Corredores, Codinome Locura

Tem dia que é feito dia de irmão.

O jardim ficou quieto em dia sem vento. O calor, ao amanhecer, seca o orvalho das flores.
O pássaro de todo dia fica preso dentro da sala e o eco do chilreio me acorda em uma manhã feita de acasos.
A borboleta gerou casulos, o girassol sorriu flores, o menino da rua de cima tocou flauta e eu abri a porta para o pássaro voar.
Tem dia que é feito dia de irmão. Cheio de delicadezas.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Corredores, Codinome Locura

Hoje é dia de vermelhecer em algum canto do mundo.

Anoto em uma carta as frases que diria… as sombras na parede espantam a solidão enquanto o sol aquece os corredores vazios. O jardim envernizado com flores de plástico esconde a parede oca para o futuro do nada. Descobri casas abandonadas na minha rua. Cada uma grita um nome quando a noite cai. 

Hoje é dia de vermelhecer em algum canto do mundo. Os intervalos entre o vento e o muro é o calor. Alguém canta na redondeza. Contam histórias de horóscopos e tarôs. vejo as constelações todas num céu sem nuvem… o rumor da pele desenhando tatuagens. Misturo os assuntos e rasgo a carta.  As frases ficam soltas em uma estrada diferente da outra. o mar afasta a possibilidade de escolha. Em algum lugar, a estrela fica fora do céu. O vermelho ao meu redor é apenas a vontade de estar onde não estou.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Corredores, Codinome Locura

Em estado de pausa

Quando molhei o jardim
a flor cheia de sede quis ser mais
e nas paredes frias rabisquei seu nome infinitas vezes.
Cantei Gadu enquanto a flor em seu estado de embriaguez
pedia mais água e a terra clamava chuva.
E em estado de pausa o vento mudou-se para além dos quintais.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Corredores, Codinome Locura

Os riscos imaginários…

Os riscos imaginários nas suas paredes eram voos migratórios das aves no jardim.
Era asa para todo lado… e assim, espalhavam as sementes.
Nenhum jardim nasce atoa e quando nasce, atrapalha a emoção da migração das aves.
E nos desvarios das incertezas, o pólen da flor é apenas suas paredes brancas com riscos imaginários.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Corredores, Codinome Locura

O elemento do jardim é a flor.

Começou a escrever a história pelas mãos dele – as mesmas que arrancam as ervas do jardim – é a que cuida do jantar e me levanta quando acontece dias como esse.
Calçou-me os sapatos e riu. Brincou com as bolinhas da roupa.
Perguntou sobre a estação. Colheu as amoras. Quis receita de geleias.
Cantou desajeitado na sorte da palavra. Sempre era o lugar daqui.

Ligou o rádio. Me olhou com olhos de serenata.
A intimidade contemplada. Desafiou-me ao riso.
Falou da geografia das horas.
– O tempo é o sinal de tudo. Tudo passa.
Mostrou-me o jardim. Era ali a direção da cura.

Fui.

Mariana Gouveia
Série Ser de flor

Corredores, Codinome Locura

Praticamos o nosso modo coffee talk…

Era aquela alegria conservada guardada em potes,
como a poesia da mãe
Tudo feito em desconcertos para consertar a alma.
Era como se tudo antecedesse o tempo
Por isso, em alguns dias difíceis
Ela ia lá no pote
Respirava a poesia
E com isso, conservava a alegria de viver.
Mariana Gouveia

Chegou o último dia de agosto… E minha carta hoje é para agradecer a você que esteve comigo nesse agosto diferente.  Tentei aqui te entreter com poesia, com minhas emoções. Conseguimos praticar o nosso coffee talk. Você esteve aqui, e a gente trocou mais do que poemas e histórias. A gente esteve junto. Mesmo em dias complicados ou não, você estava aqui com seu like, seu comentário e até sua quietude.

Em agosto, temos o Beda – blog Every Day – que acontece duas vezes ao ano, em abril e em agosto. É um desafio postar diariamente, mas também é muito gratificante ver o engajamento, tanto dos blogs participantes, quanto dos leitores fiéis do blog.

Nesse agosto, derramei aqui poesias, cartas, desabafos e histórias vividas por mim. Espero que você tenha gostado.

Setembro vem aí… e a gente logo pensa na tão falada canção de Beto Guedes – sol de primavera – que exalta a primavera e as boas novas:


“Quando entrar setembro
E a boa nova andar nos campos
Quero ver brotar o perdão
Onde a gente plantou juntos outra vez”

Mas, a canção que ficou mais gravada em mim, diante de tudo que escrevi para vocês em agosto, é a música da Vanusa, no refrão que ecoa agora:

Fui eu que em primavera
Só não viu as flores
E o Sol
Nas manhãs de Setembro

Eu quero sair
Eu quero falar
Eu quero ensinar
O vizinho a cantar

nas manhãs de setembro”

E é isso que desejo para você nesse mês que começa amanhã… que você cante e viva a vida, apesar de tudo que está aí.

Conto com você que esteve comigo aqui todos os dias e que possamos fazer com que a primavera seja vivificada dentro de nós… e que possamos fazer valer a frase da música de Beto Guedes que citei lá em cima:

Já choramos muito
Muitos se perderam no caminho
Mesmo assim não custa inventar
Uma nova canção
Que venha nos trazer
Sol de primavera
Abre as janelas do meu peito
A lição sabemos de cor
Só nos resta aprender

Aqui vai ser sempre um cantinho onde você terá seu lugar, independente de qual cidade do mundo pertença. Seja em silêncio ou comentando… vai haver sempre uma xícara de café te esperando.

Grata tanto!

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi Obdúlio OrtegaLunna GuedesRoseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina

Corredores, Codinome Locura

Incompleta…

Levantou-se e pensou na vida. Observou o dia claro, as nuvens, poucas no céu. Lembrou-se das escolhas, dos caminhos. Procurou entre seus pensamentos algo que realmente a deixasse feliz, e percebeu que sua infância havia lhe proporcionado vários momentos de felicidade.

Desejou encher sua barriga com uma criança, dar vida com uma outra vida. Vê-la crescer. Imaginou-se falando:
– Desce, filha(o), daí… vai se machucar.

Lembrou que tinha que comprar comida para o cachorro. Sorriu ao imaginar o sorriso de seu futuro filho.

Não existia ainda um futuro, mas era bom saber que poderia imaginar isso quantas vezes quisesse. Lembrou-se das vezes em que, sentada na sala, montava sua casa de boneca… adorava ver desenhos e se imaginar a princesa da escola. Olhou o relógio e apressou-se… estava atrasada. Havia muitas coisas para cumprir, compromissos inadiáveis, telefones que insistiam em tocar. Mas ela estava lá, parada no tempo. Vendo a vida como se estivesse na janela. As pessoas passando e ela como expectadora.

Gostava de andar com os pés descalços, e estava – naquele momento – descalça. Aprendera que não podia… uma proibição. Regras. Quando era criança, não podia, mas agora, depois de grande, precisava andar descalça. Liberdade para suas manias.

Lembrou-se da cólica, das dores, lembrou-se de um amor passado. Olhou para o chão, conteve-se em procurar um chinelo, mas desistiu. Havia muitas coisas para cumprir. A comida do cachorro para comprar. Olhou a porta e viu recados. Leite. Precisava tomar café. Não havia pães, ficou com fome e pegou um pacote de bolacha. Em sua cabeça, pensamentos soltos, regime, fome, dia, regras, nenéns que não existem, comida do cachorro, bola, brinquedo, pés. Sonhou em estar em uma praia. Escolheu a roupa do armário e colocou a música para tocar. No rádio, notícias. Olhou o céu azul e desejou ouvir uma música alegre. Mudou de estação. Notícias, propaganda e, de repente, um som que preencheu a alma. Pensou novamente no futuro. Queria ser mãe. Não era o momento, mas queria. Vestiu-se.

Por ora, esqueceu-se dos momentos ruins. Fez uma menção aos santos para iluminar seu dia e saiu… como quem cumpre suas diretrizes, como quem sonha em conquistar o mundo…

P.S.: Anos depois, o filho – já grande – chega da faculdade e fala da Grécia. Muda a estação do rádio, põe numa música engraçada e gritante.

