Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Da renda ao pouso…

Ana,

Dizia que o rumor do silêncio tinha o barulho da asa da libélula. Chacoalhava o dia no calendário torto. Falava do tempo que escorria em água do céu. Enquanto o animal estendia em renda seu leve som.

Tinha os gestos repetidos dentro das manhãs. Rotinas de doçuras enquanto a melancolia do céu beijava a flor sem vergonha que teimava em brotar na singularidade do jardim.

Tinha ocos feitos a mão, rasgando a parede ocre. A palavra me acolhe na sombra e assombra quem ainda acredita no acaso. As letras cabiam em envelopes coloridos. Algumas traziam notícias boas. Outras, envelopes com o timbre dos telegramas. Minha mãe tremia quando abria e via os códigos que retratava histórias que não queria saber.

Vi a morte diante dos olhos… Vi a vida me dar as mãos.

Em outros envelopes, as letras continham afagos na alma. Houve um começo de vida no subsolo. Germinava raízes onde tinham espinhos.

O fim é mesmo fim quando a solidão aflora dentro da companhia. De bônus – o voo – o pouso.

E era tanta imensidão de vontades na palma da mão.

Mariana Gouveia
Participam dessa blogagem coletiva:
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega Roseli Pedroso

9 comentários em “Da renda ao pouso…

  1. Esse negócio aí de poesia é du Cão! O negóçio é, primeiro e claramente, começar pela palavra. Mas, não, depois vem o som. E é aí que está o busílis, o pulo-do-gato, o diferentão: juntar as palavras, meio que um dom: tipassim a palavra na palma da mão. Você é minha Adélia Prado, minha Hilda Hilst e claro, Dona Mariana, a Gouveia, castelã de Goiás e Mato-Grosso adentro.

    Curtido por 1 pessoa

  2. O que brota aqui em mim, nessa manhã que já trouxe promessas noturnas de lua cheia… é a mudança da cor das folhas da árvore estrangeira que se equilibra no caule e tomba, sem cair, no meio da rua… é outono, ela diz. O sol gargalha em cores e as nuvens ralham com ele. Hoje é segunda diz o calendário de alguém e eu suspiro incertezas…

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário