O dia começou com perdas. A aldeia chora a partida de um sábio. O dia grande sendo pequeno. Alguém ousa na coragem de tirar a vida. O verbo falha na rotina desavisada. O encantamento ganha cor quando alguém parte sem sofrer. Era o dia grande sendo dor dentro das perdas. O espírito do guerreiro ganhando sentido na floresta inteira.
O céu, sendo universal em cada luz.
A lua sendo guia da alma. O dia termina infinitamente grande quando anoitece.
Mariana Gouveia
Primeira Super Lua de 2018
Cuiabá – janeiro de 2018.
Dia 1.
A casa, à noite, era iluminada pelas lamparinas e o céu, de tão estrelado para iluminar os campos e os vaga-lumes inspiravam poesia. Não dava para ler – ou até dava, se conseguisse driblar o olho atento da mãe. O lampião veio anos mais tarde.
Contava as horas para amanhecer e devorar os livros ou escrever.
Criei um desvio para atravessar a ponte e ir além da colina. A escola foi feita no alto do morro. Ali, as crianças das fazendas vizinhas eram beneficiadas pelo invento que meu pai criara – construíra a casinha no alto da colina para que nada atrapalhasse os estudos – e a professora viera da cidade. O olho atento para os filhos do dono da escola. O cheiro dos cadernos criados por minha mãe e o descampado que mostrava lá embaixo o capim dourado a colorir a paisagem.
Todo objeto queria virar gente na minha mão. O livro quase virou na palavra escrita. O caderno todo em branco, esperando que as linhas fossem preenchidas com o verbo na palavra. A lembrança da mãe costurando o papel do saco do pão e ganhando estrutura de caderno.
Um dia, um lápis se perdeu em minha mão. Ganhou encanto no verso e na rima. Era laranja, o lápis… e a cor se encontrou no verbo e na gramática. Um lápis não pode ficar em silêncio. Ele quer gritar e usa a minha vontade de escrever e fazer um livro.
Fiquei adulta e aquela escola, no pé da colina foi me levando vida afora dentro de tantos mundos. Caibo em todos, assim como cabia na cadeira perto da janela e me perdia horas a fio a imaginar o capim dourado se transformando em arte e poesia.
Algumas cenas confundiram minha vida, mas ainda assim, me levaram para um passado onde reviro as coisas do baú.
Virei confusão nos personagens que encontro todos os dias – fora e dentro de mim – e confundi semente com flor. Amei mais nuvens que céu, mais voo do que pouso e mais letras do que palavras.
Era ali – ou ainda é – que a cozinha vira lugar de aconchego. Os objetos mudam de lugar. Ganham morada nova na cômoda do canto. A fotografia da avó com a colher de pau na mão, amarelada na parede que dá para o corredor. A janela no ponto certo onde a vista dá para a horta preparada para o alimento. Há mais janelas que cortinas. Mais riso que choro.
O rádio na cantoneira estilo curioso que a mãe mesmo pintara com as tintas feitas de folhas de árvores. Os bibelôs esquecidos no canto. Um sino de porcelana perto do elefante trazido da China – não se sabe por quem – e um quadro de flores bordado pela mãe. Ela tinha essas coisas de bruxa e índia. De sagrada e intocável. Sabia a cura através dos remédios feitos com ervas e benzia as crianças com dedos que imitavam os cataventos. Curava os males de quem sofria. De longe parecia uma mãe normal… de perto era uma mulher que ensinava a vida através das palavras. E eu sou essa página escrita no dia a dia.
Mariana Gouveia
Projeto Crônicas de Outubro
Editora Scenarium Plural
”E seu corpo iria girar, até que a última nota de seu coração parasse e fervesse sobre seus pés.”
Sekai Mato
Nasci no meio de 6 irmãos. Éramos 7… eu – a do meio – lunática, estranha, tudo porque gostava de livros, de ler. A que escrevia e que sabia contar histórias ou inventar.
Havia a meiofadameiobruxameioflor quem me trouxe ao mundo e que fazia os partos de toda a região, inclusive dos meus irmãos e primos. Para mim, ela era mesmo uma fada que transformava em magia tudo que tocava.
Os cogumelos ganhavam, na fazenda, um toque especial sobre suas mãos.
A floresta tinha o sentido claro de mundo encantado para mim e o tecer do capim dourado era a própria magia.