– Mãe, tem de comprar a ração da Meg…

O sorriso do rapaz era largo ao brincar com a cachorrinha… e, nesse instante, revivi aquele dia em que desejei ter meu bebê, lembrando-me de todos os anos. O primeiro dia na escola, o primeiro tudo dele…

Vendo-o assim, bebendo água na boca da garrafa pela milésima vez, reprimo… e, pela milésima vez, ouço o “relaxa”…

P.S.²: A vida levou o homem para longe… e depois de anos realizou o desejo de subir degraus em busca da fé e mais uma vez, descalça, reviro os textos que falam do meu amor por ele. Por acaso, encontrei esse e achei que precisava de um complemento melhor. Lembrei-me de uma frase do meu pai de quando me casei: ” Depois que se constrói uma família, tudo que você deseja é que seu filho seja forte… para enfrentar os momentos bons e ruins. Voar é só uma parte do caminho, no alto. De resto, o chão é onde o pouso é seguro e a estrada te espera para seguir adiante.”


Meg se foi há alguns anos e hoje, Yoshi e Lolla cumprem a função de cuidar dessa humana aqui, que mesmo depois de tantos anos ainda pensa se ele comeu, se dormiu, se lavou o uniforme, se levou casaco… essas coisas de mãe. Da mãe que eu queria ser e sou.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de dizer eu te amo e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia LeonardiObdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina

Corredores, Codinome Locura

Agosto.

Em agosto derramava ouro sobre meu quintal. Era amarelo o dourado que banhava o terreiro ao lado do pé de ipê. Mas, também derramava sonhos rosados do outro lado da cerca. Era como se um artista tivesse deixado ali sua obra de arte estampada para todo mundo ver.

Minha mãe me ensinou a gostar do mês que todo mundo esbravejava. Uns, diziam que era o mês do cachorro louco. – e às vezes era mesmo – vi muitas vezes os cachorros do outro lado da cerca, com a baba amarelada a vagar sem rumo. Eu morria de medo dos meus enlouquecerem. Aliás, eu sempre tive medo até que eu mesma enlouquecesse. Havia sempre alguém a contar uma história sobre uma ou outra pessoa que enlouqueceu em agosto.

No meu quintal, os vultos amarelos balançavam durante a noite e da janela eu assistia ao duelo do ipê rosa e do ipê amarelo para conquistar a lua. Sempre fui volúvel com eles. Ora suspirava por um; ora por outro. Ficava horas embaixo deles a esperar que as flores caíssem e por fim, na minha rotina de dar colo para as flores, eu deitava em um tapete florido e ali, ficava a sonhar.

Apesar da fumaça desenhar de gris as tardes de agosto, as cores dos ipês acentuavam ainda mais a beleza do dia. E nisso, minha mãe tinha razão. Agosto era lindo de viver no meu lugar.
O inverno nem era tão castigante e nossos cachorros por fim, nunca endoideceram. Nem eu. Pelo menos até hoje.

Lembro-me que minha mãe dizia que cada mês tem seus sintomas bons e ruins. – não era a sina dos dias que fazia um mês melhor que o outro. Mas sim, aquilo que despejávamos no desejo secreto que tínhamos dentro de nós.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês dos ipês e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi Obdúlio OrtegaLunna Guedes Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina



Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Para o caso de chover na tua rua…

Bambina mia,

Resolvi te responder, através dessa missiva, sobre limpar as gavetas em agosto. Acho que desde sempre, dentre todos os meus irmãos, eu sou a única que ainda segue alguns dos vários rituais de meu pai. E esse é um deles.

Para meu pai, agosto era o fim e o início de um ciclo. Era quando encerrava a colheita e preparava o solo para outro plantio. Ensacar a safra nova, retirar o que sobrou da colheita do ano anterior. Hora de limpar o paiol, trocar as sementes velhas pelas novas, fazer a queimada da área de roça de toco, mudar as coisas de lugar e isso, incluía a casa toda. Limpar as gavetas, os baús… trocar espelhos quebrados, coisas trincadas, roupas rasgadas… ceder espaço para coisas novas e boas entrarem.

A sua ligação com os santos sempre foi muito viva e se mantém até hoje e o último dia para toda essa “limpeza” era dia 24 de agosto, onde na folhinha marcava – e marca – o dia de São Bartolomeu. Nem sei se ele sabia da história e das lendas envoltas em torno do nome do santo, mas nesse dia, em todos os anos, era nossa data limite para tirar tudo que era velho, que não iríamos usar mais e começava um novo ciclo, porque nesse dia, independente do ano, chovia. Era a chuva da limpeza, da renovação e da temperança.

