das coisas breves · Scenarium Livros Artesanais

Dos bilhetes – 5

mariana gouveia

Na última hora cheia… vivi intensidades. Um menino que precisava de atendimento foi notícia nos atos terroristas. Nunca imaginei presenciar em meu lugar.
Fiquei sabendo da partida de uma cachorra. Preferi ignorar a tutora que a abandonou nos últimos meses. Eu fui colo para ela nos últimos momentos.

A vida, às vezes, tem roteiros
que parecem novelas.

Como vai chover a qualquer hora se o céu mostra Marte imensa pros lados do sul?

As sombras do quintal me salvam. Um ninho se fez na árvore que plantei.
Às vezes, é assim, um tempo compensa o tempo do outro.

Os bilhetes esperam pela hora de amanhã.

Dos bilhetes
Publicado no Projeto Coletivo A Sul de Nenhum Norte
Scenarium Livros Artesanais

fim.

das coisas breves · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Dos bilhetes – 4

lunna guedes

Caiu um raio nos arredores da hora anterior. Ressoou por toda parte. Agora há clarões por trás dos prédios. As janelas estão acesas e a hora cheia me faz pensarem preparar uma xícara de chá. Eu ainda não desisti do cappuccino.
O olhar vez ou outra corre a paisagem lá fora. Assusto-me com a declaração de fim de ano piscando em algumas janelas. Não me acostumo com as festas de inverno em dias tão quentes. É como se estivessem se enganando – trocando as coisas de lugar.
Eu não sou uma pessoa de Natal – mas experimentei a data. Uma colega da Faculdade quis que eu fosse passar a data com a família dela. Foi estranho. Permaneci muda na maior parte do tempo. Ouvi palavras sonoras… frases inteiras. Mas não estava presente. Estava sentada perto da lareiras, era quase meia-noite. Faltava pouco quando me dei conta dos vazios que colecionava dentro.

Um pesadelo do qual não pude acordar. Fazia frio! Mas eu precisava escapar daquilo e ir lá para fora… caminhar calçadas.

Ficar longe… de mim.

Dos bilhetes
Publicado no Projeto Coletivo A Sul de Nenhum Norte
Scenarium Livros Artesanais

Continua…

das coisas breves · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Dos bilhetes – 3

lunna guedes

Você me fez pensar na infância… quando eu tinha vizinhos e escrevia histórias a respeito de cada um deles. Convivo com estranhos nessa hora cheia. Às vezes, esbarro neles no corredor ou no elevador.

Não sei as histórias e nem me interesso por elas.

Na semana passada… uma mulher do outro lado da rua – no prédio da frente, em sua janela acenou sorridente e mandou beijos. Não sei como lidar com isso. Parece um fantasma a morar na janela da frente. Eu os prefiro morando numa parede…

Nos quartos de hora, ao sair na varanda, meu olhar corre ligeiro até a janela de número oito – assegurando-me dos vazios que aprecio. E se não avisto a estranha criatura, respiro aliviada.
A outra janela – a que gostava de espiar… está fechada há tempos. Não há movimentos por lá. Não sei para onde foi a menina que gostava de se despir para olhares curiosos.

A chuva continua e os relâmpagos e os trovões.

Dos bilhetes
Publicado no Projeto Coletivo A Sul de Nenhum Norte
Scenarium Livros Artesanais

Continua…

das coisas breves · Scenarium Livros Artesanais

Dos bilhetes – 2

mariana gouveia

É sempre nessa hora que recorro às minhas trilhas sonoras. Apaixonei-me por algumas canções coreanas e elas se misturam as outras que já me salvaram da solidão em fins de tarde. Coloco no repeat para não ouvir o funk estrondoso que vem da vizinha da frente. Um verdadeiro inferno – deusmelivre – e nem se compara ao de Dante.

Teve de tudo nesse céu do meu lugar: nuvens grossas, esparsas, velozes – levadas pelo vento. E uma chuva fina que trouxe o cheiro petricor para perfumar o meu quintal. O azul predomina enquanto a noite vem se aproximando e o pássaro de todo dia se mistura nas cores das folhas do pé de ipê.

Daqui a pouco, quando o moço da reciclagem passar com sua cantoria será a hora de ligar as luzes porque a noite chegou.

Dos bilhetes
Publicado no Projeto Coletivo A Sul de Nenhum Norte
Scenarium Livros Artesanais

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das coisas breves · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Dos bilhetes – 1

lunna guedes

Escrevo-te nessa hora última. Explodiu um trovão ao longe e eu sorri para todos os ontens que trago na memória.
as nuvens foram se avolumando. O dia acabou pouco antes das três. A chuva caiu sonora, lavando o asfalto da Alameda, quando eu ainda estava a escolher uma lembrança para degustar – como num jogo onde se move uma peça.

