Corredores, Codinome Locura

O perfume esquecido das rosas

Nas gavetas reviradas, procuro o perfume esquecido das rosas que minha mãe plantava. Era hoje, há anos atrás – as flores e seus insetos feito pingente – a fragrância exalava pela rua de calçadas altas. Ela contava histórias de jardins, quintais e de que a felicidade pode ser colhida diariamente, em pequenos momentos – ninguém é feliz o tempo todo – e lembro-me da borboleta que passou e ela falou de viagem.
Guardei aquele momento, onde a realidade era completa. Nunca mais se repetiria as frases ditas naquela rua de calçadas altas…
No outro dia ela se foi e ficou apenas o perfume esquecido das rosas que ela plantava.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Corredores, Codinome Locura

minha memória não era lembrança de nada…

Somente no impulso de ultrapassar os dias para vencer o espaço da minha vida dentro da primavera, eu achava o céu vazio, mas a memória era minha – eu sabia – e por mais que eu buscasse o fulgor da estação, voltava em mim esses avisos surdos que abalam as raízes do meu ser… a sensação de plenitude ou nada…
Ouvia as promessas de antes quando certas horas me visitam e quando uma música me fazia recordar momentos… Chopin, Noturno nº 20.
Falei aos moços de Proust, no tempo que apenas leituras moravam nas minhas lembranças.

Do halo que se ergue nas flores que nascem no quintal. Do doce feito da fruta colhida fresca, e um sabor que se conheceu na infância.

Dos maracujás reencontrados mais tarde com memória de outrora… Ali, no cerrado que já não existe mais…

Mas, a minha memória não era bem essa. Minha memória não tinha apenas fato vividos… não exigia sua recuperação para que o halo se abrisse…

minha memória não era lembrança de nada…
uma música que se ouve pela primeira vez,
um raio de sol que atravessa a vidraça,
uma vesga da luar de cada noite que podia se abrir lá longe, na dimensão absoluta, de um céu cheio de estrelas.

O eco dessa memória ia para além da vida e soava pelos espaços desertos, desde antes de eu nascer e se espalhava para além das flores que nasceram dentro da estação.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Corredores, Codinome Locura

Dos diários que não escrevi

A vista me lembrava o terraço da casa de minha avó. Os bordados sempre engomados dependurados e os hibiscos derramavam suas flores em seus diversos tons. A estação muda as cores da manhã e lembro – me de que a vida cabia minúscula nos lenços bordados com monogramas e as lembranças daquelas manhãs regadas de doçura e das roupas espalhadas no chão, e sem esforço, ainda sentir o sabor doce do melhor beijo.
A casa tinha rotinas logo pela madrugada. O café era servido na casa grande e os pássaros invadiam os jardins em seus galhos e os beijos eram furtivos – ou roubados – sob as janelas pesadas entreabertas depois do terceiro toque.
O relógio do pai sempre desobedecia a temporada das flores. O cafezal seguia o ritmo primeiro do afago na terra que a mãe em sua sabedoria fazia…

Mariana Gouveia
Ser de flor
Dos diários que não escrevi

Corredores, Codinome Locura

Eu conheci o fogo e já não havia esperas…

As aves, perdidas, morreram no ninho. Os animais, perdidos, sem jeito de fuga, sem rumo.
A sede devastou a vida conjugando o verbo diário do rio, que secou…
E como encontrando uma maneira de acalmar meu coração fiz mudas de esperança e estou guardando as sementes, algumas memórias, um pouco do vento, o som que trago no peito, grifado como tatuagem, gravado como se fosse agora para seguir em frente, depois que tudo isso passar.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Corredores, Codinome Locura

Preciso te contar…

como é dolorido o processo da morte. O fogo acontecendo em todo lugar.
Das flores, que vi no Pantanal já não resta mais nada.
A solidão da primavera de luto diante da semente que não germinou.
E nos jardins, a alma clama chuva.
E a vida que ainda busca esperança para quando tudo isso passar.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Corredores, Codinome Locura

João.

Quando o jardim chegou ao ápice virou colo, a flor.
O cheiro exalando fragrância de terra molhada.
Um menino, que enfeita meus dias nasceu há cinco anos atrás. O verbo do dia cheio de desejo de riso e o pólen, saciando fome do inseto que voa.
Tem dia que a festa é dentro do coração.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Clave de sol

O corpo avança seguindo a canção. Clave de sol, lá menor…
A melodia acompanha o vento e a flor, tão cheia de som capta o riso.
A ave de todo dia, o ressonar dos cães… a canção recém descoberta… O dia foi pura sinfonia.
Dança comigo?

Mariana Gouveia
Ser de flor

Corredores, Codinome Locura

Era para ser um poema

Era para ser um poema
e nas miudezas das coisas, veio a delicadeza. O diário chegou ao fim.
Era para ser vento, mas esse, acanhou-se depois de beijar o pólen.
Os mapas vincados na pétala da flor e o eco das palavras ganhando dimensões além.
As memórias se evaporando em meio ao silêncio do dia.
Hoje, o jardim espera a noite para amenizar o calor do dia.
É como se o deserto fosse aqui.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Corredores, Codinome Locura

O pólen sendo leveza…

Podei as plantas do jardim e molhei as flores enquanto canto a minha ancestralidade de água.
A seiva absorve a singeleza do rio, e a sudoeste o vento aponta para o rumo do sol.
A lua, em sua fase minguante caminha lentamente, enquanto delírios acontece dentro da cor.
O pólen sendo leveza na calma dos gestos.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Corredores, Codinome Locura

Ser de flor

Vasculhei o baú de coisas tuas e achei ali – ausência – minha.
Junto das lembranças, um relicário feito de jardim e a flor silvestre no pingente – você transformou a flor que eu trouxe do campo em joia – e as pinturas ao lado do poema que fala de mar, o anel.
Uma borboleta de prata, que uma amiga enviou e as conchas marinhas feito versos dentro dos séculos. A ausência era minha. Tão vaga em você. Releio as frases das cartas que não enviei e ali, exponho gotas de saudades, que é para molhar a flor do campo, em seu relicário, para que ela não morra de sede.

Mariana Gouveia
Ser de flor