Até hoje, bambina, lembro-me do cheiro da terra molhada – depois de dias secos de outono – a exalar do chão. Parecia que a terra guardara o perfume para receber a chuva. A lavoura era preparada nesse dia, para no dia seguinte, abraçar novas sementes e outros rituais seguiam a ordem cronológica de quem plantava. Durante muito tempo, eu fiquei a imaginar como meu pai sabia dessas coisas, mas, depois, parei de querer saber e passei a entender e a continuar os rituais dele… e esse mês, repeti os mesmos gestos… limpei as gavetas e a alma ao longo dos dias de agosto. Não custa nada seguir o rito.

Hoje, na previsão do tempo, aqui na cidade, o rito é outro e não temos previsão de chuvas. Ao redor, a Chapada e o Pantanal queimam. Os resquícios dessas queimadas caem no meu quintal… o céu, está opaco, cinza, devido a fumaça das queimadas.

Não sei a previsão do tempo aí, na sua cidade, mas para o caso de chover na sua rua, molhe as mãos na água da chuva por mim.

Bacio,

Mariana Gouveia

Agosto é o mês dos rituais e de B.E.D.A
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Corredores, Codinome Locura

Minha nossa estranha loucura

Por isso, preste atenção nos sinais –
não deixe que as loucuras do dia-a-dia
o deixem cego para a melhor coisa da vida: O AMOR.
Carlos Drummond de Andrade

A primeira vez que a palavra loucura atravessou minha vida foi ainda quando era criança. E a curiosidade assombrava-me os dias. Ela morava do lado da minha casa. Devia ter quase a mesma idade que eu. Os cabelos longos e os olhos medrosos através das cortinas, eu via sempre que dava pela fresta da janela.
Algumas vezes eu ouvia gritos rua afora. Mas até aí, nada demais. Meus irmãos gritavam várias vezes, todos num uníssono som, seja pela bola de gude perdida, seja pela pipa arrebentada, seja pelo gol perdido. Grito nem era sinônimo de loucura – argumentei várias vezes com minha mãe – Eu a achava normal. E a sentia leve quando nossos olhares se cruzavam no relance entre um bailar de cortina, ou do vento que parecia que ela adorava. Para que respeitássemos algumas regras havia sempre a rigidez das minhas irmãs mais velhas e a qualquer tumulto elas mencionavam chamar a menina louca. O que causava silêncio imediato entre meus irmãos. Eu mentalmente desejava que chamasse. Só não tinha coragem de admitir.
Nosso primeiro encontro de fato, aconteceu numa tarde em que por descuido meu, ou de minha mãe, o quintal me coube livre, sozinha. Silêncio ruminando nas ruas. Ela estava na beira da cerca de arame, que separava nossos quintais. Os braços abertos e o corpo rodopiavam ao som do vento. Um riso intenso no olhar. Parou tudo quando me viu. Eu e minha boneca Maricota, feita de tecido preto, cabelos grenhos e boca vermelha. Os olhos pararam no brinquedo que eu trazia sempre. E sem saber como e porque entreguei Maricota através da cerca. Os olhos ávidos e as mãos que ajustavam os cabelos da minha boneca de pano.
– Foi minha mãe que fez. Você tem boneca também? – arrisquei.
O sacudir negativamente com a cabeça me causou emoção e pena. Eu não podia imaginar alguém sem boneca.
– O que é ser louca? – na minha curiosidade de menina perguntei, já imaginando o resgate de Maricota entre as mãos dela.
– Você tem medo de mim? – e nos olhos dela eu vi a esperança de que eu dissesse não. E naquele momento não tinha mesmo.
– Medo não. Curiosidade. – vozes de mãe e irmãos que chamavam meu nome.
Voz de mãe que chamava por ela e Maricota que pendia a cabeça na entrega que ela fazia através da cerca. E eu deixando que ela levasse minha boneca de anos. E o riso dela agradecendo o gesto. E os lábios que murmuravam um “ amanhã eu te entrego”. E o vulto dela entrando casa afora. Um aceno de tchau que jurei ver entre as cortinas.
A primeira vez ensaiou outras vezes. Algumas, permitidas pelas mães que acharam que uma cerca de arame farpado não causava perigo.
Outras, no subterfúgio da noite onde dançávamos com o vento, cada uma no seu quintal. Rindo como se fossemos loucas, mas sabíamos que não éramos. Também ganhei a fama de louca por brincar com a menina que sonhava com o vento. De repente, as portas já não se fechavam mais, porque vivíamos na doce loucura de descobrir a vida. E isso, já não causava mais medo em ninguém.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês da amizade e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina