Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

(De)serto

Ph; Adam Taylor

Sendo o meu corpo
A tua pauta musical


…dedilha-me!

E faz escorrer da minha boca
um beijo que se deforma

— Miragem!

Onda que vai e vem e põe no meu corpo
palpitações de oceano!

Mariana Gouveia
Poesia publicada no Coletivo de Poesias Eróticas Lilases
Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo
Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

Meus Livros · O lado de dentro · Scenarium Livros Artesanais

Espelho, espelho meu

Depois que o meu espelho quebrou
desmistificou-se o mito
nem se pergunta mais o que é bonito,
por que tudo lindo ficou
e a sorte que ia e vinha de vez em quando
entrou e ficou pendurada no canto
e pela casa toda se espalhou.

Mariana Gouveia
O Lado de Dentro
Scenarium Livros Artesanais
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Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Barquinho de Papel

Lembro-me do barulho dos meus pés pisando a areia fina que contornava o rio logo a poucos passos da casa e durante a noite.

Quando tudo se aquietava eu ficava ouvindo o barulho da água dançando com as margens. Era a hora que eu sonhava com o barco que me levaria até o mar.

Em minha cabeça de menina uma pergunta martelava: será que se eu seguir esse rio, percorrendo as curvas eu chegaria até o mar?

Parecendo adivinhar meus pensamentos, minha mãe me mandou sentar ao redor da mesa grande debaixo do pé de sete copas… revistas velhas, tesoura e foi dobrando uma folha de revista.

A ponta de cima até o centro do papel.
A ponta de baixo levantada.
Suas mãos foram dobrando aqui, forçando a dobra ali e no centro da mesa um barquinho pousou…

A companhia dos meus irmãos encheu a mesa… e eu quis colocar meu barco no rio, para testar, colocando nele a esperança e a fantasia de sair vida afora até conhecer o mar.

Mas, assim que o barquinho foi colocado no rio, a correnteza o carregou e poucos metros abaixo se desfez lentamente.

Um outro, foi um pouco mais longe e sumiu debaixo da água.  Mas um, feito com outro tipo de papel – mais duro – seguiu a curva e sumiu levado pela correnteza. Do alto de uma pedra consegui avistá-lo até onde meus olhos conseguiram ver.

Minha mãe, vendo as nossas expectativas ali, com alguns barquinhos ainda em mãos, disse que os sonhos eram iguais aos barquinhos.

Uns, eram muito frágeis e no primeiro obstáculo se desmanchavam. Outros, duravam algum tempo, mas diante de algumas dificuldades eram desfeitos – talvez, para dar lugar a outros sonhos – e só o sonho buscado em um sentimento forte, seria realizado.

Não importa o tempo, nem as dificuldades… de uma forma ou de outra, o barco sempre encontra o porto seguro onde atracar.

Eu ainda não conheci o mar. E meu barco de papel que estava guardado, se perdeu nas mudanças da vida…

Um dia, quando meu filho completou 11 anos… o ensinei a dobrar o papel para confeccionar o seu barquinho de papel.

Repeti as mesmas frases que minha mãe me disse. Falei dos sonhos, da importância de tê-los e das dificuldades que poderiam surgir quando buscamos esse sonho.

O tempo passou, e um dia, seguindo seu sonho, meu filho me ligou à beira do mar.

Ouvi o barulho das ondas, o som do vento e o eco dos passos dele na areia… sua voz sendo parte do mar que toda vida sonhei ouvir:

– Mãe, o barquinho enfrentou a onda e está lá, no meio do mar. Os sonhos se realizam, mãe.

Não era eu ali, mas eu compreendi o que minha mãe quis dizer: muitas vezes, os nossos sonhos se realizam nos nossos filhos.

Mariana Gouveia
Texto publicado no Projeto Coletivo Barquinhos de Papel
Scenarium Livros Artesanais
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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Parabéns, Cuiabá! 304 anos.

