Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

Casas-Personagens e os Alicerces do Afeto

As paredes que agasalham uma vida inteira costumam aprender os sussurros de quem as habita. Quando ouço relatos sobre as acrópoles urbanas de casas-túmulos, onde fachadas imponentes viram museus vazios e pequenas construções charmosas desaparecem do mapa em uma manhã de demolição, volto os olhos para os alicerces do meu próprio território. Para mim, uma casa nunca é feita apenas de alvenaria, venezianas de madeira ou degraus de cimento; ela é um organismo vivo que acumula as tramas mambembes dos dias e guarda o eco das existências que ali fincaram pé. A minha rua tem a alma das pessoas que nela vivem. A maioria das casas não conheço por dentro, mas conheço os personagens que moram ali.

As casinhas coloridas da rua de cima trazem a sensação de interior e lembram a cidade pequena que ficava perto da fazenda onde nasci. Ali, a cumplicidade dos espaços povoados de presença tinha os nomes dos pais. Mesmo com o sobrenome sendo conhecido por todos, eu era a filha do Louro Eugênio — apelido do meu pai, que se chamava Laurindo Eugênio — e assim acontecia com cada um dos meus irmãos. Os primos, cada um era chamado como filho do João Eugênio, do Luís, do Francisco ou do Antônio Eugênio. Aqui, para além das esquinas, morou dona Iolanda. Era a cuidadora da rua; com sua vassoura feita de vassourinha, levava horas limpando de uma esquina a outra, enquanto contava as fofocas para quem demorasse um pouco mais no banquinho de cimento feito por ela mesma.

Hoje, quando observo as residências antigas que resistem ao ruído do progresso nas esquinas da cidade, sinto uma pressa mansa de decifrar os moradores invisíveis que lavaram suas roupas sob o sol e plantaram os pés de fruta que dão sombra nos fundos do quintal. A história que fica gravada na madeira e na cal é o que nos protege do esquecimento.

É um aborrecimento ver as paredes do afeto irem ao chão para virar tapume verde e placa de empreendimento moderno. O mercado imobiliário tem pressa, mas a literatura exige uma maturação lenta, um tempo de pouso onde as ruínas ganham dignidade através das palavras. Se as calçadas do concreto paulistano perdem os seus cenários para as máquinas, daqui eu sigo tecendo o meu microcosmo como uma resistência poética. Minha escrita recolhe os rascunhos dessas estruturas esquecidas e os acomoda nas páginas dos meus cadernos, onde nenhuma demolição é capaz de alcançar a alma do que foi inventado ou vivido.

Mariana Gouveia

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