Corredores, Codinome Locura

Nunca sei se é a palavra que chora,

 

Nunca sei se é a palavra que chora,ou se é o tempo que chove.
Ar líquido na memória recente, instantes plenos de Universo e nuvem.
Está a cair o céu em forma de água.

Mariana Gouveia.

Corredores, Codinome Locura

Há um pouco de vida na minha criança de hoje,

m.bonifácia 007ela se contorce em sua alma de lata e se despe das ilusões obrigatórias.

Já não há mitos para eu imitar. Nem exemplo a ser seguido, a não o meu. Passo a passo, de que a esperança deve ser minha e não posso permitir que ninguém a destrua.

Já não há herói de roupa branca e estrela vermelha no peito e que me dizia que as coisas eram possíveis.
Já não são mais possíveis as coisas incríveis. Tudo virou comum e o herói, vilão.

Há um pouco de calma na minha esperança.
E a utopia de que um homem vira menino e ganha poderes especiais de sonhar e realizar já não é possível.
O homem já não é o que eu pensava. E o menino, cresceu e se transformou igual aos outros homens comuns.

Há um pouco de saudade na minha alma de criança hoje.

Mariana Gouveia.

Corredores, Codinome Locura

O dia amanhece com as mesmas rotinas.

O dia amanhece com as mesmas rotinas.O sol escaldante de sempre. O céu azul sem nuvens, ainda. O pássaro que canta na mangueira do vizinho.
O gato que arrisca no telhado entre os latidos dos meus cachorros.
Tudo sempre quase igual, com exceção do visitante que chegou e ficou ali, entre o fio e o poste. Perdeu a casa, a árvore imensa que ficava logo após a curva do bairro vizinho. Derrubaram-na para uma nova construção. Veio ele espiar se a mangueira é um lugar apropriado para ele. Acho que é. Ali, na mangueira há sabiás, bem- te- vis, siriris com seus voos rasantes no céu atrás de algo que voa.

Assim, na manhã das rotinas de sempre eu espreito o visitante novo e converso com ele. Dou as boas-vindas e espero que amanhã, ele volte para que a rotina se repita.

Mariana Gouveia.

Corredores, Codinome Locura

pela rota esquecida dos pássaros

pela rota esquecida dos pássaroseu te busco nas tardes rebuscadas de palavras.
Eles voam ao contrário na imensidão do meu amor
e as asas me carregam noite adentro  onde ainda não aprendi a voar

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Os dias de Novembro nunca mais serão iguais.

Os dias de Novembro

Haverá uma melodia que tocará na mansidão das tardes.

Os dias de Novembro terão comoventes dias, só por causa dela e a leveza dos jardins em qualquer lugar do mundo tocará na brisa das flores a asa de uma borboleta.

É esse o toque que a partir de Novembro, os dias terão.

Terão nuvens de efeitos com coração e as palavras pronunciadas nas ruas serão declarações de amor.

As paredes, grafitadas darão nome ao meu amor.

Os dias de novembro nunca mais serão iguais e todos os dias, até as segundas-feiras mais monótonas se transformarão em domingos por causa dela.

E a folha suave servirá de leito e as cores passarão a ter efeitos dourados como se bordados fossem.

Só um outro mês terá o doce encanto maior que Novembro.

Dezembro será inesquecível.

E, depois os dias de Dezembro serão especiais.

Ainda assim, por causa dela.

Mariana Gouveia.

Corredores, Codinome Locura

Gosto de te ver calmo.

Gosto de te ver calmo
Voando, indo
gosto do bater manso
de tuas asas
e do calor com que me aquece

do jeito com que se aproxima
Eu me perco em teu vão
e já escurece
me acho só

e nunca te encontro
Te procuro na noite
e percebo que dormes
sereno, sereno sonhando

Eu me vejo voando
e busco teu voo
mas não te domino

sei tuas verdades
mas não te decifro
pois escondes com certeza

a chave do meu quebra-cabeça

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

as incontornáveis luas de junho

Incontornáveis luas de junho IA lua daquele dia não me sai da cabeça.

Ardia quase,chamando atenção sobre si.

