das coisas breves

As minhas mãos…

As minhas mãos

nasceram para desenhar em tua pele minhas digitais…
Os meus dedos,
para aninhar em teus dedos
como se parte deles fosse
o meu toque.
Vasculha você mesmo sem presença,
porque assim sou eu em você.
Leitura de quem não vê
mas entende.
Teu toque em mim
desperta superfície plena
de supremo desejo e prazer
Você,minha leitura cega
que leio e saboreio fome e prazer.

Mariana Gouveia

das coisas breves

Pé de vento

Pé de vento
Ph: Karrah Kobus

Minha mãe dizia que o vento era leve – como paina que vira travesseiro para os sonhos – e que carregava os medos e os sonhos maus.
Era coisa para se apaixonar esse tal de vento.
Um dia, eu quis aprisioná-lo. Só para mim…Leveza era bom ter guardada para as horas difíceis.
Peguei uma garrafa e coloquei no meu quintal – no meu quintal, tinha um pé de vento – e fiquei horas ali a esperar que o vento entrasse garrafa adentro.
Foi quando minha mãe percebeu minha intenção e disse que vento era para ser livre. Tinha de percorrer lugares, levantar saias das meninas e só assim o vento tinha razão de ser. Minha mãe, em seu estado de fé, me disse que o vento era o Espírito Santo e quando eu quisesse que ele aparecesse, bastava assoviar. Era uma mandinga para fazer ventar. E ainda por cima, cultivar a fé na leveza da alma. Tem sido assim meus dias. Todos os dias, quando acordo, a primeira coisa que faço é ir ao meu pé de vento. Assovio e o dia ganha a magia da leveza, por mais que as coisas aconteçam contrário ao que tenho vontade, quando vejo as folhas dançando ao som do vento, percebo ali uma força maior.
Que ganha imensidão, viaja e chega até a mim como cisco voador

Nas janelas, os mensageiros do vento diz que é impossível controlar o que é livre e se um dia quiser controlar a liberdade vá ao centro do quintal, assovie e achará o caminho do paraíso.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Carta à mia bambina aos cuidados de Fevereiro

Carta à mia bambina aos cuidados de Fevereiro

 

“No cotidiano
sou nuvens
Às vezes, choro
N’outras, eu
chovo”
Elke Lubitz.

Ah, bambina! Fevereiro chega como previ e detalhei para você mais cedo. As trovoadas trazem você aqui para o meu quintal. Já choveu tanto e agora, entre o espaçar das nuvens vejo o sol brigar com as gotas que caem. Parece até que eu estava te esperando e você veio. Desde ontem você anda rondando meus pensamentos. A tempestade me trouxe seu nome quando cantei a canção que lembra você.
Busquei alguns temas que enviou e passei a andar por eles, descalça, para que a magia aconteça aqui dentro.
As aves festejam que só, esse tempo. Cantam, me espiam e ficam ali, a sentir a chuva enquanto eu me encanto.
Com esse tempo, meu quintal ganhou mais presença. De cores, de amor e de flores. Há plantas novas a enfeitar a parede lateral. Jasmins pequenos que durante a noite exalam o perfume – exótico – de uma noiva. Explico. As flores nascem em forma de buquê e toda vez que olho para elas, me lembro do buquê da noiva. Bobagem minha.
Os trevos estão que é flores só. E a Maria-sem-vergonha não para de florir. O jardim está em plena pompa. Pronto para a festa diária que faço aqui.
Como posso considerar verão se o mês que passou foi todo primavera?
Bambina, as novidades abraçam meu coração em uma forma doce de amor. A vida me trouxe maresia de presente e vivo lendas mitológicas no meu quintal. Sou que é chuva em dia de sol, como agora. Até pareço personagem de uma história e se existe um estado de felicidade, estou dentro dele.
Fevereiro chega e eu já quero antecipar os dias. Talvez eu seja uma das poucas que pularia – olha que contradição – esses dias de Momo. Me dá preguiça.
Atravesso a rotina do dia. E já vivo Alice plena. E você sabe do que falo. E com isso, te abraço no doce agradecer por você na minha vida. A leve impressão de estar aí, seja no voar de uma farfalla ou em uma joaninha na roupa do teu menino me dá a certeza de que longe não existe entre nós.

Amo tu!
Grazie mille

Bacio,
Mariana Gouveia

das coisas breves

Minha cena e a tua

 

a tua pele que me queima a pele
a tua mão tatua
minha mão na sua

a tua boca molha minha boca
que me deixa louca
e insinua

a vontade plena de misturar minha cena
e a tua

o meu corpo pede
sente tua sede
transpira, inspira

prazer, enfim
eu me embriago
sobre meu desejo
sobre o teu beijo

e a asa leve flutua
onde o meu braço cabe
no abraço que só você sabe

assim de mim

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas

Carta de amor explícito

carta de amor explicíto

Querida A.