Era Florinda ou Dona Fulô e foi ali, naquele mundo em sua volta que aprendi o costurar das letras. Primeiro, de carreirinha, para logo mais emendar as palavras e fazer delas, versos. D. Fulô – ou minha bá – não conhecia nenhuma letra. Nem sabia manusear a pena – como ela dizia – mas sabia o poder delas sobre o mundo e quando deitada na rede, debaixo do pé de manga eu lia alguma coisa para ela, os olhos dela viajavam para além dos campos dourados de sol.
Passei a registrar todos os momentos em papéis de pão que minha mãe costurava e transformava em um caderno para escrita. Os cadernos, desses de capa dura, eram aos meus olhos, luxo puro, que atentos espiavam quando na visita à cidade passávamos em frente à papelaria ou armazém. O primeiro só veio anos depois quando entrei para a escola.
A letra era a chave para minha timidez e me manter longe das encrencas dos meus irmãos. O mundo se abria quando eu conseguia montar uma frase, uma carta e os olhos fechados da bá e o riso inquieto de minha mãe eram poemas que ninguém mais tinha. Só eu!
Eu desenhava perto delas a lua e o céu estrelado. A rosa rubra do jardim, e a natureza aos meus olhos parecia um quadro, desses que só via em revistas. Mas era uma pintura que minha mãe conseguia transformar em bordado. Depois eu pintava meus pés de asas e com isso eu podia voar. Passei horas procurando estrelas para botar no quarto, borboletas para nascerem no quintal e um ipê amarelo do lado da cerca, com a casinha simples ao fundo sendo cenário de uma infância que me fez no que sou hoje.
Com isso, consegui espantar os nuncas e me tornei portadora da fé.
Mariana Gouveia
Projeto Scenarium Plural Editora
Crônicas de Outubro
Hoje fui acordada do meu – suposto – merecido descanso por uma ideia. De madrugada.
Sabia que não ia lembrar mesmo falando o mantran que aprendi no curso de meditação que fiz em 1997 (e que tem os mesmos mantrans dos cursos vindouros – que fiz).
A gata mais pazeamor, vendo minha inquietude espreguiçou com as patinhas na minha garganta. Tossi. Acordei a outra gata (não é de paz e amor).
Desisti de tentar repetir à exaustão pra que eu não esquecesse e acendi a luz. Abri o caderno da aula de amanhã, ou melhor, de hoje mesmo e lá estava mais anotações de outras ideias não esquecidas (só porquê anotadas).
Sim. Ideias são como a mãe da gente acordando pra ir pra escola. E faz maria chiquinha que nem dá pra piscar até o final. Ideias acordam a gente… como se estivéssemos atrasadas ou pecando.
Aden Leonardo
Na rua de cima os cães não latem para os garis. O caminhão passa tranquilamente sem barulhos, latidos e bafafás.
Percebi isso na madrugada quando acordei e mergulhei no texto estampado em neon – tipo me leia e guarde-me antes que a Aden acorde e me apague – mania latente de marcar a gente com palavras/poemas como se fosse ferro a brasa e mesmo apagado já fica ali, na pele…
A rua de cima é morna dentro das minhas ideias. Um gato preto anda sobre o muro e o silêncio chega a fazer barulho nas portas pintadas de azul. Há um outro – gato – pardo que atravessa os muros laterais dos vizinhos e vem justamente na minha rua, cheia de barulho provocar os cães, atrapalhar a ideia que grita dentro do silêncio, na madrugada.
A ideia me arrasta como correntes e fiz o quarteirão repetindo gestos no ar como se louca fosse e percebi que algumas janelas se entreabriram para as vizinhas que não entendem como a madrugada me abraça. O último poema ainda adoça a boca que perdeu o sentido de sabor. A ideia da Maria Chiquinha leva o pensamento para além da infância e o cabelo sente o repuxo que a mãe fizera na última vez. Isso já foi a tanto tempo! Os dias se perdem nessa dimensão do espaço.
O caderno ganha as anotações depois que o poema ativou a palavra solidão no calcanhar… e quando você busca o poema que te inspirou, ele evaporou-se no baú dos apagados – não falei que ela – Aden – ia fazer isso? – e as ideias se perderam dentro do poema apagado… para no instante seguinte florir no carinho da amizade.
