Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Havia um jeito de ave no meu peito.

O voo cego. O pouso em qualquer canto.
A gaiola dentro das entranhas, prendendo a liberdade de respirar.
A falta não respeitando lembranças.
Objetos que são marcas que ela deixou.
O sentido da vida na posição morta.
O mapa sem rotas certas.
Apenas a falta.
Havia um jeito de ave no meu peito.
O voo cego. Sem ninho para pousar.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das quatro estações.
Scenarium Plural Editora

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b.e.d.a – Dentro

Ph: Pinterest

Rebatizei meus silêncios de palavras suas.
Revivi orgias inteiras, plenas, dentro de tua pele.
Era isso que eu chamava de entranhar mesmo quando não estava dentro.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora

*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

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b.e.d.a – Cor de anil

Tinha cor de anil a manhã que te escrevi… tudo azulava como se fosse pintura.
O sabonete, no lugar dele em estado de pouso.
O cheiro a invadir tudo que é canto. Lembrei-me de sua pele que nunca toquei, e das diversas vezes que chorei ao dizer seu nome.
Tudo era esse seu gesto no gostar e suas frases eu escrevi no espelho. Mas lá fora tudo era cor de anil, As trapoerabas se espalhavam ao redor do pé de boldo. Cresceram ali, sem ninguém plantar. Era quase uma infinita coleção de flores espalhadas no quintal.
Fiquei horas ali, a espiar.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora
*imagem: Stavros Stamatiou

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b.e.d.a – a palavra amor

Eu não podia estar melhor dentro da palavra amor. Ela faz com que eu abra a porta com poesia.
Levou-me dentro do paraíso do seu nome. Mostrou-me para sua cidade pelos olhos dela. Foi esse dia em que eu estava sem ter ido.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora
*imagem: Nhu Xuan Hua

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b.e.d.a – saudades…

Engulo sua ausência com café frio. Uma garoa que não existe aqui, cai agora.
Era quase um ciclone a ecoar dentro do peito.
Avisto a saudade no espelho. Bem ali onde o coração alcança.
Repito o nome dela dez vezes. Canto a canção que ela gosta.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium Plural Editora
*imagem: Claude B. Tenot

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b.e.d.a – O dia rompeu com seus azuis…

A cor preferida dela. Lembro que amava meu céu, e quando eu o descrevia com os detalhes que ela não conhecia, a sua voz ganhava cor de alegria.
Uma libélula pousou no meu varal. Ganhou equilíbrio contra o vento e ficou. Era nessa hora que eu te ligava para escrever o encantamento da cor.
Ainda repito os mesmos gestos, mas só por costume, sei lá.
É estranho continuar tudo igual e não ser mais o que era. O dia segue nas rotinas das coisas.

Mariana Gouveia
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b.e.d.a – Descobrimento

O dia segue a rotina das lendas no diário…
Havia uma carta, escrita com letras miúdas, que contava a história.
Alguém em algum lugar comemorava o dia da Terra. Outro, na aula de história, contava sobre o descobrimento do país. Ela lia mensagens de um lugar distante.
Abriu o baú das memórias … lembrou-se do aniversário da amiga. Cantou canções da infância. Visitou com isso os bosques e sua história. Calçou o chinelo da propaganda e foi ali viver.

Mariana Gouveia
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b.e.d.a – Dia pintado

Ela desenha meu dia com todo cuidado.
Vai dando cores e risos para eu respirar.
Repete a intenção duas vezes, enquanto a madrugada avança para o dia pintado. Me envolvo dentro do abraço dela.
o pássaro de todo dia me vê. Avisa do ninho ali perto.

Mariana Gouveia
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Scenarium plural Editora
*imagem: Tumblr

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b.e.d.a – Sempre viajo com duendes.

É verdade!
Há um que já é meu conhecido… ele usa chapéu de aba curta, verde. Tem um relógio engraçado que faz um barulhinho estranho, quase que de minuto a minuto. Sempre se senta ao meu lado, e fica sorrindo com aquele riso estilo Coringa de baralho.
Hoje, quando ia para o trabalho… se sentou ao meu lado.
Distraída comecei a rabiscar palavras na janela do ônibus. Chovia. Tentava fazer um poema. Acho que fiz…
Enquanto eu escrevia ele repetia várias palavras com a sílaba Re. Algumas eu usei:
reinventar, reequilibrar, reencontrar, reavaliar… reamar, remarcar, remar…
Ele sempre desce um ponto antes de mim… mas, nem percebi que ele havia cochilado.
Quando fui descer, ele se assustou e brigou comigo:
– Agora vou ter de andar um bocado, resmungou.
Eu falei baixinho: ‘ vai voando’…
Enquanto seguimos rumos diferentes ele respondeu:
– Acha que tenho asas? Onde eu moro, a gente come asas.
Falei: ‘ puxa, nunca irei à tua casa’…
Rimos.


Mariana Gouveia Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora

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b.e.d.a – Desenhei aquela rua…

no papel… aquela em que eu te esperava na esquina.
Na casa da vizinha tinha bandeiras coloridas… e risos infantis.
Alguém escreveu uma carta no muro.
Contei-te da delicadeza do gesto… tento fazer com que você compreenda a minha história.
Por isso, desenhei aquela rua no papel.
… a rua ficou laranja para eu te mostrar que o caminho é a escolha da Cor.
Senti o cheiro da fruta a invadir a alma. O sol rompia a barreira das nuvens.

Mariana Gouveia Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
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