Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta para Teresa

DSCF4844Linda T.

Acontece mudanças no meu jardim. Migrações de formigas entre os canteiros me lembram as palavras do meu pai: formigas mudando é sinal de chuva.
E não é que aconteceu? Caiu a maior tempestade aqui. Tive de mudar as coisas todas do lugar. O pé de amora perdeu seus frutos – ou quase todos – o vento não foi companheiro dessa vez. Até um ninho que havia lá, caiu. Sorte que os filhotes haviam ganhado asas dias atrás.
Mas como sempre depois da tempestade, vem a bonança o sol amanheceu radiante. Não veio o frio anunciado pela meteorologia. Está o mesmo sol de sempre e os quase 38º às 10 da manhã.
A vida acontece ali fora. Um céu azulinho que vira poesia só de olhar e as nuvens que passeiam por ele como se fosse um desfile.
Vejo nelas figuras estranhas e algumas que parecem coisas, animais. Já brincou de descobrir desenhos em nuvem?
Faço isso sempre – confesso – e descubro algumas engraçadas. Em sua maioria, vejo corações. Aliás, há coração em quase tudo que vejo. Desde uma folha seca que voa, ou alguma flor que brota no jardim. Também nos grafites dos muros.
Vejo corações por ai. Até em nossas conversas, na despedida, sempre me envia aquele coraçãozinho rosa que arranca sempre um riso de mim, depois do beijo e na despedida.
Hoje, lembrei da história do teu nome. Quantas histórias podem encerrar um nome e percebo que a sua tem a docilidade de avó bordada nela. E como leva o nome da padroeira das flores é assim que te rendo homenagem.
Flor colhida no jardim. Um gesto que viaja através das letras e atravessa o oceano na acolhida doce da amizade.
Que ao ler seu sorriso seja de ternura e que sinta nas palavras meu carinho.

Beijo meu

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Final feliz


Tem jeito de anjo, a moça
mas passou a ser indecente
olhar perdido nas nuvens
Resolve ser na mão de alguém
Vivendo doces mentiras do dia,
na noite se fantasia com asas e pensa em salvar o final feliz da história.
Enclausurada, lá pela meia noite tira a roupa
Traz sempre um cheiro de rosas
(anjo cheira a nuvens – eu acho)
exala amor novo
Sabe ser quente
sabe ser porto – ela diz
e no conto de areia de água doce disfarçada de mar
quer um final feliz.
Satisfazendo os desejos dela dou-lhe o céu e fim

Mariana Gouveia
*imagem: Kamil Vojnar

 

Corredores, Codinome Locura

Isso foi bem no dia da dor.

Isso foi bem no dia da dor.
As histórias que eu ia te contar esqueci.
Apenas recordo de passagens curtas do livro que eu lia.
Havia qualquer coisa de viagem – não lembro bem –
Alguma coisa apitava forte, falta de ar.
Pessoas correndo e eu confusa.
Não havia flores na veia, pareceu que ouvi alguém dizer.
Paredes brancas, rostos estranhos.
Pediam-me calma e estranhamente eu estava, calma.
O jardim ficou sozinho, e as flores que abririam naquele dia fecharam seus botões.
Não lembro disso, mas falaram que foi no dia da dor.
Essa falta de memória me busca na solidão das horas e eu não consigo esquecer.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta ao meu pai aos cuidados de Agosto

DSCF3158

abe, pai. Quando ouvi essa palavra pela primeira vez foi como se eu fosse marcada pela força que ela emana e descobrisse que ali, naquelas três letras estava todo amor definido.
A pronúncia, entre balbucios e riso e teu olho cheio de água plantou em mim uma árvore da qual me espelho até hoje.

Virei essa árvore e a minha raiz vem do alicerce forte que você me deu. E quando por vezes uma ventania espalhava minhas folhas vida afora, eu me agarrava na certa de que minhas raízes estavam seguras no amor, no exemplo e no amparo que você sempre me deu.

Muitas vezes, quando me rebelava em meu espírito de filha, você me mostrava caminhos, indicando-me onde era mais fácil trilhar. Por mais que eu me perdesse nas buscas, sua mão estendia-me a direção.

Me ensinou a ter consciência das perdas que por vezes tive.
Ensinou-me a valorizar cada ganho e principalmente a ter respeito por tudo. A vibrar com vitórias sem parecer prepotente. A vencer sem derrubar ninguém. Me ensinou a ser eu. Tão própria dentro do meu mundo e tão raiz tua.