É quase um absurdo amar e apaixonar – me dizia meu professor de teatro – cometo esse absurdo duas vezes. Amo Thereza e sou apaixonado por Ana.
Estávamos ensaiando um monólogo – A menina do tapete e o menino do girassol, onde eu lia algumas cartas no palco no desenrolar da peça.
Apenas no dia da estreia é que descobri que as duas era a mesma pessoa. Ana Thereza e que a peça foi uma declaração de amor para ela. Era um amor especial.
Eu sempre repetia a ele que queria um dia um amor daqueles para mim, porque havia uma magia quase transcendental entre os dois. Presenciei dias seguidos a química que havia ali.
O tempo nos levou para caminhos diferentes e o teatro ficou só no sonho mesmo, apesar do sucesso da peça. E de Theodora, a personagem, ficar gravada em mim, desde então.
E hoje, eles vieram em minhas lembranças pelo simples motivo de sentir aquela mesma magia e venho declarar a você meu maior absurdamente amor explicito.
Primeiro você me trouxe o encanto em buquês de poesia e coração. E a sensação de amplitude foi tomando meus espaços todos e quando percebi já era você por inteira. Em palavra, corpo, alma e desejos.
Com você eu dancei na chuva. Pulei ondas. Em um corredor esplêndido, fez meu rio virar mar e me deixou plena de maresia.
Saí pela noite a desenhar estrelas em seu corpo e vez por outra embriagar de paixão. Absurdamente.
Embriagada, eu conheci a felicidade em teu riso molhado dos meus beijos. A boca estava ali, ao alcance do toque. Bastava fechar os olhos e sentir.
Embriagada, eu sentia tuas mãos a me buscar e nesse momento, o prazer era dos mais extraordinários que vivi. A palavra é essa, querida. Extraordinário amor.
Com você conheci caminhos nunca antes percorridos e neles me perco para me achar de novo dentro de você nesse desalinho mágico de viver o amor, onde descubro que tudo que vivi até hoje, foi para respirar esse momento pleno.
As minhas manhãs ganham o encanto do seu nome e minha tarde enrola na saudade sentida, até cair de novo em seus braços em fim de tardes ensolaradas e noites de chuvas.
As estações vivem todas aqui, dentro de mim. Quente, frio, calor, desejos, flores e cores deslumbrantes com as quais você me pinta. E há um canto nascente dentro da minha alma onde pinta estrelas no meu céu. Esse mesmo céu onde voo para pousar em sua boca e seu corpo, meu amor.
E por onde passo derrama corações sobre meus pés.
É infinito esse sentir e não é de agora. Já era desde sempre e será. Porque o o extraordinário foi feito para ser sempre.
E assim, te amo todos os dias na delicadeza dos instantes. Na borboleta que faz amor com a flor e se encanta pelo cheiro. Te amo na chuva que cai, no sol e no mar onde me envolve no mais doce viver.
Se isso se chama felicidade então eu a vivo plena todos os dias.

Eu te amo em todos os idiomas existentes e até naqueles que eu inventar.

Beijo meu,

Mariana

das coisas breves

Do intenso delírio de te amar

Do intenso delírio de te amar

Eu não te amo nem mais nem menos
do que o muito variado intento
te amo aqui, além do pensamento
e muito mais do que o coração
cabe em cada vácuo dele, em cada solidão

te amo mais do que eu deveria
de te pensar em delírios todo dia
e te querer a todo custo agora
passear por onde você mora
te amo, assim, a mais do que cabia
na alegria de te amar eu deveria
te amar assim, na solidão das horas

Do eu quero, penso e te possuo
nos pensamentos ardentes, fugazes
de cores desvairadas, escritas em cartazes
eu te amo, assim, beirando a loucura
e ao mesmo tempo em cada ternura
eu te amo e vou te amar cada vez mais.

Mariana Gouveia

das coisas breves

Feliz Tudo Novo

faria tudo de novo

Ah,eu faria tudo de novo.
Nesse ano que passou,eu me envolvi.
Me envolvi por olhos, por palavras, por mãos, por coração.
Me envolvi por desejo, por beijo, por paixão
Eu chorei, eu ri, eu amei…
eu amaria de novo o mesmo amor
eu sofreria a mesma dor
eu sentiria a mesma falta
cantaria a mesma música, e declamaria o mesmo poema.

Eu envolvi-me em palavras
eu mergulhei nelas.Tive perdas, tive ganhos, errei, acertei
mas amei…amei intensamente
daqueles amores que ficam gravados,cravados e você pensa como viveu sem ele até então.

e emocionei e amei…e amo

faria tudo diferente, de novo.
Falaria as palavras certas, e erraria de novo
e escreveria seu nome mais vezes e gritaria mais vezes que te amo.
E já é novo ano.
e tudo se repete e tudo se renova
e tudo é esperança e tudo é equilíbrio
e tudo é. E não é.

