

Sobre a noite de sábado

“Gosto de me deitar
sem sono
para ficar
a lembrar-me
das coisas boas
deitada
dentro da cama
às escuras
de olhos fechados
abraçada a mim.”
Adília Lopes

Sou feita de abraços e de levezas e as palavras tem desenhado em minha memórias instantes únicos que completam meu estado de ser.

Talvez, mais do que ser feita de abraços que me envolve em energia, sou feita de momentos.
Na infância, lá em algum lugar de Goiás fui desejo de que minhas palavras ganhassem o mundo e com isso, eu levasse o amor para além de mim. Era apenas um sonho e que sob os olhos atentos de minha mãe se tornaram sementes e eu regava plantando letras em meu caderno velho. Era apenas um sonho.

E com o passar dos anos, posso dizer que nem nos melhores sonhos imaginaria a última noite de sábado.

O dia amanheceu leve e com o vento a balançar as folhas das árvores nas ruas de São Paulo.  Corredores era folhas em cima da mesa de Lunna e Marco Antônio (os realizadores do meu sonho) os idealizadores da Scenarium Plural Editora a esperar pela fita de cetim a juntar elas e contar uma história.

Entre o café da manhã e a noite se desenhavam emoções e abraços dentro do meu dia. Fui presenteada pela surpresa da presença de meu filho e nora a desenharem carinhos em mim.

O vento que antecipava a mudança da temperatura também me acolheu quando chegamos ao local do evento e depois de entrar pela porta, o que vivi foi pura emoção.

Corredores virava livro à medida que Lunna usava suas mãos de fada e juntava a fita ao papel e minha história se transformava em sorriso nos abraços trocados, nas conversas entre amigos antigos e novos.

E não era só Corredores que servia de ponte para braços estendidos e acolhida de amor. Ainda havia Obdúlio e seu Rua 2; Adriana Elisa Bozzetto e seu Verbo Proibido e a Revista Plural Clandestina com inspiração de Hilda e Clarice.

Sete Luas é um caso a parte, não fosse um caso de amor explícito em sete fases, com sete mulheres convidadas a escrever sob a regência das fases da lua!

Não fosse tudo isso da noite de sábado, ouvindo  o vento que batia nas janelas enquanto me dedicava a escrever carinho aos amigos, não fosse os abraços a aquecer a alma eu juraria que ainda estava sonhando.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Scenarium Livros Artesanais

Diário de chegada

Minha mãe sempre dizia – e claro que palavra de mãe vale mais do que o ditado popular – que o melhor da festa é esperar por ela e com isso, toda preparação para qualquer evento se tornava de fato, o melhor da festa.

O fato é que desde que a data do lançamento do meu terceiro livro foi definida cada dia tem sido uma festa. E como o melhor da festa é esperar por ela, os dias tem sido de festa.

Enfim, o dia da viagem chegou e as nuvens eram testemunhas da ansiedade. Logo ali, abaixo, sabia que me esperavam e a festa acontecia dentro de mim.

E novamente São Paulo me abraça e acolhe como mãe o meu sonho de contar histórias. E mais uma vez as calçadas são rumos para meus passos.

E os braços de mia bambina aconchego.

E já é amanhã! E se o melhor da festa é esperar por ela, não quero nem imaginar a festa em si.

Sei que será uma data que ficará na minha memória. Sei também que ficarei envolvida em abraços e acolhidas e sei mais ainda que meu coração saberá viver cada instante desse dia.

Corredores será lançado amanhã, dia 25 de agosto de 2018, no Starbucks Brasil – Rua Desembargador Eliseu Guilherme, 200
04004-030 São Paulo