Amar você virou rotina. Dessas rotinas comuns de espiar você além da janela e do meu quintal. Do céu que vejo amanhecer em tons laranja e da vida que começa em ti em cada manhã.

Amar você gera conflito, porque você mudou tanto.

Antigamente, te amar era tranquilo. Eu podia te abraçar dali da calçada e meus olhos te alcançavam na leveza do vento que batia nas folhas da mangueira que me traziam sombra e aconchego.

Eu não entendo mais teus modos e talvez você me diga que é isso que me encanta. Que é ali que esconde tua beleza. Que teus lugares são feitos para mim, que é em ti que eu me encontro. Encontro-me nas tuas esquinas onde corri, onde brinquei. Nos muros onde rabisquei meus primeiros poemas de amor.

Amor que falava de sua cor, do fruto doce que como presente você derramava no meu quintal. Do sol abrasador que me aquecia e que eu insatisfeita, sempre, reclamava.

Eu sempre te amei. Desde quando as tuas ruas se abriram pra mim me envolvendo com as folhagens das palmeiras que te ladeava. E eu, menina, corria solta pela vida em você. E sonhava com você dominando o mundo, senhora de si, com tuas cores redesenhando o amor que eu sentia por ti. Depois teu colorido foi se tornando cinza e tuas possibilidades de cores enfeitavam minha vida.

Me vestia de chita, te vestia de chita. Te cantava nas canções de amor. Te enchia de poesias pelas vielas. Serenava para você nas madrugadas frias. Umedecia nas tardes de calor.

Reclamava, reclamava e ainda assim, longe de ti, queria existir em você.

Sempre amei caminhar nas tuas rotas, desvendar as teus lugares secretos, comer e beber de ti, na essência pura de tua alma. Eu sei que tudo isto está aqui ainda, mas aquela menina que aprendeu a desvendar o amor que sentia por ti, cresceu. E o amor… esse amor infinito por você cresceu junto comigo, na mesma intensidade do sol que em ti, se torna especial.

Com o tempo, me transformei arrogante pelo simples fato de te possuir, porque te queria a melhor.

Eu andei por aí, e nos becos, descobri que tua força não é mais a ingenuidade de menina. Você cresceu. Tomou proporção de gigante e  teu tamanho é efêmero porque ainda guarda a singeleza do teu linguajar, se tornou maior do que podia aguentar e ainda assim permanece intacta na simplicidade.

Já fui pra outros lugares,  outros amores… Eu sempre voltei para você, por vezes insatisfeita, mas com aquela sensação única de que só a ti eu poderia chamar de lar. Meu porto seguro.

Ali, entre a ponte que dividia lugares, onde guarda meus desejos mais secretos e que para ninguém descobrir você os levou pra água mansa do rio. Aqui, debaixo de teu ipê florido e nas calçadas onde cresci sentindo aroma doce do cerrado.

Busco justificativas para aquilo que eu sinto, sendo de verdade, o amor.
Ainda me encanta a tua diversidade, os teus mil jeitos e lugares que me acalma.

A mansidão com que me abraça, mas eu odeio a tua falta de regras, a tua desigualdade, a tua falta de respeito, de solidariedade.

Pode ser que eu me engane ao ver nascer uma flor debaixo de tanto concreto, onde as escadarias me leve aos lugares de fé. De tua fé e do acreditar que é possível que você continue a mesma e  mude.  Que os encantos aconteçam nas manhãs em que vejo pássaros tão variados voando no teu céu cinzento e pense que você ainda é a menina simples que me encantou.

Eu te amo e te odeio, mas não te deixo, porque você sempre coloca em meu caminho uma descoberta que me conduz para lugares lindos, pessoas inesperadas, histórias de contos de fadas e que estampa em tuas praças a esperança.

A esperança do amanhã. Um amanhã novo que se desenha e sem medo de ser feliz eu te abraço. Te abraço e nesse teu renovar de dias eu me derramo de amor pra você.

Enfim, sabe como despertar em mim a cada dia um novo sentimento que me direciona, invariavelmente, a ti, Cuiabá.

