Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Pprojeto Fotográfico 6 on 6: a minha cidade

“… eu tive que nascer pra vida da cidade. Não a vida social, mas a vida da cidade e de seus cantos esquecidos. O lixo do lixo. Eu me perdia pela cidade, anônima, e esse anonimato era um vício. Eu não ter meu nome me absolvia de tudo. Eu me embebedava do desejo cego por qualquer um… E assim, eu me iniciei na solidão coletiva dos que não têm nada a perder. Mas, talvez, eu tenha até mais que os outros a tentação de corresponder ao bem. Uma tentação tão grande e absoluta, um desejo de corresponder de forma tão total, que paradoxalmente me tornou e me torna escrava cega de minha escuridão. E quando essa escuridão me possui, eu até a confundo com uma espécie de bem-aventurança.”
Fauzi Arap

Quando Lunna me enviou o tema eu derramei meus olhos por Cuiabá. Deixei-me levar pelo lugar que me acolheu e me abraça. A minha cidade me conhece completa. Humana, explosiva,  delirante…
As ruas conhecem minhas lágrimas, meu riso e é cúmplice de minhas dores. Com ela, sou solar. Iluminante.

Cuiabá com seu sol e seu calor escaldante é abraçada pelo rio que tem o seu nome.

É noite, ocaso e o céu é o pano de fundo de minhas aventuras. Das noites onde ele se enfeita de estrelas e para muitos passa despercebido. É minha rota de fuga para a inspiração e calma.

Minha cidade é também antiga. Colonial e mágica.  As ruas guardam as memórias onde os vizinhos sentam na calçada para contar os causos.

Os lugares se enfeitam para receber as pessoas. Se veste de chita, se perfuma com as flores dos ipés. Decora-se com o diamante das águas e se liberta com o verde que rodeia seus quintais.

É dourada e reflete em seus rios e lagos. É verde e frutifica nos quintais com seus frutos. Se perfuma com suas flores e seus jardins se tornam ponto de amor.

Senhora de si é bela e única. É ribeirinha e concreta.

Sempre amei caminhar rotas que traço, desvendar os  lugares secretos, comer e beber  os prato típicos, Caminhar na fé, essência pura onde encontro a paz e o amor… esse amor infinito que cresceu junto comigo, na mesma intensidade do sol que a torna especial.
Seis fotos não conseguem retratar a essência e nem mostrar a beleza, mas em cada retrato revelo meu amor por Cuiabá.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural.
Participam desse desafio:
Frasco de Memória e Catarina Voltou a escrever

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Como é a sua rotina

Minha rotina é o toque… O pleno sentido da vida.

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Logo cedo, apalpo a vida mínima no meu quintal…
Coisa de pele e sentidos. Amanheço

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Ou sou tocada, de leve. Ganho asas e atrevo-me. Metamorfose sou.
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Sou amparo e pouso. Repouso.

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Puro amor… amor mais puro.

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E tenho a certeza dele nos olhos de quem eu amo.

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Fotografias e texto: Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 –  Como é a sua rotina
Scenarium Plural Editora – 2017
Também participam: Retratos e Diários, Catarina Voltou a Escrever, Sariando por aí, Frascos de Memória

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Conduz-me ao precipício onde hibernou a alma

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“Havia duas maneiras de partir: uma era ir embora, outra era enlouquecer”.
Mia Couto

                                                                                                                                     Querido abismo,

Hoje, mais uma vez estou de frente para você, na tentativa do pulo ou da coragem de enfrentá-lo. Você tão desafiador, mais uma vez me oferece colo, espaço e eu, tão cheia de liberdade arrisco essa carta como se pudesse voltar atrás, recontar histórias, recriar recomeços, mudar rumos – sei que não posso – mas posso modificar caminhos a partir daqui.
Você já conhece os telhados por onde em noites seguidas encarei para vigiar o céu e as estrelas – você estava sempre ali, à frente da escada – enquanto eu, fascinada olhava o espaço infinito.

Também já sabe das montanhas que avistei… longas horas a ver sua imensidão e sua cor disfarçadas nas cores das árvores e o verde a convidar para o abraço.

Já te enfrentei algumas vezes… atravessei vales inteiros, desci colinas e senti seu toque a me abraçar. Devo confessar que você é tentador.

