Quando li seu texto, mais do que pensar nos aromas, lembrei-me de um poema de Adélia Prado:
“Minha mãe cozinhava exatamente:
Arroz, feijão roxinho, molho de batatinhas.
Mas cantava”.
E é exatamente o que me lembro… das cantorias de minha mãe enquanto manuseava as panelas ou colocava mais lenha no fogão e preparava as brasas para assar o bolo mané pelado.
(Aqui abro um parêntese para explicar o modo que minha mãe fazia. Não tínhamos o fogão a gás e preparar o forno de barro para assar um bolo era desperdício de tempo e de lenha. Minha mãe colocava a massa em uma panela e tampava com um prato cheio de brasas. O tempo de assadura era o mesmo do forno e o cheiro era a fragrância do amor a exalar na cozinha toda.)
– O alimento é a poesia para o corpo! – minha mãe dizia enquanto ao redor do fogão a lenha preparava os ingredientes para fazer os biscoitos – o que se tornava um ritual, quase festa. Depois da massa feita, passávamos eu e meus irmãos a enrolar e fazer figuras com a massa, enquanto ela fritava. Lembro-me que haviam cavalos, estrelas, letras com a iniciais de cada um dos nomes dos filhos.
O polvilho, nós mesmo fazíamos, logo depois da colheita da mandioca tudo marcado por rituais para não desandar a massa, para não azedar o pão, para ficar na memória o rito da mandioca sendo ralada, lavada, espremida e daquela água branca da cor de leite, ficava no fundo das bacias o pó branco que serviria para fazer quase tudo nos próximos meses.
Desde o pão de queijo ao mingau. O jirau montado no quintal para secar o polvilho. O tempo certo para o polvilho doce e o azedo. Repetir a receita e com o chá de erva doce merendar em volta dela.
Descrever isso é como voltar no tempo… preparar os ingredientes, sovar a massa. A memória se volta para o passado e o tempero se chama saudade.
A memória busca as lembranças dentro da cozinha. Os temperos a traduzir a saudade. Minha mãe sempre figura central da cozinha. A mesa sempre larga e grande para caber os sete filhos e a turma do trabalho da fazenda. Tenho isso tudo vivo em minha e com certeza foram esses instantes que me fizeram o que sou.
O momento da partilha dos pães, o fogo a crepitar no fogão. O cheiro do leite a ferver enquanto queima os dedos na ânsia de não deixar derramar o leite sobre a chapa quente.
A lembrança presa nas coisas. As xícaras de ágata verde com florzinhas miúdas, o bule a combinar com a toalha xadrez na mesa.
Minha mãe dizia que a casa começa com as xícaras e o coador de café. Foi dela que herdei esse amor pelo grão que nós mesmos colhíamos e o pai torrava para depois moer e coar. Aquele era o tempo do queria.
Falar disso é como abrir a janela e respirar o tempero da memória.
Mariana Gouveia

Nossa, eu fiquei cá a imaginar esse bolo… o aroma chegou até mim, perfumou tudo ao meu redor e provocou alarídos por dentro.
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Se quiser a receita, avisa…
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