Parabéns pelos seus 304 anos, Cuiabá, meu amor!


Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo:
Lunna GuedesSuzana Martins – Roseli Pedroso  Obdúlio Nunes Ortega

Goiana, cidadã cuiabana desde sempre, mas  desde 2009 cidadã orgulhosamente cuiabana e irremediavelmente apaixonada por Cuiabá.

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

E se floríssemos em preto

e branco como as divas mudas?

Carmen Picos

Ph: Gaëna da Sylva 

Carmencita,

só hoje soube de sua partida há tantos meses atrás e como prometido te escrevo. Gil canta no repeat. Reli as nossas mensagens até chegar em seu silêncio. Como alguém vai embora assim sem tempo de despedida? Depois, suspirei e agradeci por ter tido a honra de ter você em minha vida, mesmo que por trás dessa tela.

Ficou para trás a promessa do encontro, do abraço, dos poemas que eu leria e dos que faríamos juntas – quem sabe, um dia, para além dos mistérios que a gente desconhece isso não aconteça – ficou em mim o carinho que sempre me dedicou e da diva maravilhosa que se transformou aos meus olhos.

Eu te dava relatos diários do Chiquinho e você falava de música e agente falava de filhos. De gatos, de animais, de flor, de luta de Brasil e do mundo. Você me levava Espanha afora… madrecita, arriba e cariño…

Eu te achava revolucionária e você era fã do Che e de tantos outros que eu reverenciava também – e dos risos… – e a gente ria através de letras… era tantos kkkkkk e tantos hihihihi, hahahaha e tantos uias… e um dia de repente a gente se declarou… um eu te amo se confrontou com o eu também e o tu me faz bem e o Carmencita virou sinônimo do meu carinho.

Te contei sobre meu milagre de cura e você falou do milagre do universo que liga pessoas de lugares distantes como se fizessem parte da família. E assim, a gente foi tantas em mensagens únicas que nunca apagarei. Serão como mantras em dias difíceis.

Você é minha diva onde quer que esteja, em qualquer lugar do universo ou apenas em meu coração. Você será meu sorriso quando uma lembrança me trouxer você e quando um pássaro atravessar o céu seu sopro chegará até mim como se fosse abraço.

Voa, pequeninha!

Abraço carinhoso
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Equinócio de Outono

Embora começasse outra estação, e como os livros diziam que começavam o equinócio do outono, para nós ainda era a estação das águas, porque a chuva persistia nos dias e a água tomava conta de todo lugar.

As gotas pareciam brincar com a natureza e a enchente sempre acontecia nas margens onde o rio beijava as matas.

Sabíamos que a natureza cumpria seu papel de estiochuvaestio…

Às vezes, chovia a noite toda e o barulho das gotas a cair no telhado era um convite para o sonho… Em outros dias, a chuva durava dias inteiros e ficávamos presos dentro de casa…

O cheiro do chá a invadir os aposentos… os irmãos a inventar brincadeiras e o céu a derramar bênçãos dentro da presença da estação.

Outono só nos brindaria em instantes nos meses seguintes e só aí, o vento nos beijariam em sopros com a amenidade do tempo

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Cabe fevereiro em um dia inteiro

Meu ser fóssil
pulsante
sedimentar
tectônico
entalhado na rocha
arrancado da litosfera
marcado no tempo
prestes a eclodir
na imensidão geográfica
da crosta terrestre


Suzana Martins

Su, minha menina nuvem

te escrevo na intimidade das horas logo depois da chuva que se formou para os lados do sul. Para meu espanto, o jardim gotejou, as flores do ipê se rebelaram e caíram todas de uma vez, formando um tapete amarelo molhado.

Enquanto eu ainda secava a água da varanda o céu me chamou como se quisesse que eu visse algo ali, para além dos muros. Um arco-íris lindo se desenhou e fevereiro coube intenso dentro de um dia. Corri para rua e ali comecei a escrever mentalmente essa carta para você.