Te desenho hoje na simplicidade dos dias. Você, pai, de sorriso largo, de persistência intensa. Com toda vontade de viver exemplifica o amor incondicional.

Feliz Dia dos Pais!

Mariana Gouveia

 

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta ao meu filho aos cuidados de julho

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

 Oi, filho,


Hoje retornei às minhas lembranças. Revi os dias que antecederam tua vinda ao meu mundo. E depois daquele dia em que me vi grávida, nunca mais fui só, por que desde aquele momento você passou a ser parte dos meus pensamentos.
Ainda na barriga, resguardado do mundo aqui fora, a ansiedade era ver como você seria.
Os dias e os meses antecipou tua chegada um mês antes do previsto. E de repente, você se tornou nossa vida.
Os primeiros dias, os primeiros meses, o primeiro ano. A primeira palavra, a ida à escola… e você se torna cidadão do mundo.
Cada descoberta era uma magia em nós.
Eu e seu pai fomos seus adversários nos jogos, até tênis inventamos de jogar, para te dar uma atividade única.
Você foi se transformando com o tempo. E cada conquista tua era a nossa também. Sofremos juntos suas dores de amor. Rimos juntos das piadas às vezes sem graça. Até torcer para seu time nós torcemos, só para te ver feliz. E quando ele perdia, dávamos-te a lição de que perder faz parte.
Hoje, relembrando o dia em que você nasceu, há 26 anos atrás, eu sabia que seria a última noite em que eu dormiria tranquila, por que depois de você, as minhas noites seriam povoadas de você. Se tava dormindo direito, se tava com frio, se havia comido antes de dormir. E rezava/rezo para Deus te proteger.
Te criei envolvido na poesia. Te apresentei os livros. Mas, antes de tudo te dediquei amor.
Embora hoje, você seja um homem, com personalidade forte, dono de si, para mim e seu pai, você ainda é nosso menino.
Filho, a vida nos leva por caminhos que talhamos e são nesses que caminhos que desenhamos nossa história. A sua história é escrita dentro da nossa e sem você nossa história não teria momentos tão bonitos para mostrar.
26 anos se passaram desde quando você nasceu e foi aí que nós nascemos para a vida.
Te amamos infinitamente

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta ao meu pai, aos cuidados de Junho

DSCF2865

Oi, pai.

Eu vim dar notícias de Junho. Maio passou tão ligeiro. Nem sei se você percebeu os dias. Mas Junho aqui chegou quente. E com seu aniversário, pai. E sigo o ritual de todos os anos. Faço a oração para Deus te proteger e meus pensamentos voltam para Junho. De todos os meses, Junho é o que mais me toca e você sabe o porquê.

Eu sempre me lembro da minha infância, pai e tudo que me marca nesse mês são as festas juninas. A alegria com que nós festejávamos os dias, era especial.  Além da festa por si só, os rituais que você seguia me leva hoje a repetir quase todos eles. A devoção cristã e a fé que te fazia levantar o chapéu sempre que pronunciava o nome de qualquer um deles.

Logo de início, o dia dos namorados envolvia laços e simpatias. A reza para que Santo Antônio nos trouxesse maridos bons. Ainda me lembro de colocar a faca na bananeira para que no dia seguinte surgisse o nome do amado escrito. Hoje sei, que tudo aquilo era apenas para enriquecer nossas histórias. Os doces feitos durante a semana que antecedia o dia 13 enchiam de cheiros nossa cozinha. O mamão ralado, o queijo para o doce de bolinhas, os pães sendo assados no forno feito por você. Os biscoitos de polvilho…ah, pai. Ainda hoje sinto as especiarias como guindaste do que vivi.

Junho por si só era frio. E parecia que você conseguia esfriá-lo mais na véspera de São João. O dia inteiro na feitura da fogueira. A mandioca e a batata doce escolhida a dedo para assar. Era como se fosse Natal e suas histórias sobre o batismo de Jesus ao redor da fogueira criasse em mim e nos meus irmãos um roteiro sagrado.

Sempre admirei tua fé. E na noite de São João você manifestava ela de uma maneira que nos assombrava. O atravessar as brasas descalço sem queimar os pés. Apesar de saber sempre que isso acontecia e repetia todos os anos, era o ponto alto da noite. Lembro que eu contava para todo mundo teu feito e quando ia dormir ficava a imaginar tua coragem. Meus pés ardiam na coragem que eu não tinha de fazer o mesmo. Seguindo os rituais nos levantava bem cedinho para o banho no rio. Como se fosse um batismo mesmo. E o frio ficava sempre em segundo plano. O que mais me recordo era a maneira de olhar na bacia e ver, se na sombra refletida havia duas orelhas. Se não houvesse, era sinal de que morreríamos durante o ano. Graças a Deus nossas orelhas sempre estavam intactas. Mas você conhecia sempre alguém que no ano anterior não havia aparecido uma das orelhas.

Estou aqui a escrever, pai e Junho passa e repassa todinho na minha frente com seus cheiros, seus frios, seus rituais e encantos. Fechávamos com chave de ouro com o santo pescador. E em sua doutrina religiosa nos ensinava que mais importante do que ganhar o peixe, era aprender a pescar. São Pedro era a fé viva do dia que quase fechava o mês e eu quase nasci nesse dia. Mas, isso, é história para outra carta.

Hoje, anos depois, Junho me desenha uma pescadora de sonhos. Mas, também uma realizadora deles. O mês começa hoje e já o vivi inteiro aqui. Você e tua fé que te mantém vivo, continua elevando os olhos pro alto ao citar os nomes dos santos e embora uma cadeira de rodas te prenda, com seus olhos atentos você viaja vida afora.

E como nas cartas que já trocamos tantas vezes, fecho essa desligando o rádio. A vida passa rápido, as coisas vividas já foram vividas e como você mesmo dizia quando eu era pequena:
– Vamos embora cuidar da vida.

a bênção, pai.
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Sabe, mãe

...

Mãe, estou paralisado pelos sonhos.
A realidade é dura por demais
o cidadão aqui é quem está preso,
indefeso
as crianças de futuro sem futuro
e sem paz.
Mãe, mas eu penso que estou indo bem
apesar da saudade de meu pai.
A janela tem uma grade que protege a mim;
mas, e os meninos que eu vejo nos jardins?
Sem segurança, essas crianças
buscam apoio num caminho proibido
e eu agora fico tão agradecido
por minha infância protegida por você.
Em cada olhar desses meninos pelas ruas
minha revolta é com quem
tem o poder e o dinheiro
para mudar esse futuro
e nada faz e é inseguro
eu viver com medo de uma criança
que seria a esperança
de um futuro verdadeiro.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Biografia

biografiaNão foi pelos olhos doces dela que me apaixonei,
embora neles ela trouxesse prenúncio de primavera.
Nem pelos cabelos em desalinho brincando com o vento. Nem foi também pelo toque macio da pele que brincava da delicadeza da flor, onde eu poderia aspirar essências do outono.
Nem pelo calor das mãos que ao me tocar proporcionava a quentura dos verões ensolarados;
não foi foi pelo simples desenhar do sorriso que abrigava universos e a ausência dele desencadeava invernos em mim.
me apaixonei pela biografia carinhosa que o perfume dela oferecia à minha alma.

Mariana Gouveia.

Corredores, Codinome Locura

Coragem da chuva

Coragem da chuva

de tudo mais bonito que ela me mostrou
havia um pássaro que voou e outro que pousou na vida. Doce, tão doce que a intensidade me assustou.
ela mostrou-me a coragem da chuva que invadia a tarde quase noite. e o céu rugia.

de tudo que ela me mostrou havia o sinal do abraço, que ficou na marca do corpo que ela deixou.
Mariana Gouveia
Corredores, Codinome Locura

Metades

metadesQue essa vontade de ficar e de te ter seja transformada na ansiedade e no desejo que vivo…
Que esse ir e vir em meu peito indo te oferecer amor seja ao menos o fogo saciado
Porque eu sou inteira você e a outra parte também…

Que a solidão que as vezes chega seja acalmada com sua lembranças.
Que eu mesma te represente em mim com as mãos…porque eu sou inteira o que fui com você…
e a outra parte o que você é em mim…

Que não seja preciso mais nada do que sua voz para me aquecer a alma…ou apenas a sensação de ouvi-la…o silêncio as vezes diz mais…
Porque eu inteira sou voz e a outra parte a música…

Que eu seja perdoada por amar…
e que eu seja tentada a pecar porque uma parte de mim eu sou inteira você e a outra metade também…

Que o meu coração fale tudo que eu calo…
para quando falar meu silêncio gritar mais…Porque eu sou inteira palavras e a outra parte seu grito…
Que meu medo de não te achar mais seja suprido por tanto que em mim você viver…Porque meu amor é isso tudo…
E até depois de minha morte é você.

Mariana Gouveia