Escutei dentro…o badalar do sino da Catedral – um eco dos dias vividos em pequenas aldeias.
As mulheres rezavam as seis em ponto… e as contas do rosário passeavam entre os dedos enrugados das mãos.

eu silenciava a minha voz e pensava na jogada seguinte, qual peça moveria: o bispo ou apenas um dos peões.

Por dentro, repetia versos malditos riscados na parede do meu corpo e me sentia feliz por pensar no inferno de Dante.

Dos bilhetes
Publicado no Projeto Coletivo A Sul de Nenhum Norte
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Continua…


Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

Ritual marítimo

Era sagrada a lua quando teus pés pulavam a poça d’água no chão e tocava o céu com as mãos na água onde refletia as nuvens e seus azuis entremeados de branco.
Procurava figuras nelas, tentava encontrar estrelas cadentes num céu de maio desmaiado de luz. Era noite quando regressava de sua viagem transgressiva e me contava seu caso de amor interestelar com a areia do mar… trazia para dentro de casa a maresia e invadia o quarto com sua intenção de amar. E deixava meu quintal com o ritual marítimo de ser e cheio do desejo de estar.

Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso  Suzana Martins e Bob F

Scenarium Livros Artesanais

A vida cabia na pétala da flor. 

O riso inconstante da louca. A lua, quadro de agora conhecia a história da loucura. O jardim cumpria o ritual de flor. Os dias tem sido estranhos nessa jornada e o tempo fica cada vez mais triste pela previsão. A primavera floriu e riu da minha incapacidade de entender o nome da estação.

Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Participam comigo:
Lunna GuedesObdúlio Nunes Ortega Roseli Pedroso e Suzana Martins e Bob F

Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

e eu nem sei se a luz madrugou ou chegou tarde

Releu as cartas que escreveu. A emoção era puro amor além da voz. Tem dias que nem precisa de carteiro para a carta ser entregue. Basta a emoção que a faz parecer menina.
O mensageiro era o vento, que em dias como hoje finge não existir. Um cheiro de flor cruza o quintal. Usa os desvios da rua de cima para atravessar os muros e virar poesia na leveza da flor. Repito a pergunta de outro tempo: seria a nuvem atravessadora de ritmos?! Era quase dança a pétala desmantelada. Tem noites que as flores perdem o sentido de jardim. Tem noites que a emoção não é invenção minha. Eu apenas vivi.

Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
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Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega  – Suzana Martins Bob F

Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

é sem raízes, o jardim virado do avesso

Há um oco no peito que grita o vazio rasgado de flor. A mulher que lê o destino dos outros – e quase sempre erra o dela – fala sobre mudança de hábito. Os búzios indicam o caminho da paciência. A maré muda dentro da estação. As ervas indicam a rota da cura. O jardim virado do avesso. Um monge atravessa a rua com olho para o nada. Alguém predestina a palavra da fé. Depois disso digo que aceito tudo: Que venha o destino com sua fome de lobo e pele de cordeiro! Aceito na boa os 40º na sombra e as flores murchas do meio dia. A sorte chamando o inseto na cor. O trevo batendo à porta desejando favor. Os corredores pintados de cinza… armários sendo esvaziados e histórias dentro dos livros jogados em um quartinho qualquer. A mudança é favorável ao novo – diz as cartas de tarô – e a linha da vida formando a letra do ontem. Tomara, vida que fosse hoje. Quem dera, sorte que fosse amanhã!

Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
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Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

das impressões do dia seguintes

Encontrei um ninho no meu quintal e a vida ali, sabia voar. Primeiro chorei pela benção, pela graça da vida gerada diante dos meus olhos e quis desenhar o ninho e seus gravetos. Depois, registrei para o álbum das emoções e desejei escrever a carta para contar a história. O pé de algodão virou maternidade e tenho a vista aérea da varanda. Meu medo dos incidentes com os cães e virei vigia de ninho de ave. A delicadeza acontece nos momentos estranhos. O amor nasce entre as flores e os chumaços do algodão. A vida tem a leveza do ninho branco junto da folha seca e das folhas verdes. Descobri o sentido da árvore ali, a derramar folhas inventando estações e o chiado de dois bebês passarinhos que resolveram nascer ali, no quintal onde o rio faz curva no mar na esquina do muro.

Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso – Suzana Martins e Bob F