Crônicas · Outubro Literário

O Tecido Inquebrável dos Homens Livres

Há uma espada forjada no frio do alvorecer que os poetas dizem ser como o gelo e o fogo. No poema de Borges, o metal carrega runas que ninguém pode ignorar nem decifrar de todo, uma arma leal destinada a iluminar a batalha e a ceifar a selva de lanças nas mãos de heróis antigos. Mas o tempo das lâminas de ferro cedeu espaço a um combate muito mais profundo, sutil e urgente. Diante das fragilidades do agora, onde somos constantemente avisados de que vivemos sob a sombra de ameaças latentes, a nossa única e verdadeira espada é a palavra livre. É a memória que se recusa a ser silenciada.

A defesa da democracia é a nossa batalha contemporânea, o verdadeiro lema de homens e mulheres que escolhem não fechar os olhos diante dos retrocessos. Enquanto alguns tratam a liberdade como um filme de ficção na tela grande, ignorando o perigo dos discursos que tentam calar as instituições, por aqui a resistência se faz de forma orgânica e permanente. Não precisamos de ouro rubro ou de reinos conquistados no gume do metal; precisamos da solidez do chão firme, do direito de divergir sem medo e da coragem de manter as janelas do pensamento abertas para a luz do mundo.

Sentada à mesa do quintal, enquanto o café exala seu aroma casa afora, percebo que os ritos da terra também ensinam sobre cidadania. Eles nos lembram de que as conquistas democráticas, assim como as sementes plantadas na terra, exigem um cultivo diário, entrega e uma vigilância mansa que não se dobra aos autoritarismos do vento sul. A liberdade não é um conto de fadas com prazo de validade; é um pacto de permanência.

Sabendo que herdar a sorte dos que vieram antes de nós é também carregar a responsabilidade de manter o horizonte limpo. Que a nossa escrita continue sendo essa linha inquebrável, um rastro que insiste em não se apagar diante das engrenagens barulhentas do poder. Aceito o amanhecer, acolho o mistério e sigo tecendo, palavra por palavra, a tessitura invisível da democracia. Porque contra a barbárie que tenta embaçar as paisagens, o galho ideal onde a justiça repousa sempre será a soberania de um povo que aprendeu o valor de caminhar de mãos dadas.

* hoje votei pela democracia, pela dignidade e votei principalmente contra a extrema direita e contra o facismo.

Mariana Gouveia

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