Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 On 6 – Minhas manhãs

Nasço amanhã
ando onde há espaço;
– Meu tempo é quando.
Vinicius de Moraes

As minhas manhãs acontecem em frente a inquieta cortina lilás. Os dias nascem laranjas por aqui – com algumas raras exceções  – o barulho do rio atravessa a paisagem e o sol – companheiro diário – se acende. Era quase estender a mão e tocar o horizonte da infância e seus códigos indecifráveis. A rota do olho a buscar abrigo na paisagem. As memórias aquecidas no fogão a lenha e todas as outras manhãs ganhando sentido de uma.

As minhas manhãs são cheias de aromas. O capim dourado ainda orvalhado, o cheiro do café a atiçar memórias…
O perfume do sabonete logo após o banho… A pele a respirar poemas de saudades. Frases relembradas ao acaso. O cão da vizinha da frente que se chama Meia Noite a abanar o rabo enquanto levo as sacolas para o moço da reciclagem que – parece – vem na rua de cima.

Minhas manhãs tem as cores azuladas. O céu a desenhar mil corações e a palavra cantada na voz do homem da reciclagem entoando emoção. Os detalhes dos últimos dias como desabafo. A sorte que teve na semana passada quando encontrou a bolsa de alguém e conseguiu devolver. As histórias se tornando magia diante de meus olhos e o mundo sendo meu nas palavras do homem.

O quintal me acolhe com suas vidas minúsculas e expande na cena que me acompanhará o dia todo. Os cães e suas alegrias em brincadeiras eternas. O som da casa vizinha a acordar. Tudo torna especial minhas manhãs dentro das rotinas tortas. As plantas a receber a chuva que dou enquanto o regador cumpre sua função no jardim.

As aves diante de meus olhos e o pássaro de todo dia a costurar estrelas em minha alma. As mensagens de saudades escritas em um curto espaço de tempo…

O beija-flor a demarcar seu canto e o dia dentro de uma paz falsa a rabiscar saudades nas paredes das ruas. A rua de cima a me acolher ainda dentro das manhãs e os gestos de rotina da casa como continuidade das memórias. O vasculhar das coisas a procurar os gestos seus em cada canto. As palavras salivando nas asas do amor.

Como se no voar dentro do silêncio a manhã se fizesse voz e que por si só isso já fosse amor. Enquanto isso, o relógio nas minhas manhãs tem a vibração do segundo. É quase hora de ir viver o dia.

Mariana Gouveia
Projeto Scenarium Plural 6 on 6 –

Também fazem parte desse Projeto:
Lunna Guedes – Maria Vitória – Obdúlio Nunes Ortega

Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 | O que te inspira

 É dentro de ti que toda a música é ave.
Eugénio de Andrade
Ave.

A minha principal inspiração vem em primeiro lugar – e os que me acompanham sabem – de asas – das mais diversas significâncias – e de voo, de pouso e ave.
E a ave dona do meu carinho e pensamento se chama Chiquinho e é esse pequeno beija-flor – já com 6 anos, que vive aqui no meu quintal.
Nasceu dentro do meu xaxim de orquídea em uma noite chuvosa e livre, resolveu dividir seus voos entre meus varais, os quintais vizinhos e o ventilador de teto da sala.
A inspiração vem enquanto seus voos rasantes me abraçam.

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“Tenho o tempo das borboletas, uma semana é uma vida”
Graça Carpes

Toque (borboleta).

Cada manhã habita -me a leveza do toque e isso me inspira enquanto o aroma das flores me abraçam. O silêncio traz o vento que pelas asas ecoam… a mão é o pouso de descanso e a poesia muito mais do que as pontas dos dedos.

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“O céu sempre me pareceu
tão masculino
todo azul
e com um deus morando dentro”

Simone Teodoro
Céu do meu lugar

Sempre deixo de esperar o que era espera para ser entrega. O céu do meu lugar é onde a inspiração me ganha. Sou menina – a procurar figuras nas nuvens – que se encanta e com os braços danço entre o azul e o dourado – nas manhãs ou tardes de sol… apenas espaços em branco onde cabe tudo dentro de mim, inclusive, a poesia…

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“… mas preciso de magia. Não consigo viver em preto e branco.”
Nietzche

A noite mágica no meu quintal

Quando anoitece, tudo muda de tom e som… O meu quintal ganha ares de magia e nos cantos dos muros, a floresta se torna minha e única. A noite me inspira e pira. A estação na pele.

