Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Os sutis movimentos do cuore que nos salvam.

Bambina mia,

Li algumas de suas missivas para meu pai nos dias em que o visitei… e ali, tão perto do fogão a lenha e das coisas banais da casa expliquei a ele sobre Rubem. Ele disse que por sua narrativa eu seria um Rubem de saia e a gente riu.

Confesso que a comparação me lisonjeia e nego ela, claro… Rubem está além dos meus textos e lembro-me de que já falamos sobre isso. Mas vim aqui para a gente falar sobre o outro tempo – o seu – ou seria o meu, nesse diálogo onde nossas histórias se misturam?

É como se eu te oferecesse meu quintal, minhas histórias e recebesse de volta suas janelas, o cheiro de pão de sua cozinha e assim, nos conectamos. Hoje é o dia da mulher e estou indo de volta para o meu quintal, e ansiosa pelas lambidas dos cães e os cantos dos pássaros. Já reparou que até isso nos liga de alguma maneira?

Você chegou até mim pela poesia. Lembro-me do cuidado que teve com ela em O Lado de Dentro – meu primeiro livro – e ela também nos aproxima entre fitas de cetim e páginas… e olha só, isso é coisa sua e não minha…

Aas árvores aqui já pressentem o outono chegando e já começam a deixar sus folhas morarem no chão. Fecho os olhos enquanto vou ouvindo a melodia delas quando piso…nesse momento apenas te abraço e essa é a melhor poesia que posso te dedicar.

Grazie por tanto!

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Dentro de uma sexta-feira a promessa se cumpre.

bambina mia,

Foi breve como você disse ao me escrever… nem deu tempo de secar as hortênsias que deixei florindo e já voltei. Voltei e li sua carta como se fosse um abraço.

Você falava sobre os envelopes que envelhecem e recorri ao meu baú para encontrar uma carta antiga sua… era abril de 2017 e ainda não amarelou, mas senti a poesia ganhar vida em suas letras.

Dentro de seu cenário descrito na carta digital e a carta de papel na mão descobri que as estações permeiam nossas histórias. Me deixei levar por suas mãos e olha só… trovejou! Isso já está se tornando rotina por aqui e mais uma vez grito seu nome – uma vizinha perguntou quem seria Lunna, se só tenho Lolla e Yoshi – brinquei que você era meu amor de estimação…

Coloquei Paul para tocar Something enquanto um arco-íris cruza o céu… a tarde ainda está úmida depois do temporal e a casa da vizinha, sem reboco é abraçada por ele. Suspiro como se estivesse aí… suspiro por não estar. Confesso que a sensação é a mesma de quando vejo suas fotos de pães e eu não estou aí para comer.

Sinto a mesma emoção que te toca aí… Espero que tenha sido breve a espera pela resposta e cumpro a promessa nessa sexta-feira chuvosa e cheia de sol nessas nuances que só a previsão do tempo pode explicar… seria esse o mistério das estações por aqui?

Bacio em tuo cuore,

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Suposição

Quando mergulhei e não sabia
Eu já era louca de mar
Marítima – e mesmo sendo fonte de rio –
salguei com meus lábios o corpo que desenhava na mente

Tracei o rosto dela em delicados toques enquanto
olhava o retrato

Quando mergulhei e não sabia nadar
eu já era parte do oceano dela e já não podia fazer mais nada a não ser
amá-la

Mariana Gouveia
Ph: Erikmadigan Heck

Corredores, Codinome Locura

A solidão de ontem

Rasgando a pele
Tudo no minúsculo tempo
O relógio cabia na indecisão do relicário
Lembrou – se do que era
antes de ser.
A vida tem a preciosidade nas coisas.

Mariana Gouveia
*Imagem: Pinterest 

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta ao instante de amor(a)

Luci,

Retomando um ritual desde que a conheci te escrevo hoje. Logo cedo, mentalmente, fui criando as palavras que eu queria te contar. É tanta coisa que as palavras foram criando carreirinhas em minha mente e sentei-me aqui para te escrever.

Sabe, Luci, eu fui ver meu pai… Fiquei por lá alguns dias abastecendo minha alma de poesia. Já fazia alguns anos que eu não ia por causa da pandemia. Lembrei-me de você enquanto via ele recusando o prato da comida que ele mais gosta quando descobriu que eu iria embora no dia seguinte e eu tive de contar para ele todas as complicações que seu pai teve quando se recusou a comer. Contei até do estuque verde da parede antiga e criei algumas coisas a mais para animá-lo.

Também contei a ele sobre minha resposta a você e sobre o pajé que me disse na época que não comer era um desacato a quem passa fome de fato… Falei de nossas ligações com borboletas e bichos, de como somos abraçadas por humanos especiais e da chuva de flor que cai em sua rua… Ele riu disso. Me disse que a folha do mamoeiro é o guarda-chuva para esses dias de brincar.

Fiquei mais de uma hora falando de você, Luci, dos cães e de seu pé de laranja lima que para mim nada mais é do que uma personagem de livro. Sua Anna é uma poesia que quero inventar e não consigo porque olhando o olho dela ultrapassa o senso comum das poesias e ele disse que você é uma pessoa de sorte…
Depois de tudo isso ele comeu e fui colher amoras… respirei quando achei uma com o formato de coração. Foi ali, tocando os galhos da amoreira que senti saudades de casa, Luci… Foi ali que descobri que aquele lugar é apenas meu abastecedor de energia e que cultivar esses momentos até um novo reencontro é verbalizar ternura.