Você acredita em coincidências, Su? Confesso que quase não acredito. Acho que sempre há um porquê das coisas acontecerem. Mas a minha alma de escritora se espanta com a singeleza que o destino me traz na palma da mão. Te perguntei sobre as coincidências porque justamente quando eu comecei a te escrever vi sua mensagem e seu arco-íris na janela do WhatsApp…

Ph: Suzana Martins

Sabe, Su, uma fotografia apenas não te mostra esse céu que me encanta por aqui. fevereiro aqui passou como um relâmpago e houve tantos dias dentro de um mesmo dia por aqui, além das trovoadas. .. mas também teve dias em que as nuvens pareciam feitas de algodão. E hoje foi um dia em que aconteceu de tudo no meu lugar.

Agora mesmo, Su, enquanto finalizo minha carta, o céu parece de outro mundo. E já há uma lua em seu quarto crescente. E o arco-íris se derreteu como se com isso formasse um elo entre eu e você.

Sou grata por você em minha vida!
abraço carinhoso ❤

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Palavra do dia: esperar.

Acontecia dias tortos feitos de silêncio. O vento era mudo. As folhas não faziam ruídos. Apenas o pássaro que não tinha gaiola cantou no quintal. As paredes tinham ecos perdidos. Eu queria modificar a história. Fazer a lenda ser real no toque. Tive alucinações na alma. O peito gritou as previsões todas. Tudo misturava nas cores do dia. Mostrei o céu no instante de antes.
Algumas coisas fogem das explicações.

Palavra do dia: esperar.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

e ainda nem era outono.

Havia chovido em uma dessas tardes mornas de fevereiro… O lírio do vento ainda trazia as gotas como se fosse souvenires e ela ali, espiando a tarde que amarelava o muro do quintal.

A solidão fazendo companhia para as flores que se transformaram em relicários das gotas da chuva – de ontem e ainda nem era outono.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Tipo assim…

Da janela do ônibus as coisas passam por mim e eu escrevo enquanto o engarrafamento aumenta. Reparo nas coisas e nas pessoas para te contar. As personagens se multiplicam entre conversas que tento absorver. Me chama a atenção um casa de adolescentes que pelo visto ainda estão em fase de paquera – sei lá – próximos de mim.
Durante o percurso de 30 minutos entre uma estação e outra repetem em um diálogo 150 vezes a palavra “tipo”…

– A professora tipo assim, enrola mil vezes, tipo, a prova foi fácil, mas tipo, o tempo foi curto…
Enquanto ela comenta que:
– Tipo assim, o meu pai não pode me buscar e eu, tipo a sapatilha do balé, tipo pressiona o dedo…

Ele olha para o pé e ela meio sem jeito, diz, tipo sem graça:
– Prazer, pé de bailarina!
O olho dele brilha e ela sem graça, mexe no cabelo. Fala do prazer de dançar, depois que ele quis saber se ela gosta mesmo de balé, entre dois “tipo” no meio da frase. E ela descreve a poesia que o céu oferece lá fora, através da janela… Dançar para ela é como a magia do sol de todo dia, tipo que se a gente fica sem, morre… Ele fala do amor pelo skate, mas tipo assim, ele não tem. Usa emprestado do amigo, que é tipo meio irmão e que com o skate pode voar, igual a ela – imagina ele – tipo quando dança.

Comentam sobre o quanto de vezes repetiram o tipo e eu aviso das 150 vezes que marquei. Riem comigo, pela cumplicidade da conversa e eu digo que tipo assim, ia escrever uma carta falando sobre isso. Ele desce antes de mim e despede-se pegando o endereço do blog. Tipo assim, de curiosidade, ele verá. Ela ri e fala do prazer de dançar que deve ser tipo assim, o mesmo que eu sinto ao escrever.
Despeço-me na leveza do riso da menina que tipo assim, durante a dança, voa. E sigo rumo à noite para te escrever.

Mariana Gouveia