Mariana Gouveia Projeto Scenarium Plural Editora Crônicas de Outubro
“Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher,
com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado”
Clarice Lispector
Quando Setembro se inicia em meu íntimo já é primavera e escrever é quase esse espalhar sementes em um quintal povoado de pássaros. Sou esse ser em formação em matéria de escrever. Perco-me diante das banalidades e minha escrita ganha vida no dia a dia. Sou a que planta, colhe e faz poesias. A palavra me toma como se parte dela fosse parte de mim e outros tantos eu caminham por nortes diferentes dentro da escrita.
Ser escritora em plena primavera de 2017 talvez tenha a leveza da estação, mas ainda assim continua sendo peso o fato de ser mulher, dona de casa e escritora – e o novo século não alterou em nada essa questão – e atrevida, ganho voz através das redes sociais; a escritora de hoje sente na pele a mesma opressão que desde os séculos passados outras viveram e sentiram. A luta pelos direitos iguais dentro do movimento feminista imprime mudanças substanciais na ótica e nas relações sociais. E isso influencia a escrita, o pensamento e as ações.
Diante disso vivo em constante reconstrução e a cada dia me dispo diante das palavras e levo a quem me lê meu coração. Meu linguajar se mistura com a estação onde tento passar a minha emoção para o outro.
Moderna-antiga-ultrapassada-atuante, muitas vezes muitas dentro de uma só. Múltipla de mim mesma. De qualquer forma, assumo minha independência e força admitindo meus desejos e me coloco como protagonista de minha própria história.
Mariana Gouveia
Projeto Scenarium Plural – Crônicas de Outubro.
“… eu tive que nascer pra vida da cidade. Não a vida social, mas a vida da cidade e de seus cantos esquecidos. O lixo do lixo. Eu me perdia pela cidade, anônima, e esse anonimato era um vício. Eu não ter meu nome me absolvia de tudo. Eu me embebedava do desejo cego por qualquer um… E assim, eu me iniciei na solidão coletiva dos que não têm nada a perder. Mas, talvez, eu tenha até mais que os outros a tentação de corresponder ao bem. Uma tentação tão grande e absoluta, um desejo de corresponder de forma tão total, que paradoxalmente me tornou e me torna escrava cega de minha escuridão. E quando essa escuridão me possui, eu até a confundo com uma espécie de bem-aventurança.”
Fauzi Arap
Quando Lunna me enviou o tema eu derramei meus olhos por Cuiabá. Deixei-me levar pelo lugar que me acolheu e me abraça. A minha cidade me conhece completa. Humana, explosiva, delirante… As ruas conhecem minhas lágrimas, meu riso e é cúmplice de minhas dores. Com ela, sou solar. Iluminante.
Cuiabá com seu sol e seu calor escaldante é abraçada pelo rio que tem o seu nome.
É noite, ocaso e o céu é o pano de fundo de minhas aventuras. Das noites onde ele se enfeita de estrelas e para muitos passa despercebido. É minha rota de fuga para a inspiração e calma.
Minha cidade é também antiga. Colonial e mágica. As ruas guardam as memórias onde os vizinhos sentam na calçada para contar os causos.
Os lugares se enfeitam para receber as pessoas. Se veste de chita, se perfuma com as flores dos ipés. Decora-se com o diamante das águas e se liberta com o verde que rodeia seus quintais.
É dourada e reflete em seus rios e lagos. É verde e frutifica nos quintais com seus frutos. Se perfuma com suas flores e seus jardins se tornam ponto de amor.
Senhora de si é bela e única. É ribeirinha e concreta.
Sempre amei caminhar rotas que traço, desvendar os lugares secretos, comer e beber os prato típicos, Caminhar na fé, essência pura onde encontro a paz e o amor… esse amor infinito que cresceu junto comigo, na mesma intensidade do sol que a torna especial.
Seis fotos não conseguem retratar a essência e nem mostrar a beleza, mas em cada retrato revelo meu amor por Cuiabá.
Falar com você sempre me permite essa viagem nas lembranças… É como se você sentasse para me ouvir e eu estivesse pronta para dizer…
E elas – as lembranças – me vem em forma de cartas – missivas para ti.
Bambina Mia.