Nas noites de insônia, você surgia absoluto, incógnito e tolerante… Única opção madrugada inteira, vigia constante das minhas dores e fraquezas.

Hoje te encaro, olho no olho… sem vacilo, chego mais perto daquilo que me oferece e estendo a mão… quase um toque em seu vento oscilante e convidativo.

Você não sabe, mas me fortalece, com sua presença intrigante, sempre a me entregar a amplitude pela qual sempre lutei e seu nome muitas vezes, vem disfarçado de liberdade.

Você me enxerga normal, com medo e me faz ter coragem sempre que te enfrento. Me lembra todas as vezes que o medo rouba sonhos e me instiga ao pulo…

Me instiga diante de sua presença – você tão gigante – e me oferece a opção de escolher. Posso ir embora e reconhecer meu ponto fraco diante de sua magnitude… Devo dizer que você é o precipício e que a loucura seria minha companheira, se eu permitisse… Que minha alma se esconde dentro de sua palavra, como se buscasse acalanto.

Mas eu não permito e não aceito seu chamado voraz em cada instante que me aproximo de seu espaço, mesmo porque o espaço é meu e sou eu a dona das minhas vontades. Você é apenas uma das coisas que tenho de enfrentar e encarar nesse mundo de cão.

Eu aceito sua presença infinita em mim e nessa hora, me permito ao voo.

Mariana Gouveia
Projeto Missivas de Abril
Scenarium Livros Artesanais

Divã · Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

The end

The end

“The end” – foi isso que sobrou.

Resta em mim essa ternura, essa vontade de começar tudo de novo…
e o seu silêncio a ecoar canções dentro de mim.

Resta essa vontade de chorar e essa raiva… não sei do que e nem de quem.
Mas principalmente de mim.

Resta esse conhecer absurdo do que é sonhar e esse medo estranho de que a palavra esperança suma de vez da minha memória e da minha vida.

A canção que você gostava repete e repete e de tanto ouvir, já sei de cor as palavras, o ritmo…
Me proponho a ouvir pela última vez a sinfonia, e de tantas vezes ouvir e outras tantas acompanhar, eu já sabia de cor as suas palavras, e ia repetindo dentro de mim, antecipando a última, que seria o fim, sabendo que tudo o que é lindo precisa terminar.

Ah, eu fiz tudo que eu nunca fiz… eu cantei, eu dancei, eu teimei, eu… eu… eu te amei.
Não!
Eu te amo! Eu te amo com todos aqueles exageros de poetas em poemas de amor.
Te amo com a melodia soando no meu íntimo… Eu te amo com esse exagero louco do signo, com todos os desígnios doidos do destino.
Eu te amo com a melodia na pele a gritar claves na tatuagem de voos e sons em mim.

A música é bela porque a vida é rápida e não dura mais que o tempo da melodia… e você repete e você repete até saber de cor a hora que ela se encerra. E a memória te grita. E a memória me queima e me dá raiva.

Até o beijo… Dá raiva dos beijos que dei, dos que nem cheguei a dar e dos que não darei. Porque já é o fim.
Um dia te disse que te beijaria para sempre e você me recitou uma parte de um poema lido em algum lugar que não me lembro de onde:
“Que amante suportaria um beijo que não terminasse nunca?”
Que amante ia querer eternamente esse queimar, esse molhar, esse afago, esse voar de borboletas na barriga?
Que amor iria querer durar até o fim sem viver outro amor?
Que ouvidos iriam querer ouvir só uma voz e uma única canção?
E eu não soube te responder.
Daí, você muda a palavra para saudade. E muda a canção e vê na melodia a saudade. Chega a mastigar. Chega a doer… (ou você achou que podia ser feliz pra sempre, sua boba?)
Finais felizes só existem no cinema, em novelas e em livros e você não vive livros, nem novelas, nem histórias. Você vive ilusão.
Te vendem ilusão. E você compra. E de repente você se vê só, em meio à solidão e descobre o que é sentir falta. A saudade só floresce na ausência.

Floresce e você vive com medo de que morra. De que essa sensação te sufoque e ao mesmo tempo deseja que isso aconteça. E que a vida seja flor e que você seja flor sempre na minha vida.
É na saudade que nascem os poemas mais bonitos – um dia você me disse isso – É como a melodia que ecoa em voz e som… e nessa hora te vejo em tudo que toco.
Um dia te verei de novo?
A pergunta explode dentro de mim e me lembro de que te disse sobre isso uma vez em um poema que escrevi. Divino é o reencontro. É como o céu que se abre e aos poucos oferece todas as estrelas.