Talvez chore de tristeza, talvez chore de alegria
talvez me desnude, me cubra
me solte.
Mas de uma coisa tenho certeza em toda intensidade
de qualquer forma serei eu.
Com defeitos (esqueça-os)
com qualidades (enalteça-as)
com todo amor que meu coração absorve por você, por ela, por ele, por tudo, pela vida.
Que seja a hora de repetir ou de refazer e a hora de criar.
Que seja a hora de ser feliz.

Feliz Ano Novo a todos que vierem aqui.

Mariana Gouveia

das coisas breves

A minha mãe costurava.

Fazia colchas de retalhos que, normalmente iriam pro lixo. Daqueles pedacinhos de pano saiam mantas que quase parecia as páginas do livro que quero um dia escrever, de tão bonitas que eram.

Eu ficava horas ao lado dela vendo-a emendar os retalhos e eles se transformarem em figuras feito retrato costurado.
Lembro-me que ela dizia que costurar era como fazer amor com a máquina. Isso a preenchia…minha mãe vivia plena de tudo, quase tudo a preenchia. Ouvi muitas vezes ela dizer isso ao costurar, ao cozinhar, ao bordar, ao cuidar da horta…

Pegava um pano simples e bordava ali, sonhos… Para mim, um dos momentos mais lindos era a hora de colocar óleo nos pedais. Ela calava a máquina do choro de ranger correias besuntando as dobradiças que haviam e a máquina se calava…

Enquanto costurava ela cantava. Era quase um mantra a canção na boca dela. Eu, do meu cantinho de filha ficava desenhando na mente aquele momento para que durasse feito retrato. Nem respirava.

Quando ela não estava costurando estava sendo plena de qualquer outra coisa. Sendo mãe. A máquina, ficava ali, parecendo sentir saudades do amor que fazia com ela, com seus pedais quietos que parecia gritar. Com seus apetrechos descansando em cima, a tesoura, o ferro de passar cheirando a carvão e a canção de ser plena em qualquer lugar.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Carta à bambina aos cuidados do amor

Carta à bambina aos cuidados do amor .jpg

Bambina mia,

Aqui o dia amanheceu nublado e esse tempo me faz lembrar você.
Na madrugada, trovejou. O céu parecia festa de ano novo. Os raios lembravam os rojões e os trovões, os fogos. Confesso que detesto fogos e rojões – por causa dos cães – mas, hoje, foi essa impressão que tive. E ocorreu-me o pensamento de que o céu fazia festa para você.
Pareceu Maio e seus trovões que você ama tanto e quando o dia clareou uma garoa fina cobria o quintal e minhas flores ficaram com aquelas gotículas que parece suor na pele.
Saí para caminhar um pouco e te levei comigo – sempre levo – mas hoje, foi especial.
Fui despejando em cada passo, palavras para que o universo ecoasse e levasse até você meu carinho.
Refiz nossas conversas e nossos silêncios – às vezes – e pude constatar mais uma vez o quanto sou abençoada. Sua presença em minha vida me torna melhor.
Cada vez que lembro de você é como se fosse uma continuação de um encontro que já houve antes mesmo de nos encontrarmos. Não queira explicações sobre isso. Não poderia explicar.
A sesnsação que tenho é de você na minha vida desde sempre e é com essa sensação plena de abraço que te envolvo no meu carinho, hoje, mais do que nunca.
Sorvo o chá enquanto penso em Jane Austen, autora que você adora e é com uma frase do livro Razão e sensibilidade que te abraço:
“Seus olhos erravam por aqui, por lá, por toda a parte, maravilhados. Ela viera para ser feliz, e já se sentia feliz..”

Che tu sia felice!
canterò per te la canzone che mi ricorda di te:

“Only you can hear my soul, only you can hear my soul

Luna tu
Quanti sono i canti che rissuonano
Desideri che attraverso i secoli
Han solcato il cielo per raggiungerti

Porto per poeti che non scrivono
E che il loro se non spesso perdono
Tu accogli i sospiri di chi spasima
E regali un sogno ad ogni anima
Luna che mi guardi adesso ascoltami”

baci mille

Mariana Gouveia

das coisas breves

Agreste

Agreste. Agreste

Meio agreste,
meio teste.
Calafrio, arrepio.]

De você só quero o toque,
me provoque
mate a sede de prazer.

Me domina, me ensina
e deduz que tenho medo
meu segredo]
alucina
eu, menina
entre seus dedos

E onde a luz brilhar
o seu olhar.
O meu sertão é você
Um deserto de paixão

escondendo o coração
só pra saber.

Faço pose, entro em close
pra mostrar que quero mais
me perdendo em pensamentos
é você que no momento
me traz paz.

Mariana Gouveia.