Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Arco-Íris

Luci,

Eu também vi um arco-íris hoje… ainda era manhã chegando e ele engoliu a casa da vizinha num gesto de abraço. Sorri quando vi a cena e quis registrar. Depois, caiu uma garoa miúda e a chuva se foi. Ficou nas trepadeiras as gotas como se fosse um colar de contas.

Eu vi o dia passar leve dentro do segundo dia do ano. Brinquei com o estuque do muro e lembrei-me do seu pai na época em que ele não queria comer. Depois, procurei por nuvens que talvez te servissem de estimação e no fim do dia eu queria te contar uma história bonita…

Vi as aves retornando aos seus umbrais, os cães se estranhando por causa de uma bolinha e a magia do casulo se fechando…

Tinha ainda tanta coisa que eu queria te falar, mas o que ficou em mim nesse domingo é o arco-íris abraçando a casa da vizinha.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

2022…

Eu quero um colo, um berço, um braço quente em torno do meu pescoço,
uma voz que cante baixo e que pareça querer fazer-me chorar.
Eu quero um calor no inverno, um extravio morno da minha consciência.
E depois, sem som, um sonho calmo, 

um espaço enorme como a lua rodando entre as estrelas

Caio Fernando Abreu

Olá, Ano!

Não sabia se te chamava de meu caro, de querido – ainda não somos íntimos o suficiente para ser tão informal. Confesso que, daqui do meu quintal nada mudou ainda. Com exceção do calendário que troquei – o qual ganhei do pet shop, com uma foto engraçada de um cão – que ficou vazio depois de arrancar a última folhinha ontem… apenas com o cão a saltar, estático em papel… foi ali, que ao longo do ano que terminou que anotei o dia da troca do gás, a data da consulta e o dia em que os casulos se fizeram asas…

Curiosamente, hoje, havia borboletas por todo canto… fiquei a respirar a brisa que oscilava todas as folhas do pé de ipê enquanto a água fervia para o café. Molhei as plantas, arranquei algumas folhas velhas… dei afago aos cães e virei colo da rolinha por aqui.

Devo dizer que você já chega chegando por aqui… a ave que vagueia no quintal todos os dias veio parar na minha mão em busca de aconchego. A princípio, pensei que estivesse machucada, mas, dentro dos meus carinhos e toques em busca de alguma asa quebrada ela sobrevoou e se alojou novamente em minha mão… dormiu, enquanto eu respirava amor olhando pra ela e tentando fotografar o momento…

Sabe aquele momento em que a esperança ganha força dentro da gente? Pois é… tive esse momento hoje, enquanto todos dormiam e apenas eu, a xícara de café, o quintal, os cães, a ave e você iniciando sua jornada de 365 dias presenciaram esse momento mágico.

Você ainda é um menino, Ano… e daqui a alguns dias estaremos mais próximos, quem sabe ainda não te escreverei mais cartas ao longo dos dias… por enquanto, te envolvo na minha mão com a mesma confiança que a ave teve em mim.
Vou ali te viver!

Feliz Ano Novo!
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

# extratos

#extratos III

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Às vezes ouvia músicas que trazia momentos. Meio relicário, sei lá… O rádio tocava a canção e ela queria dançar.

Também usava palavras que não eram suas para dizer que a amava. Palavras da própria canção que ouvia e que ela queria dançar.
Era um desejo secreto.

#

E o silêncio tomou conta de tudo. Ao percorrer os aposentos nesse dia buscou ela em cada canto.

O espelho mostrava a estranha em que ela mesma havia se transformado.

Não havia mais música tocando.

Só o vidro vazio do seu perfume continuava a exalar a essência que ela tanto buscava nos lençóis, no travesseiro.

 

#

E havia ainda o sabor da sua pele, a textura, aquela maneira de apenas fechar os olhos e tocá-la…quase sentia o gosto.

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Chovia. Chovia sempre. E as palavras dela sobre a chuva ecoavam por ali…

e a maneira como ela lia Maria Teresa Horta ficou registrado: Ah, essa Maria Teresa!

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Também sentia a sua falta:  a suavidade plena de pensar nela ali.

bebia o café junto com ela. Era assim que o dia começava a ser lindo.

#

Um dia, o rádio tocará a mesma canção e ela estará ali ao alcance dos beijos e das mãos.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

# extratos II

# extratos II

Hoje não me lembro bem do que disse – ou lembro de tudo, sei lá… –

comecei a esperar pelas visitas

a marcar a cidade no número de quem entrou

comecei a desvendar nomes dela…

a criar mitos, lendas.

Precisava dela pra começar o dia.

Reitero…PRECISO

assim de precisar mesmo.

E dos azulejinhos que chegavam e arrancavam sorrisos

aprendi a provocar

a mudar desejos de palavras;

a chover…

“não vou esquecer nunca da sensação de chuva… está a chover aqui…”

aprendi a sentir borboletas a voar na barriga;

a gostar do azul, do laranja, do escarlate, do preto e branco…

a descobrir palavras novas e aprendi a medir a saudade pela imensa solidão que os dias fazem em mim.

E que em mim existem dois mundos…

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

# extratos

# extratos

a primeira vez que a senti foi um desassossego no coração.

Corri lá fora para espreitar a lua…

seria feitiço aquelas imagens sutis em mim?

 

tornou -se vicio esperar por ela…

 

Não sabia se era estado de sentir ou se era pra sempre.

Só fui descobrir depois;

o que sei é que já sabia da esperança dos olhos dela mesmo sem vê-los.

E a cor me encantava. E o silêncio me intrigava.

E eu já a amava desde sempre.

 

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Ar, terra, fogo e água

Para Carolina Cassia.

Ela gosta do mundo das algas
chora quando vê a fome de perto
e no mangue é mulher principal…
é inseto, é bicho, é gente

Busca na origem, a água e os quatro elementos regem dentro dela
É uma só e ao mesmo tempo uma multidão
É pedra na sombra
é sombra no vento
é a força que vem do nome e na voz que grita contra a escravidão.

No ar, estende a mão como se quisesse comer a poesia da vida
ama a arte na rua e em qualquer lugar
é ar, é broto em formação.

Fogosa, domina o mundo
Margem fértil, resistente tal qual o mandacaru
e suave, como sua própria flor

Raiz mestra de quem a cerca
e sem palavras diante da poesia que o manguezal recita

É contra luz, porta, janela
é gravura, captura
solidão…

e na rua é todo mundo junto
é abraço, acolhida
é musgo, cacto, casca e flor
é espinho e perfume

é caule, é elemento
para mim, além de tudo
ela é vida e amor.

Mariana Gouveia
Fotografia: Carolina Cassia

Corredores, Codinome Locura

As borboletas nascem pela manhã

As borboletas nascem pela manhã

Ouço o barulho da asa… É quase como ouvir silêncio.
Não abuso dos suspiros que é para não acordar as flores e nem interromper o nascimento.

Dou pausas…Ela precisa de silêncio pra nascer…
Shiiiu… As folhas secas do pé de maracujá silvestre balançam a canção de boas vindas para que ela rompa a crisálida, ou casulo, nunca me lembro o certo.

Leio o meu horóscopo no jornal, a seguir no caderno geral um artigo que explica como um cinto de ligas e uns sapatos vermelhos poderiam mudar a minha vida afetiva e sexual e eu me pergunto se com um cinto de ligas os iogurtes fora do prazo desapareceriam do congelador?

Ouço o vento de outubro bailando.
Marco as horas…
Falo com ela anunciando o sol dourado que vai ajudá-la a voar.
Ela nascerá na manhã mais linda, de sol intenso e de um azul brilhante.

O programa da TV toca uma floratta onde meninas fazem acrobacias da ginástica rítmica.
É Bach. As fitas das mãos delas bailam e agorinha mesmo as asas dela também ganhará o espaço.
As borboletas nascem pela manhã e eu conto os minutos que antecedem…presencio o nascer da borboleta e emocionada brindo a vida.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Monocórdica

Monocórdica

Prefiro a nota principal
estilo invariável, único.

como se estivesse lendo – braile
como se a nota musical fosse dela
e ainda pede que eu cante
Pra ela…

ai, quem me dera que o encanto dure
que a música fosse relicário – fosse

que a sinfonia fosse mais doce…
que a melodia, a voz.
E a cadência de menina…
em nós…

Tão monocórdica
no seu sentido literal
coleciona músicas no varal…

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Poemas indizíveis

Poemas indizíveis-1

Revirei meu baú de lembranças…
Encontrei as coisas como que procurando lembranças do que não vivi, cheiros que nunca senti.
Confusões de sentimentos que meu coração desfolha.

No baú da minha existência existe tanta coisa que ainda nem desfrutei e as lembranças vivem.
Entre tantas coisas guardadas, você se atreveu a estar presente em cada uma delas mesmo não estando por lá.

E o teu cheiro eu aspirava mesmo não sentindo.

Quase comemorei a fotografia que não vi de ti.
Quase toquei tuas mãos em lembranças que ainda busco nas tuas palavras escrita.
Busquei você, além dos sentidos. Nas histórias de contos de fadas que leio e no final você sempre está.

Mariana Gouveia

*poemas indizíveis*

Corredores, Codinome Locura

Carta aos professores.

Hoje relembrando tudo que sou vejo muito dos meus professores em mim. A minha primeira professora se chamava Edna e tinha os olhos azuis da cor do céu e quando ela sorria parecia que tinha estrelas dentro.
Passei o primário todo a estudar com ela e romper a barreira do Ensino Fundamental para mim foi tão difícil quanto adaptar-me sem ela à frente da lousa.

Depois descobri Adair, a minha mestra de português e de olhar manso. Não havia céu dentro dos olhos dela nem estrelas. Mas ela tinha o colo mais doce do mundo. Foi com ela que talvez tenha aprendido poesias. Digo talvez, por que desde sempre eu já escrevia poemas, palavras, “versos” como meu pai dizia e pedia para eu declamar.
A minha professora já atuava na área há mais de 40 anos e nos anos seguintes posteriores eu a perdi para aposentadoria. Com ela eu aprendi piano, aprendi colher rosas sem me importar com os espinhos. Descobri Neruda, Drummond e a arte de Tarsila do Amaral.
Ela não conheceu greve. Nem precisou lutar por melhores condições. E nem tinha. O meu ensino fundamental foi quase que feito todo na Escola Alcebíades Calhao. Havia outros professores, mas Adair conseguia no recreio uma feira/de troca de livros.
Por causa da morte de minha mãe tive de parar de estudar e fui trabalhar, e minha professora já aposentada me dava lições de cidadania e de companheirismo. Aos sábados me dava meia hora aula e depois íamos visitar os ex alunos dela que estavam com problemas. Um, que quebrara o pé. O outro, que estava com febre. Virou rotina nossas visitas e quando ninguém tinha problemas maiores, nos reuníamos na Praça Santos Dumont para ler livros.
Anos mais tarde, voltei a estudar. E mais uma vez fui abençoada por anjos em minha vida com títulos de professores. Amigos protetores eu ganhei. Maria José que me me mostrava o encanto da Biologia, a arte pelas mãos de Iolanda, a filosofia desenhada em poesia pela beleza de Luzia, a educação física que sublinhava a alma pela doce Flavia Luzia. Monique, e com os relevos e o envolver da Geografia. os números que eu detestava e que foram me mostrados de maneira mais amena por Joanil e Luzia. Jesus toma conta na vontade plena de ensinar de Nilza. Zózima não me deu aulas, mas ensinou-me o olhar macio das borboletas e o aconchego de presença quando precisei.
E foram tantos mais e tantas que eu passaria a vida inteira dizendo nomes e a envolvência em minha vida que meus professores tiveram.
Fui educada da maneira mais simples que há. Por vezes, nessas escolas que estudei não tinha cadeiras suficientes, ou mesmo o giz para o professor escrever. Em cada um deles havia o desejo de ensinar e em cada um deles eu sentia surgir a revolta pela falta de condições.
A educação é o bem maior que um governo pode dar ao seu povo.
Infelizmente, vivemos tempos sombrios, mas, em cada escola há guerreiros dispostos a tudo pela vontade de ensinar.

Parabéns à todos os professores.