Porque eu desejo viver tudo isso de novo. Até mesmo essa saudade.

Então, diante de tudo isso o que me resta é esse monólogo dizendo tudo que sinto e queimando as últimas palavras que não me disse, fazendo de conta que nunca foi embora. Abrindo a porta para que a cada rumor de barulho pudesse entrar mais uma vez e tomar posse de mim e do meu amor.

E eu, na minha cabeça de vento declamando em silêncio o último verso: the end…

Foi então que, no último momento, o imprevisto aconteceu: parece que a música recomeça e eu acredito que o repeat errou… talvez tenha achado tudo tão bonito e tenha encontrado inspiração e era tudo um teste para ver o tamanho do meu amor e ali ficou a voz de Bethânia cantando Drama, repetindo palavras:

“Eu minto, mas minha voz não mente
Minha voz soa exatamente
De onde no corpo da alma de uma pessoa”.

E eu vou lá e desligo tudo. Apago todo resto que pode me ligar a isso…
Depois disso foi o silêncio.

É bem possível que o último verso tenha sido o primeiro…
mas eu quero tudo isso de volta…

Mariana Gouveia
Texto publicado na Revista Plural Inéditos & Dispersos
Scenarium Livros Artesanais
*fotografia: Adam Klaus

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Ninguém conhece a fundo a luz do seu abismo

“Nenhum abismo me cabe
nessa hora, eu voo”.
Mariana Gouveia

Querida T.

Enquanto você compõe pássaros dentro de seus silêncios, eu voo… Descobri asas no seu lugar e ali, envolvo dentro de suas palavras…

Tomo a liberdade de te escrever cumprindo um ritual que faço desde sempre – que me lembro –  de rabiscar palavras em forma de cartas. Já me disseram que sou assim, meio mãe de todo mundo e quando vi o azul dos seus olhos te imaginei celeste – tal qual o céu do meu lugar – mergulhei em seus abismos, me preparei para voos dentro das emoções que você tão lindamente entrega de presente para quem te lê.

Quando abrimos os jornais, sites de notícias ou falamos com alguém, as notícias ruins imperam as conversas e isso aqui é um alívio nesse ritmo de coisas tristes que andam por aí.

Não é que eu seja alienada e não esteja nem aí para as coisas que andam acontecendo, mas é que já há tanto de desânimo que prefiro usar as palavras para falar de amor, de vida, de natureza e de mostrar nas fotografias que o mundo pode sim ser diferente, vivido em seu extremo prazer de viver.

A vida não tem sido generosa comigo e ao mesmo tempo me enche de delicadeza como retribuição. Eu vejo a vida miúda no meu quintal, vejo o gigante acontecer no céu e abraço pessoas até mesmo sem tocar, que tudo que vivi e vivo deixa de ecoar em dores no corpo.

A gente que escreve tem esse conceito de tentar derramar nas histórias o nosso sentimento e isso, você faz magistralmente… embora, isso não nos impede de percorrer a linha tênue entre o espaço e o abismo.

Esse abismo instigante que nos chamam quando estamos a poucos passos do pulo ou o espaço ali, oferecendo um voo saboroso dentro da poesia e do amor.

E como você mesma encara a palavra tua, dona dela e maravilhosamente inspiradora, finalizo essa carta com a simbologia dos seus versos:

“Que eu saiba ser
buquê de pássaros
para perfumar os sonhos
em pleno voo”

Tríccia Araújo

Que os voos sejam teus sempre, menina coração.

Beijo,
Mari

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Uma das minhas gavetas está cheia de pretéritos

 

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Bambina mia,

… enquanto te escrevo mio menino arranca as ervas daninhas no quintal – tenho de ficar de olho para que ele não leve entre elas algumas ervas que são remédios e que curam… Outras são folhas para o chá e que ele não sabe quais são – é uma espécie de vigia entre a palavra ” essa não… é poejo”… e o grito “Nãããooo! É alfavaca!”