A pele, na memória e o céu, infinito em sua magia me acolhe.

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“Chamo o vento.
Para dançar comigo.
Na copa do ipê”.
Dayse Sene

Os ipês da rua de cima

A rua de cima tem a inspiração do portal mágico. É ali que a inspiração mora – feito menina travessa – e corre dentro de mim, como se a liberdade morasse na voz do homem da reciclagem, na terra amarela da rua que o homem do riso fácil varre todo dia. Na rua de cima, os ipês nascem nas manhãs serenas e ganham vida dentro de mim.

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“Canta o teu encanto que é pra me encantar”.
Los Hermanos

 

Joaninha – encanto

 Quando se trata de paixão é dela que falo. Em cada canto da casa e do quintal ela está. Mora ali, no botão da rosa, na folha do pé de algodão e na inspiração que vem. Podia dizer que sou lembrada por ela. Que às vezes, um pequeno nada se torna gigante entre a singeleza da cor e no brilho que meus olhos ganham.

Muitas vezes, as inspirações vem de pequenos nadas que se ampliam e ganham contornos de plenitude.

É isso que ofereço – e entrego – me nas palavras – e se diante disso, eu conseguir te tocar, então, tudo terá valido a pena.

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Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 ON 6  | O que te inspira?
EDITORA SCENARIUM PLURAL – 2018
www.scenariumplural.worpress.com

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Pprojeto Fotográfico 6 on 6: a minha cidade

“… eu tive que nascer pra vida da cidade. Não a vida social, mas a vida da cidade e de seus cantos esquecidos. O lixo do lixo. Eu me perdia pela cidade, anônima, e esse anonimato era um vício. Eu não ter meu nome me absolvia de tudo. Eu me embebedava do desejo cego por qualquer um… E assim, eu me iniciei na solidão coletiva dos que não têm nada a perder. Mas, talvez, eu tenha até mais que os outros a tentação de corresponder ao bem. Uma tentação tão grande e absoluta, um desejo de corresponder de forma tão total, que paradoxalmente me tornou e me torna escrava cega de minha escuridão. E quando essa escuridão me possui, eu até a confundo com uma espécie de bem-aventurança.”
Fauzi Arap

Quando Lunna me enviou o tema eu derramei meus olhos por Cuiabá. Deixei-me levar pelo lugar que me acolheu e me abraça. A minha cidade me conhece completa. Humana, explosiva,  delirante…
As ruas conhecem minhas lágrimas, meu riso e é cúmplice de minhas dores. Com ela, sou solar. Iluminante.

Cuiabá com seu sol e seu calor escaldante é abraçada pelo rio que tem o seu nome.

É noite, ocaso e o céu é o pano de fundo de minhas aventuras. Das noites onde ele se enfeita de estrelas e para muitos passa despercebido. É minha rota de fuga para a inspiração e calma.

Minha cidade é também antiga. Colonial e mágica.  As ruas guardam as memórias onde os vizinhos sentam na calçada para contar os causos.

Os lugares se enfeitam para receber as pessoas. Se veste de chita, se perfuma com as flores dos ipés. Decora-se com o diamante das águas e se liberta com o verde que rodeia seus quintais.

É dourada e reflete em seus rios e lagos. É verde e frutifica nos quintais com seus frutos. Se perfuma com suas flores e seus jardins se tornam ponto de amor.

Senhora de si é bela e única. É ribeirinha e concreta.

Sempre amei caminhar rotas que traço, desvendar os  lugares secretos, comer e beber  os prato típicos, Caminhar na fé, essência pura onde encontro a paz e o amor… esse amor infinito que cresceu junto comigo, na mesma intensidade do sol que a torna especial.
Seis fotos não conseguem retratar a essência e nem mostrar a beleza, mas em cada retrato revelo meu amor por Cuiabá.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural.
Participam desse desafio:
Frasco de Memória e Catarina Voltou a escrever

Das palavras das cartas · Projeto Fotográfico 6 on 6

Projeto Fotográfico 6 on 6 | Lembranças…

Falar com você sempre me permite essa viagem nas lembranças… É como se você sentasse para me ouvir e eu estivesse pronta para dizer…
E elas – as lembranças – me vem em forma de cartas – missivas para ti.

Bambina Mia.

Esse mês traço o caminho da volta e antes mesmo de ir já sei o que vou encontrar… e desenho no ar, nos dias que antecede a volta as coisas que sei que encontrarei no “meu lugar”… O meu lugar é o colo de pai, abraços de irmãos e todas as lembranças intactas esperando por mim:
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No pomar, a fruta temporã, plantada para a ocasião – azeda demais, talvez – totalmente fora de época, mas com o sabor lá da infância. Sei que o cheiro irá ficar nas mãos e é desse cheiro que me lembrarei quando a memória invocar a lembrança.
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As manhãs, bambina, tem o sabor da neblina fria e o sol anuncia logo após a mata que o dia se prepara para nascer…
Revigoro-me na visão dos animais e a estradinha me leva para a colina, de onde eu abraçarei o Universo em orações. Eu posso fechar os olhos e sentir cada partícula das lembranças sendo refeitas dentro de mim como se fosse um bordado feito pela minha mãe e sua memória vindo nos cheiros das plantas, no canto dos pássaros e no chá exalando poemas em mim na beira do fogão a lenha.

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A leveza me carrega entre a espera do abraço e das lambidas do cão que me espera afoito e que eu ouço o latido em algumas ocasiões. Sei que ele ficará dias a andar atrás de mim e a aguardar meus movimentos… Me levará pelos mesmos lugares e rodopiará feliz ao acordar e sentir minha presença.
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E no fim da tarde, as asas virarão uma árvore inteira em brancura no pouso das garças… Todas as vezes, isso me lembrará Manoel de Barros e seus poemas. E dentro deles me deixarei levar por palavras que coloco no papel e te dedicarei.

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E mais do que lembranças, bambina, ecoará dentro de mim todos os dias o riso da criançada enquanto a vida conta os dias que eu espero. Falta pouco e logo estarei ali, colhendo no pé, a amor que a vida me dá diariamente de várias formas.
Ali, onde busco forças e equilíbrio dentro dos dias em busca de fé e esperança.
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Grazie por me permitir escrever-te sempre. Grazie por fazer parte desse núcleo de amor.

Bacio
Mariana Gouveia

Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural
Participam desse desafio:
Frasco de Memória e Catarina Voltou a escrever

 

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Como é a sua rotina

Minha rotina é o toque… O pleno sentido da vida.

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Logo cedo, apalpo a vida mínima no meu quintal…
Coisa de pele e sentidos. Amanheço

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Ou sou tocada, de leve. Ganho asas e atrevo-me. Metamorfose sou.
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Sou amparo e pouso. Repouso.

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Puro amor… amor mais puro.

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E tenho a certeza dele nos olhos de quem eu amo.

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Fotografias e texto: Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 –  Como é a sua rotina
Scenarium Plural Editora – 2017
Também participam: Retratos e Diários, Catarina Voltou a Escrever, Sariando por aí, Frascos de Memória

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Portas e Janelas

I

Algumas portas já nascem fechadas.
As histórias descritas – escritas – por detrás delas trazem o grito preso da liberdade escolhida.

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II

Todos os dias eu passava por aquela rua… as janelas escondiam vultos de poemas.
Era como se eu tivesse lendo Adélia e como se o sol morasse lá dentro.

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III

O antiquário vende ilusão do tempo.
Naquela rua, depois da esquina o antigo é o novo.

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IV
O eco a relembrar o artista
a solidão da alma exposta na escuridão.

V

Atrás daquela porta uma história era escondida.
Que sonhos habitam as paredes tingidas de nada?

Que perguntas ficariam sem respostas?

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VI

Logo que mudou para o bairro da avó, percebeu que seis casas acima havia aquela casa diferente. A cerca sendo abraçada por uma trepadeira que soltava suas flores lilases e suas sementes surgiam dentro de uma vagem tipo feijão deixava transparecer que não morava ninguém ali.
Um gato sempre a miar corria em cima da cerca logo que a via, como que pedindo comida.
Passou a olhar para a casa em vários horários do dia – vai que alguém trabalhava de dia e só voltava de noite? ou ao contrário – mas em suas inspeções diárias chegou a conclusão que a casa era abandonada. E planejou a invasão daquele que canto que podia ser só dela, já que em sua casa de dois quartos e mais um terceiro improvisado era pequena para o tanto de irmãos e o pai.
Um dia, criou coragem e abriu o portão que fez um barulho enorme quando a tramela foi acionada. As folhas do pé de sete copas cobria o chão e seus passos temerosos pareciam gritar quando pisava no chão.
A janela dava para um lugar perdido do nada e ali, podia sonhar…

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Fotografia e texto: Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – portas e janelas
Scenarium Plural Editora – 2017
Também participam: Retratos e Diários, Catarina Voltou a Escrever, Sariando por aí, Frascos de Memória

Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 | Scenarium…

Falar sobre os livros da Scenarium Plural para mim é como falar de filho. Você vai ver aqui aquela mãe boba que só admira cada coisa que o filho faz.
A Scenarium entrou em minha vida pelas mãos de Lunna Guedes e foi amor à primeira vista, ao primeiro comentário e depois disso tivemos tanto de primeiro/primeira que até hoje tenho primeiros lances com ela.
Dessa descoberta veio as realizações de sonhos e tudo que aconteceu está aqui registrado em posts, poemas, cartas e fotos.
Mas, hoje, venho te mostrar a minha Six Top List dos livros que a Editora publicou e que te convido a conhecer:

Lua de Papel I, II e III
Lunna Guedes

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Lua de Papel não é só um livro. São três! Não é só uma trilogia! São histórias que se encontram e encantam.
Eu, amei cada um deles e enveredei pela história de uma maneira que ficava torcendo para que no próximo capítulo fosse além do que a autora descrevia. Lua de papel me fez viajar, sonhar e ficar como se estivesse dentro do livro, quase à beira da janela e bastava fechar os olhos e respirar e eu já era parte do livro…
Me apaixonei por cada personagem e muitas vezes tecia meu diálogo com elas. O livro me surpreendeu em seu final cativante e encantador.

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Dentro de um Bukowski
Aden Leonardo

“para o que existiu e foi deixado sob o lago
– aquela imensidão do esquecimento, do dia a dia. Um “B” lado oposto da realidade,
debaixo das estrelas”.

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Dentro de um Bukowski me levou/leva para dentro dos delírios. Aden me leva em uma viagem onde me deixo levar pelo lirismo latente.
Ouso, camuflo, domino, choro e rio junto.
Com ela eu não conjugo os verbos, eu os engulo e devoro. Talvez eu solte o grito que ela guarda. E literalmente viajo com ela pelas estradinhas – entre ida e volta – de Minas.
Confesso que enquanto “viajo” pego alguns atalhos dentro da paisagem e isso se transforma na melhor parte da viagem.

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A construção da primavera
Adriana Aneli Costa Lagrasta

“Ele está certo, do verão amo a tempestade, que estranhamente se antecipa no outono, este ano.

“Percorria o vidro com a ponta dos dedos, respirava fundo – como quem morre – e misturava o lado de fora ao lado de dentro…”

Compartilhei desta chuva de hoje… a de sempre… a memória: somos 60% água, matéria líquida aconchegada à passagem do tempo”.

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Adriana Aneli primeiro me embriagou com seu Amor Expresso. Sorvido, bebido e adorado. Além da simpatia – e simpatia é quase amor – e da materialidade do livro apreciado em um trabalho lindo do Atelier Flávia Taiano – que te convido a conhecer – os 50 mini contos me levaram à tardes mornas, aspirando o cheiro do café enquanto degustava o livro.
Já A Construção da Primavera me trouxe o ritmo das estações. Dentro de um projeto lindíssimo: O Diário das Quatro Estações – do qual me orgulho imensamente em fazer parte – Adriana te pega pega mão e te leva o ar supremo do outono adocicado pela sua poesia, à doçura da primavera em plena construção, ao inverno mesmo acinzentado e florido e um verão de luxo puro dentro das palavras dela. Com isso, ela constrói não somente a primavera, mas todas as estações derramadas de poesia.

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Scenarium
Plural North and South

Estamos sempre à beira. podemos quebrar a espinha ou virar o mundo. não é questão de escolha, às vezes. mas pode-se reconhecer, pelo menos, que à beira sempre está presente.
estamos sempre à beira. há os que percebem. há os que sentem somente frio na barriga. não há volta, o frio na barriga não perdoa.

estamos sempre à beira. entre nortes e suls, estaremos perdidos (como se quisessemos direção…); entre lestes e oestes, a mesma falta, o mesmo desapego.

estamos sempre à beira, mesmo quando caímos.

à margem, à beira, norte e sul.
Claudinei Vieira

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Com Plural North and Soul e o poema de Claudinei Vieira falo do Projeto Plural e toda diversidade e gama de poetas magníficos que nos presenteiam com participações especiais nas quatro edições durante o ano. A Plural é uma revista de luxo onde a troca e a pluralidade te faz singular dentro da literatura. A arte inserida desde o projeto ao formato nos torna parte da ideia, do contexto e por fim, da poesia dividida entre uma gama de autores que embarca na ideia da Editora.

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Septum
Lunna Guedes

gosto das madrugadas frias, com cheiro de chá quente na xícara… vinho na taça – um gole ou dois e os sabores se precipitam – gosto de um som a dizer suas notas e a pilha de livros a espiar-me, como se dissesse: leia- me. Gosto de ver os envelopes vazios… com suas cores a dizerem possíveis destinos.
Meus mapas são outros…eu me movo através de elementos particulares. Vou de uma esquina a outra em busca de uma mesa de canto do mundo, da vida e do corpo. Cheque mate!

Lunna Guedes

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Quando Septum se abriu aos meus olhos eu mergulhei dentro do imaginário de Lunna Guedes. Não fosse pela delícia de vasculhar as palavras que tão bem me tocam seria pela jogada de mestre de Lunna de nos prender ao seu mundo. As histórias nos envolvem a ponto de acharmos que a história é nossa e que o personagem pode ser eu, você ou alguém conhecido… Septum traz a magia do sete. Do mês da primavera, do idioma diferenciado em explorar nosso pensamento na melhor forma de desvendar os mistérios onde os brancos são preenchidos entre o encanto e os gestos.
Septum é esse gesto pronto de entrega.
Lunna nos presenteia e oferece dentro das estações a sensação plena delas. Septum é o próprio presente do Outono e a docilidade da primavera…A sensação de sentir na pele o inverno e se aquecer no verão.
Então, te proponho um desafio: que você não se perca dentro das palavras. Ela sabe como surgem os personagens.
A jogada está dada. O próximo lance é seu.

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O lado de dentro

Mariana Gouveia

A poesia de Mariana em ‘o lado de dentro’… é um dia de sol, passos pelo asfalto cinza que se acaba de repente e nos deixa a estrada de terra cercada por mato e seu cheiro de vida selvagem. Mas não se engane. A poesia de Mariana transita entre realidades-tempos-espaços e pousa direto na pele de quem a consome em pequenos goles.


Havia qualquer coisa de Santa,

mas havia, também,

qualquer coisa de louca

não sei se o jeito de olhar.

O atrever-se com as mãos

ou o recato do decote, tão íntimo.

Havia qualquer coisa de tímida,

mas, havia — também

qualquer coisa de exibicionista.

Não sei se o riso solto

ou a voz quase rindo, quase suspiro.

Havia qualquer coisa de pecado,

de sagrado também…

e profanava em mim

nas mãos que

me descobria a alma

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Scenarium