Engulo sua ausência com café frio. Uma garoa que não existe aqui, cai agora. Era quase um ciclone a ecoar dentro do peito. Avisto a saudade no espelho. Bem ali onde o coração alcança. Repito o nome dela dez vezes. Canto a canção que ela gosta.
Mariana Gouveia Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações Scenarium Plural Editora *imagem: Claude B. Tenot
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.
A cor preferida dela. Lembro que amava meu céu, e quando eu o descrevia com os detalhes que ela não conhecia, a sua voz ganhava cor de alegria. Uma libélula pousou no meu varal. Ganhou equilíbrio contra o vento e ficou. Era nessa hora que eu te ligava para escrever o encantamento da cor. Ainda repito os mesmos gestos, mas só por costume, sei lá. É estranho continuar tudo igual e não ser mais o que era. O dia segue nas rotinas das coisas.
Mariana Gouveia Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações Scenarium plural Editora
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em tudo que é pouso, havia um vento feito de dança. O rádio tocava uma canção antiga. Os meninos ainda na rua e o barulho da bola no muro da frente. Na ponta do telhado, a lua segue seu destino. quase indiferente à saudade que arrasta o pensamento e o coração.
Mariana Gouveia Projeto Sete Luas – No cais Outra vez Scenarium plural Editora
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O dia segue a rotina das lendas no diário… Havia uma carta, escrita com letras miúdas, que contava a história. Alguém em algum lugar comemorava o dia da Terra. Outro, na aula de história, contava sobre o descobrimento do país. Ela lia mensagens de um lugar distante. Abriu o baú das memórias … lembrou-se do aniversário da amiga. Cantou canções da infância. Visitou com isso os bosques e sua história. Calçou o chinelo da propaganda e foi ali viver.
Mariana Gouveia Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações Scenarium plural Editora
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N’outro dia, ao atravessar a rua – em solidão peculiar – avistei um pequeno traço de lua no céu… um risco prateado – o teu sorriso dentro da imprevisível quietude das coisas
Mariana Gouveia Projeto Sete Luas – No cais Outra vez Scenarium plural Editora
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Ela desenha meu dia com todo cuidado. Vai dando cores e risos para eu respirar. Repete a intenção duas vezes, enquanto a madrugada avança para o dia pintado. Me envolvo dentro do abraço dela. o pássaro de todo dia me vê. Avisa do ninho ali perto.
Mariana Gouveia Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações Scenarium plural Editora *imagem: Tumblr
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É verdade! Há um que já é meu conhecido… ele usa chapéu de aba curta, verde. Tem um relógio engraçado que faz um barulhinho estranho, quase que de minuto a minuto. Sempre se senta ao meu lado, e fica sorrindo com aquele riso estilo Coringa de baralho. Hoje, quando ia para o trabalho… se sentou ao meu lado. Distraída comecei a rabiscar palavras na janela do ônibus. Chovia. Tentava fazer um poema. Acho que fiz… Enquanto eu escrevia ele repetia várias palavras com a sílaba Re. Algumas eu usei: reinventar, reequilibrar, reencontrar, reavaliar… reamar, remarcar, remar… Ele sempre desce um ponto antes de mim… mas, nem percebi que ele havia cochilado. Quando fui descer, ele se assustou e brigou comigo: – Agora vou ter de andar um bocado, resmungou. Eu falei baixinho: ‘ vai voando’… Enquanto seguimos rumos diferentes ele respondeu: – Acha que tenho asas? Onde eu moro, a gente come asas. Falei: ‘ puxa, nunca irei à tua casa’… Rimos.
Mariana Gouveia Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações Scenarium plural Editora
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no papel… aquela em que eu te esperava na esquina. Na casa da vizinha tinha bandeiras coloridas… e risos infantis. Alguém escreveu uma carta no muro. Contei-te da delicadeza do gesto… tento fazer com que você compreenda a minha história. Por isso, desenhei aquela rua no papel. … a rua ficou laranja para eu te mostrar que o caminho é a escolha da Cor. Senti o cheiro da fruta a invadir a alma. O sol rompia a barreira das nuvens.
Mariana Gouveia Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações Scenarium plural Editora
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As horas não passam no sentido das coisas. Ela anota meus desafios diários. A cortina não combina com meu estado de espírito. Permanece fechada e isso foi ontem. Hoje, eu falo calada. Eu olho o relógio. Ela olha o relógio… Anota! Deve ser essa pressa de ir embora que me move. – Pra onde? – Do nada para lugar nenhum. Eu tive de desenhar um mapa. Falando em mapa… tive de fazer o mapa astral dela. Falei de horóscopo. Ela riu. Ela tinha síndrome de fuga. Diagnóstico conhecido e exemplificado em palavras confusas, que eu precisaria de um dicionário para entender. – Não quero fugir. Nunca quis. Falei entre um sussurro que acho que só eu ouvi. Ela anotou. O relógio na parede. O tic-tac só não era maior que meu suspiro. O tempo mudou de repente. Não quis dizer que não acredito em meteorologia. Seria considerado fuga do tempo, e ele, pra mim, seria como diz a música: um dos deuses mais lindos. E ela disparou a falar de canções. Dancei.
Mariana Gouveia Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações Scenarium plural Editora
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