Abril hoje é presente aqui – mesmo – com sua ventania quase frio. Trovejou aqui e você veio pelo meu chamado. Choveu e agora está aquele vento meio pingo meio frio que adoro. As cortinas dançam com isso e acho esse balé a coisa mais linda. As folhas do pé de algodão caem com esse sopro e arrastam no quintal como se chamassem atenção para a cena.

O vento é quase uma carícia na pele e recebo ele de olho fechado e alma aberta – de vez em quando danço com ele… vou para o meio do quintal e abro os braços enquanto ele levanta meu vestido – o pássaro de todo dia ronda meu lugar… chama atenção no varal de roupa com sua miudeza e chilreio… ainda não descobri como se chama o canto do beija-flor. Será que é floreio?

Hoje é aquele dia comprido que demora a passar. Trago nele tantas lembranças da infância. As histórias de meu pai e o mistério de uma data que todos vivem sem viver de fato o verdadeiro sentido dela. Confesso que por força de algo maior que não consigo definir sigo alguns rituais que meu pai seguia. Digo no tempo passado porque é algo que marcou minha vida – acho que sou a única dos irmãos que ainda faz isso – e pela primeira vez em muitos anos não vou seguir a procissão que começa lá em cima, na avenida. Já ouço o canto pelo microfone . Alguns rituais precisam ser rompidos. Alguma coisa vai mudando com o tempo ou são as pessoas que vão se tornando estranhas aos meus olhos e já não me sinto necessária em alguns lugares.

A vida tão cheia de verbos e frases feitas. Datas singulares que abrem a gaveta de minha memória tão cheia de pretéritos que sobram para fora algumas peças extras que tento decifrar ainda.  Coloco o envelope laranja junto com os outros. Aspiro o cheiro de palavras que se juntam e aceito seu convite. Dou-te a mão e vou contigo pelas suas calçadas e ruas.
Abraço-te e rio na sintonia da resposta  que sai ao mesmo tempo que a pergunta chega…

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Missiva de Abril
Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Portas e Janelas

I

Algumas portas já nascem fechadas.
As histórias descritas – escritas – por detrás delas trazem o grito preso da liberdade escolhida.

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II

Todos os dias eu passava por aquela rua… as janelas escondiam vultos de poemas.
Era como se eu tivesse lendo Adélia e como se o sol morasse lá dentro.

Impressionista


III

O antiquário vende ilusão do tempo.
Naquela rua, depois da esquina o antigo é o novo.

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IV
O eco a relembrar o artista
a solidão da alma exposta na escuridão.

V

Atrás daquela porta uma história era escondida.
Que sonhos habitam as paredes tingidas de nada?

Que perguntas ficariam sem respostas?

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VI

Logo que mudou para o bairro da avó, percebeu que seis casas acima havia aquela casa diferente. A cerca sendo abraçada por uma trepadeira que soltava suas flores lilases e suas sementes surgiam dentro de uma vagem tipo feijão deixava transparecer que não morava ninguém ali.
Um gato sempre a miar corria em cima da cerca logo que a via, como que pedindo comida.
Passou a olhar para a casa em vários horários do dia – vai que alguém trabalhava de dia e só voltava de noite? ou ao contrário – mas em suas inspeções diárias chegou a conclusão que a casa era abandonada. E planejou a invasão daquele que canto que podia ser só dela, já que em sua casa de dois quartos e mais um terceiro improvisado era pequena para o tanto de irmãos e o pai.
Um dia, criou coragem e abriu o portão que fez um barulho enorme quando a tramela foi acionada. As folhas do pé de sete copas cobria o chão e seus passos temerosos pareciam gritar quando pisava no chão.
A janela dava para um lugar perdido do nada e ali, podia sonhar…

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Fotografia e texto: Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – portas e janelas
Scenarium Plural Editora – 2017
Também participam: Retratos e Diários, Catarina Voltou a Escrever, Sariando por aí, Frascos de Memória

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Se alguma coisa nasceu para voar foi o teu coração

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“Voa coração, ou então…Arde!”
Eugênio de Andrade

 Querida A.

Abril começa aos meus olhos como uma pintura de Monet… É tanto ouro e azul nessa manhã desavisada de pássaros… parece até que todos vieram de uma vez só… Os pruuus e gruus e euquetevi emendam em uma melodia barulhenta que me arranca risos. Parece discussão de criança… um querendo cantar mais alto que o outro

Algum dos meninos da vizinhança perdeu uma pipa no fio da rede elétrica… está ali, o pobre esqueleto a voar de um lado para o outro seguindo a brisa mansa.

Abril chega ameno aqui… As folhas do pé de algodão forram o lado esquerdo do quintal. Adoro o cheiro do mato se decompondo… enquanto aspiro o aroma que me carrega para a infância, o sabiá laranjeira e o bem-te-vi – corajosos, por sinal – se arriscam a roubar a ração do prato dos cães… Cada voo que dão por aqui é quase um perder de penas.

Por falar em pena, conheci um indiozinho anteontem… Ele tinha os olhos e cabelos pretinhos… Um pequeno sábio que me trouxe uma pena de presente. Colorida daria cor aos voos – para que eu voasse bonito, ele disse – ao mesmo tempo, leve… Para que as coisas não pesassem tanto e então, pensei em você e de coisas que nascem para voar…

Se alguma coisa nasceu para voar foi o seu coração.

Ele voa dentro da palavra bonita que você descreve e no mundo encantado que você me apresentou quando te abracei.

Meus pensamentos voltam para você e avanço em direção ao teu lugar… Quase visualizo as estradinhas de Minas entre as serras que minha memória busca da infância… Recordo de suas viagens e de como eu voava contigo e de como você chegou até a mim.

Ainda ontem ou anteontem foi seu dia… A memória anda em conflitos com datas e já desisti de me deixar levar por elas. Hoje, lembro mais do antigamente, ou de dias atrás. Já viu como o calendário é desavisado de presença? As redes notificam, as pessoas se lembram e vira tudo ” dia do amigo, dia da saudade, dia disso, dia daquilo”…

Eu gosto de dizer feliz todo dia! E que as coisas boas voem sempre até você. E é esse meu presente de amor… Um voo onde te dedico a leveza do carinho.

Beijo,
Mariana Gouveia
Projeto Missivas de Abril
Scenarium Livros Artesanais

Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 | Scenarium…

Falar sobre os livros da Scenarium Plural para mim é como falar de filho. Você vai ver aqui aquela mãe boba que só admira cada coisa que o filho faz.
A Scenarium entrou em minha vida pelas mãos de Lunna Guedes e foi amor à primeira vista, ao primeiro comentário e depois disso tivemos tanto de primeiro/primeira que até hoje tenho primeiros lances com ela.
Dessa descoberta veio as realizações de sonhos e tudo que aconteceu está aqui registrado em posts, poemas, cartas e fotos.
Mas, hoje, venho te mostrar a minha Six Top List dos livros que a Editora publicou e que te convido a conhecer:

Lua de Papel I, II e III
Lunna Guedes

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Lua de Papel não é só um livro. São três! Não é só uma trilogia! São histórias que se encontram e encantam.
Eu, amei cada um deles e enveredei pela história de uma maneira que ficava torcendo para que no próximo capítulo fosse além do que a autora descrevia. Lua de papel me fez viajar, sonhar e ficar como se estivesse dentro do livro, quase à beira da janela e bastava fechar os olhos e respirar e eu já era parte do livro…
Me apaixonei por cada personagem e muitas vezes tecia meu diálogo com elas. O livro me surpreendeu em seu final cativante e encantador.

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Dentro de um Bukowski
Aden Leonardo

“para o que existiu e foi deixado sob o lago
– aquela imensidão do esquecimento, do dia a dia. Um “B” lado oposto da realidade,
debaixo das estrelas”.

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Dentro de um Bukowski me levou/leva para dentro dos delírios. Aden me leva em uma viagem onde me deixo levar pelo lirismo latente.
Ouso, camuflo, domino, choro e rio junto.
Com ela eu não conjugo os verbos, eu os engulo e devoro. Talvez eu solte o grito que ela guarda. E literalmente viajo com ela pelas estradinhas – entre ida e volta – de Minas.
Confesso que enquanto “viajo” pego alguns atalhos dentro da paisagem e isso se transforma na melhor parte da viagem.

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A construção da primavera
Adriana Aneli Costa Lagrasta

“Ele está certo, do verão amo a tempestade, que estranhamente se antecipa no outono, este ano.

“Percorria o vidro com a ponta dos dedos, respirava fundo – como quem morre – e misturava o lado de fora ao lado de dentro…”

Compartilhei desta chuva de hoje… a de sempre… a memória: somos 60% água, matéria líquida aconchegada à passagem do tempo”.

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Adriana Aneli primeiro me embriagou com seu Amor Expresso. Sorvido, bebido e adorado. Além da simpatia – e simpatia é quase amor – e da materialidade do livro apreciado em um trabalho lindo do Atelier Flávia Taiano – que te convido a conhecer – os 50 mini contos me levaram à tardes mornas, aspirando o cheiro do café enquanto degustava o livro.
Já A Construção da Primavera me trouxe o ritmo das estações. Dentro de um projeto lindíssimo: O Diário das Quatro Estações – do qual me orgulho imensamente em fazer parte – Adriana te pega pega mão e te leva o ar supremo do outono adocicado pela sua poesia, à doçura da primavera em plena construção, ao inverno mesmo acinzentado e florido e um verão de luxo puro dentro das palavras dela. Com isso, ela constrói não somente a primavera, mas todas as estações derramadas de poesia.

**

Scenarium
Plural North and South

Estamos sempre à beira. podemos quebrar a espinha ou virar o mundo. não é questão de escolha, às vezes. mas pode-se reconhecer, pelo menos, que à beira sempre está presente.
estamos sempre à beira. há os que percebem. há os que sentem somente frio na barriga. não há volta, o frio na barriga não perdoa.

estamos sempre à beira. entre nortes e suls, estaremos perdidos (como se quisessemos direção…); entre lestes e oestes, a mesma falta, o mesmo desapego.

estamos sempre à beira, mesmo quando caímos.

à margem, à beira, norte e sul.
Claudinei Vieira

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Com Plural North and Soul e o poema de Claudinei Vieira falo do Projeto Plural e toda diversidade e gama de poetas magníficos que nos presenteiam com participações especiais nas quatro edições durante o ano. A Plural é uma revista de luxo onde a troca e a pluralidade te faz singular dentro da literatura. A arte inserida desde o projeto ao formato nos torna parte da ideia, do contexto e por fim, da poesia dividida entre uma gama de autores que embarca na ideia da Editora.

**

Septum
Lunna Guedes

gosto das madrugadas frias, com cheiro de chá quente na xícara… vinho na taça – um gole ou dois e os sabores se precipitam – gosto de um som a dizer suas notas e a pilha de livros a espiar-me, como se dissesse: leia- me. Gosto de ver os envelopes vazios… com suas cores a dizerem possíveis destinos.
Meus mapas são outros…eu me movo através de elementos particulares. Vou de uma esquina a outra em busca de uma mesa de canto do mundo, da vida e do corpo. Cheque mate!

Lunna Guedes

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Quando Septum se abriu aos meus olhos eu mergulhei dentro do imaginário de Lunna Guedes. Não fosse pela delícia de vasculhar as palavras que tão bem me tocam seria pela jogada de mestre de Lunna de nos prender ao seu mundo. As histórias nos envolvem a ponto de acharmos que a história é nossa e que o personagem pode ser eu, você ou alguém conhecido… Septum traz a magia do sete. Do mês da primavera, do idioma diferenciado em explorar nosso pensamento na melhor forma de desvendar os mistérios onde os brancos são preenchidos entre o encanto e os gestos.
Septum é esse gesto pronto de entrega.
Lunna nos presenteia e oferece dentro das estações a sensação plena delas. Septum é o próprio presente do Outono e a docilidade da primavera…A sensação de sentir na pele o inverno e se aquecer no verão.
Então, te proponho um desafio: que você não se perca dentro das palavras. Ela sabe como surgem os personagens.
A jogada está dada. O próximo lance é seu.

**

O lado de dentro

Mariana Gouveia

A poesia de Mariana em ‘o lado de dentro’… é um dia de sol, passos pelo asfalto cinza que se acaba de repente e nos deixa a estrada de terra cercada por mato e seu cheiro de vida selvagem. Mas não se engane. A poesia de Mariana transita entre realidades-tempos-espaços e pousa direto na pele de quem a consome em pequenos goles.


Havia qualquer coisa de Santa,

mas havia, também,

qualquer coisa de louca

não sei se o jeito de olhar.

O atrever-se com as mãos

ou o recato do decote, tão íntimo.

Havia qualquer coisa de tímida,

mas, havia — também

qualquer coisa de exibicionista.

Não sei se o riso solto

ou a voz quase rindo, quase suspiro.

Havia qualquer coisa de pecado,

de sagrado também…

e profanava em mim

nas mãos que

me descobria a alma

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Scenarium

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Seu perfume são acentos no livro de seu corpo

outro-lado

Agora que sinto amor
Tenho interesse no que cheira.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.

Alberto Caeiro, in “O Pastor Amoroso”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Bambina mia,

A solidão abraça as paredes da casa…muitos braços para alcançar os vãos todos
a luz da vidraça enfraquecida pelo gesto da cortina…
O dia tem sua rotina quebrada entre o chuvisco, chuva forte, um sol ardente de meia hora e não fosse pelas histórias que a TV mostra eu nem me tocaria que é Natal. A casa responde em eco minhas perguntas… repete minhas frases lidas em voz alta.
Na casa vizinha o assado começa a ser preparado – posso sentir o aroma dos temperos todos – e a canção de uma dupla sertaneja de mulheres e que está em primeiro lugar nas paradas é repetida ao extremo e vira um mantra insuportável aos meus ouvidos.

As luzes da casa do vizinho lateral brilham em um pisca-pisca incessante. O cheiro do outono mesmo sendo verão vindo do bosque ao lado invade a manhã. O céu é uma aquarela de cores e seus matizes diversos. Lembro-me de um poema e os lilases outonais.
Fico a admirar como os tons mudam rapidamente. O que era agora a pouco já não é mais. Elevo uma prece ao universo e sua magnitude de beleza. Nos fios, os pássaros em seu estado de asas. Parece uma brincadeira o equilíbrio todo.

Anteontem conheci um cão… me seguiu até o ponto de ônibus. Não parecia perdido, nem faminto… apenas queria companhia, eu acho. E hoje ele apareceu no meu portão e parece que me reconhece. Acompanha o menino que entrega pão e que nem é mais menino. Mas não é dele – apenas o segue em alguns dias como se quisesse companhia – e assim vai vivendo livre dentro das ruas do bairro. Acho que vai voltar, já que agora sabe onde moro.

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Assim, começo meu dia na singeleza dos instantes.
Ouço os trovões todos e em seguida a tempestade anunciada chega invadindo esse domingo – lembro-me da promessa de ontem e realmente você esteve presente o dia todo… nas trovoadas, nos pingos da chuva, na leitura dos livros que editou e no cheiro que invade meu lugar e penso em tua rosca e teus aromas de infância – abençoo a chuva e seu estado de graça… Às vezes preciso de vento e ele chega rompendo as cortinas todas…

Algumas palavras traduzem os sons desse dia onde as canções se repetem nas casas vizinhas… as mesmas entre gritos estridentes de alguém que tenta cantar igual a dupla de nome estranho… Desse dia fica o cheiro de minha mãe como se fossem acentos dentro de minha memória. O cabelo preso no alto da cabeça, em tranças, o vestido godê num azul suave – quase céu – era assim que ela se vestia para o dia. Nos outros dias, ela era a índia solta, liberta, descalça e faminta de natureza. Comia de cócoras com as mãos em montinhos que distribuía entre os sete filhos, ali, alinhados em sua volta… Lia os livros – os poucos que tínhamos – a maioria puídos, alguns sem algumas folhas, mas ali em cada página ela criava outra história dentro da história, as fotonovelas que em sua maioria eram de artistas italianos – como tu – cuja história de uma agricultora que perdeu a família e vendia melancia na beira de uma estrada e no dia de Natal conhece o amor de sua vida nunca me saiu da cabeça. Posso descrever cada frase, cada foto… inclusive, o pedaço de melancia cortado quadrado e não em fatias, como costumamos fazer.
A chuva não cessa… faz o dia ficar lento em seu estado de ser. A vida germina no meu quintal.
Penso em proteger os casulos, mas deixo a natureza seguir seu curso e logo teremos asas a bailar por aqui.
Serei mãe de mais seres que voam e é dentro desse aroma de terra molhada que vibro a vida que se refaz em cada canto desse meu lugar, afinal o dia é mesmo para comemorar um nascimento.

Que assim seja!

Bacio…
Mariana