E é assim que desejo a você nesse novo ciclo… que o verbo ternurar seja sempre renovado dentro dos seus dias e abastecedor de energia sempre.

Abraço carinhoso,
Feliz Aniversário!
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Décimo quinto na verdade das coisas.

O dia passou na intensidade das horas.
Não houve tempo para administrar sorrisos.
Conto os dias e repito.
Décimo quinto na verdade das coisas.
Revivo o que foi dito.
Surreal as palavras que dançam
e mesmo que eu apague elas estão ali.
Confiro mil vezes a sua presença.
Não há.
Repito na constante loucura: não é para ser, não é para ser.
A umidade me faz lembrar histórias
e a flor não conhece a rotina do dia em que só fiz pensar em você.

Mariana Gouveia 
Ph: Lukrecja Czerwonajcio

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta ao amor dentro dos dias

 

Como a gente dimensiona os dias? Qual a intensidade que a vida nos atinge? Se eu fizer essa pergunta, você teria a resposta ou a gente buscaria ela nas memórias de antes?

Eu ainda trago em mim coisas do tempo em que eu era apenas a irmã do meio que ficava admirada com a irmã mais velha normalista… aquela que me inspirava a escrever poesias, me animava a criar as coisas de encantar e aquela que eu espiava de longe e admirava a força e a coragem, mesmo sabendo-a medrosa…

Os anos vão nos moldando e nos confronta todos os dias e a rotina cumpre seu papel diário… cada um segue seu caminho e o destino nos levou uma para longe da outra e não me lembro buscando na memória qual aniversário seu a gente passou juntas…

Eu sempre vivia o 18 de fevereiro em pensamentos para você e enviando mensagens de todos os desejos de bem viver para que você nunca se sentisse só, mesmo estando com mil e quinhentos problemas na cabeça… era seu dia e eu amanhecia plena de você… a minha mia que cruzava a estradinha e ia estudar for para ser alguém na vida… a minha irmã mais velha que era o exemplo de mulher e coragem e ainda é… mesmo que você não acredite nisso.

Hoje, estou aqui… escrevo enquanto a cozinha não te cabe e vive cheia de presença sua… enquanto sua arte predomina na casa toda e extravasa na soberania de sua presença… hoje, meu abraço é de perto e meu amor tão grande que ultrapassa o sentido de admiração.

Te amo muito!
Feliz Aniversário!

Mariana Gouveia


Corredores, Codinome Locura

O idioma da tua língua

uso o dialeto das digitais

aquele em que a mão vagueia para tirar tua roupa

e descobrir teus nortes

teus rumos

teus desvios

tua rota

onde trafego insana

e busco o idioma da tua língua

Mariana Gouveia
Ph: Pinterest

Corredores, Codinome Locura

Consumista

Comprava vestidos de outras cores e incrivelmente não os usava.
Adorava os vermelhos.
Tinha um quê com a cor.
Precisava descobrir porque.

Mariana Gouveia
ph: Pinterest

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

É, Maria…

“Maria é sua tia…” você respondia…

Minha Maria Eudes

,
Ainda consigo rir de algumas frases suas… é como se eu tivesse ouvido a pouco e embora esse ano sem você tenha sido vazio eu te percebi nas coisas que fiz. Devo confessar que em certos dias busco seu número no meu celular à espera de que me diga: coragem, faça, pinte de vermelho, corta, raspe a cabeça, use saia curta… essas coisas que você dizia e me encorajava e só daí me lembro que já não está mais aqui.
A minha casa está cheia de lembranças suas… desde tecidos de artesanatos que ficaram parados dos projetos que fazíamos juntas até as revistas dos bordados.

O último vidro de perfume que ganhei de você ainda tem as últimas gotas que não usei, o brinco de pérola, a blusa de bolinhas, livros que a gente dividiu juntas as páginas…

Devo dizer que nunca mais atravessei a ponte para sua cidade, porque eu só ia aí para te ver e meus sábados ficaram insignificantes sem você… é o dia da semana vazio, onde meu compromisso por tantos anos era ir almoçar/viver o dia com você…

E assim, os dias se transformaram em semanas, meses e já é um ano… como a gente conta isso? Como se traduz tanta vivência em uma partida insana?

Mas, talvez, eu tenha sido abençoada mais uma vez… lembra-se que eu dizia sobre Marcelo e o poder da voz em uma mensagem que me resgatou de uma depressão terrível? Agora, tenho a amizade dos seus meninos todos. Às vezes, nos consolamos nas mensagens, nos abraçamos no seu amor ou simplesmente estão ali, ao meu alcance quando sua saudade me abraça.

Sei que sua danadeza deve estar fazendo arte aí e claro que você daria um jeito de enfeitar as nuvens com laços igual fazia aqui com as caixinhas vazias de margarina.

A gente ainda vai se abraçar de novo…

Com saudades,
Mariana Gouveia