Incontornáveis luas de junhoAinda a sinto tonta,vagando entre uma árvore e outra buscando espaço leve num telhado ou escondida por detrás de uma nuvem.

incontornáveis luas de junho IIIAinda a vejo quase disfarçando cores entre um pedaço do céu.

DSCF5836Ainda surge em fases diferentes e metade/cheia metade/vírgula e finda-se no horizonte.Me deixou cheiro de manhã orvalhada com sol desmanchando lágrimas nas flores.
Como as incontornáveis luas de junho buscando itinerários nos olhares teus.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

O ar tem cheiro de hortelã.

O ar tem cheiro de hortelã...ou borboletas.Não sei.

A cozinha é um pedaço da casa onde eu gosto de ficar.

Ali, tudo cheira a ela.

Uma mulher no canto me vigia mesmo sem presença física.

Converso com ela.

Ela reflete no chá que bebo.

Acho que de hortelã – não me lembro… –

Canto canções que falam de amor.

E entre as palavras a chamo.

E ela quer saber a noção exata do que sinto.

Ainda não aprendi a traduzir isso. Imito o vento.

Preciso de palavras novas. Mas, é sempre a mesma que me lembro de quando penso nela.

Encanto.

O ar tem cheiro de hortelã… ou borboletas. Não sei

Perdi um pouco da memória de mim.

Encontro-me nela e nesse vago encontro com a essência que ela deixou aqui…

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Girassol plastificado

girassol plastificado 2

I

Um beija-flor veio beijar a flor

bem no meu quintal

Mas,foi mal…

O girassol plastificou

Por falta de amor ou falta de sol…

II

Eu não tive nenhuma alegria
depois daquele dia
que o beija-flor voou
e não mais voltou

III

Eu preciso de um jardineiro sim
Pra cuidar de mim e do meu jardim…

IV

Agora eu vivo sempre na janela
vendo a lua bela
em fase vírgula…

V

Da janela observo a lua
lembro que sou sua
e quero entender
o que fez o girassol morrer
se foi por você
ou pelo beija-flor que nunca mais voltou…

VI

As flores não perfumam mais
nem as estações são iguais
ao que era antes
do beija-flor voar
pra não mais voltar

VII

Os caminhos não trazem ninguém
e a lua vem,em forma de vírgula
num céu azulado

VIII

Eu preciso de um jardineiro sim
pra cuidar de mim e fazer brotar
o girassol plastificado

**
PS:Como gosto de ser abraçada
Por estas coisinhas mínimas!

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Inanimada

Inanimada

Talvez a minha grande frustração seja não ter aprendido andar de bicicleta.
Era meu sonho, aquela toda rosinha, com a cestinha na frente. Uma só minha!
Mas como os irmãos eram tanto, e naquele ano a colheita não havia sido tudo aquilo que meu pai esperava o que apareceu foi uma imensa – aos meus olhos de menina – vermelha, sem acessórios e categórico meu pai disse que era de todos, o tal presente mantido em segredo até a caixa se abrir.
Meu irmão mais velho já saiu em disparada e os outros correndo atrás marcando a vez na fila. Éramos sete, ao todo,sem contar nos meninos dos empregados que viviam mais ali com a gente do que na casa deles.
No fim do dia, ainda não chegara minha vez e quando chegou, não se podia mais pedalar porque já era noite.
No dia seguinte, nova tabela de uso foi feita e eu, lá pelas tantas depois do décimo. Mas na minha vez, ninguém dos mais velhos podia me ensinar e o pedal era longo para minhas pernas curtas.
Rompi de vez meu desejo de andar nela. E quando via os meninos de joelhos ralados dos tombos, aí que não mais queria nem passar por perto. E meu nome nunca mais foi pra lista.
Ela, coitada, foi abandonada tão logo chegou outro presente mais novo. A  bola.
Ficava ali indiferente, encostada embaixo de uma árvore, à espera
E deixou de ser meu objeto de sonho e passou a ser meu objeto de desdém.
Quando em tropel, eu passava por ela,  montada no meu cavalo eu ainda,esnobava, ela ali, inanimada…