Afetos · Das palavras das cartas

Dos invernos que sua falta faz.

A ausência é uma forma de inverno 
Luís Garcia Montero

Eudes, minha flor,

hoje foi dia de separar as tampinhas para o projeto. Sim, eu continuo ajudando no projeto das tampinhas e não há uma vez que eu não pense em você. Ontem, eu conversei com Edi e falamos do frio – extremo para mim – que está fazendo lá na Bélgica.

Fiquei imaginando o tempo por lá e falei sobre o calendário que acho eu, esqueci de jogar fora desde que você se foi. Claro que aqui o verão impera e nem sonho em viver em um lugar com menos de 10º…

Sabe, me sinto pequena para te escrever… fico pensando nas respostas que você daria, nas interações que você faria … eu diria que não há espessura para a saudade e aquilo que a gente brincava de guardar segredos…eu ainda os guardo embrulhadinhos no meio das bonecas de panos e caixas do projeto.

De vez em quando falo em voz alta com você. Te conto coisas que não contaria para ninguém a não ser para você e fechei os olhos quando atravessei a ponte para ir ao aeroporto. Só os abri depois que a sua rua ficou para trás.

Alguém me perguntou sobre o modo poético do gosto da saudade e eu disse que tinha o gosto do quiabo frito e servido com molho de mostarda, mel e cebolas caramelizadas com pimenta calabresa. Nunca mais comi. Acho até que daria conta de seguir receitas, mas e seu riso diante de minhas piadas sem graça? Como eu poderia?

Os pedacinhos das nossas memórias estão guardadas no meu coração, como as colchas de fuxicos de retalhos que fizemos juntas ou como os quadros bordados que você sempre pedia para eu fazer. Até nas tampinhas que separo entre choros hoje.

Se eu te encontrasse hoje te falaria um monte de desaforos e cobraria todo esse tempo em que me deixou sem você. Eu acompanho seus meninos, Eudes e sempre divido com eles esse tanto de saudade que sinto, porém, mais do que a saudade, sinto um orgulho imenso de ter feito parte de sua vida.

Aceito nunca mais te abraçar… eu até aceito sua ausência em dias normais… mas quando chega esse dia em que o inverno da sua falta atravessa minha alma eu sinto frio, mesmo sendo verão aqui eu sinto muito frio nesse inverno que sua falta faz.

Te amo sempre!
Mariana Gouveia

8 comentários em “Dos invernos que sua falta faz.

  1. Você me fez pensar nos sabores das ausências. Sabe que eu não lido bem com a palavra saudade. Toda vez que leio ou vejo em algum lugar, alguém diz… penso em cemitérios e vejo aquele letreiro em letras estranhas. Não consigo desassociar o lugar da palavra. Sei que o sentido que vocês empregam é outro. Mas o que posso fazer? Grudou e não há meios.

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