busquei nos cantos do muro a maresia. O vento oscilava no jardim e a brisa chamava seu nome – era só fantasia, eu sei – e o eco rebatia no estuque das paredes. A cascata das flores renascendo dentro da cor me trazia a canção na voz de Elis onde o pedido era morar no azul… Foi quando eu cantei e abri meu braço de rio para alcançar o teu mar.
Da janela, vejo que o vento não me obedece no silêncio das horas. Eleva as folhas no quintal e chama para a dança – furiosa – com os galhos todos.
Salvo as vidas, que quase sem tamanho, se engrandecem na segurança da varanda. Há terra seca em cada canto. Perigo para quem tem asas – essa sorte de voo quando o vento é passivo – mas, é voo cego nessa previsão que chega diante dos olhos. Só o som da rajada de vento para parecer canção.
Já não chove como antes. Agosto arde dentro da tarde, enquanto o cerrado respira lentamente a vida e a seiva prepara-se para os frutos e o verde.
Os meus lugares reais me povoa de sensação de magia e os de fugas viram portas onde te procuro. Caminho entre o seco e o novo. Tenros brotos a brigar com a secura do deserto. Era ali, amanhã, um dia qualquer. O destino traçado em minha mão de sorte.
A palavra entre nós – surdas que somos – tem a receita da dor. Era de novo o dia da dor e o arder da tarde latejava na pele, o aviso. O braço parado para o aceno e os dias perdidos dentro do calendário. Era uma vez, assim. Tão tarde. Que arde.
Esqueço a nomenclatura dos dias. Eu sou solar e a chuva invade esse dia lento. Já não sei dizer o sol e a meteorologia prevê a estação de fato, onde moro.
Entre o silêncio e o vento, trovoa. O eco do céu ruge feito um animal bravio. Salvo as delicadezas do quintal uma a uma e a metamorfose acontece diante do dia. E eu a esperei como se espera o dia que amanhece depois de uma noite longa de insônia. Eu a esperei como o jardim espera a flor nascer e como o inseto espera a mão que o acolhe. Talvez amanhã, o cotidiano aconteça nas rotinas da espera.
De frente para o medo, os corredores vasculham a alma de madrugada. A floresta é logo atrás da janela fechada. O mar bate nas ondas com fúria das pedras. A lucidez foge e as alucinações são os dias sem novidades e tudo sempre a mesma coisa quando se conta os segundos dentro das horas. Citei mil vezes as cores dos olhos dela. O calor da noite a invadir o quintal. As violetas brancas a parir as flores na certeza da semente.
No rádio, o sinal sonoro das horas. E a maresia fazendo sinal de saudade com a boca a sal.
O café servido para a turma da noite e os bules fazendo barulho em qualquer canto. Trinava a ave de todo dia. O vento bate na janela fechada e a busca do nome a ecoar saudades do que nem foi vivido. Essa loucura – dizem que pega – é mal de quem mente que não ama amando.
Do outro lado, as regras são quebradas em fotografias com canções dedicadas. Desse lado, toda a noite, a lua é parda.
Mariana Gouveia Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA. Participam comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso – Suzana Martins e Bob F
Tinha o peito rasgado a faca. A solidão estampada nos olhos em noite de lua uivava e alguém dizia – e criava as lendas dentro das madrugadas lentas, sem sereno. A espiral do medo nos corredores sem luz. É lua cheia! O calendário avisa que há dias em que é melhor ser apenas plateia. Hora de desvendar afetos. A rota lunar sempre é uma opção de fuga. De vez em quando eu atiro facas em mim mesma. As mãos trêmulas é quase um ocaso para o bordado que não faz mais. Era lindo o abraço do silêncio. No tarô, as mudanças lidas no búzio. A lua observada no mirante. Vasto o mundo que sonha com a vida vista de lá. Durante o dia disfarçou o pranto várias vezes. O monstro da esquina, o prêmio de literatura, o livro que nunca leu, a mão que nunca tocou… A mulher com o vidro na mão espalhava fragrâncias de lua pela rua enquanto no quintal, ela mergulhava nas sombras do muro.
O sol é avassalador no quintal e nem acredito mais na previsão do tempo. O céu, ontem, estava cheio de estrelas e as flores negam a sede do inseto que insiste no pólen. Para atravessar as tardes quentes eu uso os desvios. Há uma sombra do pé de algodão, os ipês se abraçam entre as folhas como se com isso, o deserto deixasse de existir. A janela falsa recebe o vaso de flores e a solidão respira no vento morno.
Íntima de paz dentro da loucura desvairada. Vem de longe, o verbo dentro da saudade. O poeta a definir a lua como cor. Seria azul a parte escura da lua nova? Seria esses bocados como doce a dissolver na boca a palavra poema? A promessa ameaçada pelos búzios e a estrela brincando de ser planeta no coração. O cais, ali, quase amigo das dunas. O vento a derrubar as folhas no quintal sobre o sereno.