Esse mês traço o caminho da volta e antes mesmo de ir já sei o que vou encontrar… e desenho no ar, nos dias que antecede a volta as coisas que sei que encontrarei no “meu lugar”… O meu lugar é o colo de pai, abraços de irmãos e todas as lembranças intactas esperando por mim:
No pomar, a fruta temporã, plantada para a ocasião – azeda demais, talvez – totalmente fora de época, mas com o sabor lá da infância. Sei que o cheiro irá ficar nas mãos e é desse cheiro que me lembrarei quando a memória invocar a lembrança.
As manhãs, bambina, tem o sabor da neblina fria e o sol anuncia logo após a mata que o dia se prepara para nascer… Revigoro-me na visão dos animais e a estradinha me leva para a colina, de onde eu abraçarei o Universo em orações. Eu posso fechar os olhos e sentir cada partícula das lembranças sendo refeitas dentro de mim como se fosse um bordado feito pela minha mãe e sua memória vindo nos cheiros das plantas, no canto dos pássaros e no chá exalando poemas em mim na beira do fogão a lenha.
A leveza me carrega entre a espera do abraço e das lambidas do cão que me espera afoito e que eu ouço o latido em algumas ocasiões. Sei que ele ficará dias a andar atrás de mim e a aguardar meus movimentos… Me levará pelos mesmos lugares e rodopiará feliz ao acordar e sentir minha presença.
E no fim da tarde, as asas virarão uma árvore inteira em brancura no pouso das garças… Todas as vezes, isso me lembrará Manoel de Barros e seus poemas. E dentro deles me deixarei levar por palavras que coloco no papel e te dedicarei.
E mais do que lembranças, bambina, ecoará dentro de mim todos os dias o riso da criançada enquanto a vida conta os dias que eu espero. Falta pouco e logo estarei ali, colhendo no pé, a amor que a vida me dá diariamente de várias formas. Ali, onde busco forças e equilíbrio dentro dos dias em busca de fé e esperança.
Grazie por me permitir escrever-te sempre. Grazie por fazer parte desse núcleo de amor.
“Havia duas maneiras de partir: uma era ir embora, outra era enlouquecer”.
Mia Couto
Querido abismo,
Hoje, mais uma vez estou de frente para você, na tentativa do pulo ou da coragem de enfrentá-lo. Você tão desafiador, mais uma vez me oferece colo, espaço e eu, tão cheia de liberdade arrisco essa carta como se pudesse voltar atrás, recontar histórias, recriar recomeços, mudar rumos – sei que não posso – mas posso modificar caminhos a partir daqui.
Você já conhece os telhados por onde em noites seguidas encarei para vigiar o céu e as estrelas – você estava sempre ali, à frente da escada – enquanto eu, fascinada olhava o espaço infinito.
Também já sabe das montanhas que avistei… longas horas a ver sua imensidão e sua cor disfarçadas nas cores das árvores e o verde a convidar para o abraço.
Já te enfrentei algumas vezes… atravessei vales inteiros, desci colinas e senti seu toque a me abraçar. Devo confessar que você é tentador.
Nas noites de insônia, você surgia absoluto, incógnito e tolerante… Única opção madrugada inteira, vigia constante das minhas dores e fraquezas.
Hoje te encaro, olho no olho… sem vacilo, chego mais perto daquilo que me oferece e estendo a mão… quase um toque em seu vento oscilante e convidativo.
Você não sabe, mas me fortalece, com sua presença intrigante, sempre a me entregar a amplitude pela qual sempre lutei e seu nome muitas vezes, vem disfarçado de liberdade.
Você me enxerga normal, com medo e me faz ter coragem sempre que te enfrento. Me lembra todas as vezes que o medo rouba sonhos e me instiga ao pulo…
Me instiga diante de sua presença – você tão gigante – e me oferece a opção de escolher. Posso ir embora e reconhecer meu ponto fraco diante de sua magnitude… Devo dizer que você é o precipício e que a loucura seria minha companheira, se eu permitisse… Que minha alma se esconde dentro de sua palavra, como se buscasse acalanto.
Mas eu não permito e não aceito seu chamado voraz em cada instante que me aproximo de seu espaço, mesmo porque o espaço é meu e sou eu a dona das minhas vontades. Você é apenas uma das coisas que tenho de enfrentar e encarar nesse mundo de cão.
Eu aceito sua presença infinita em mim e nessa hora, me permito ao voo.
Mariana Gouveia Projeto Missivas de Abril Scenarium Livros Artesanais