Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Nenhuma das chaves que possuía

podia decifrar os segredos
dos [invisíveis] cadeados que a
aprisionavam crenças equivocadas
limitadoras de sua energia vital…
Flávia Côrtes – As estações

Flávia,

Devo te dizer que a noite é um bicho precisando de colo. Chove para além das flores miúdas. O quintal foge do rumo das conveniências. E nenhuma estrela oferece estrutura para o brilho dos olhos. Para além da rua de cima tive notícias da aldeia.

O pajé me mandou notícias e falou comigo sobre chaves para abrir portas. Às vezes, ele fala comigo por códigos e preciso de orientação para decifrar. Quando ele falou sobre chaves, o livro As estações, me trouxe você. Seria esse o código que eu precisava para te escrever?

Eu trabalhei com os indígenas e criei laços com as misticidades deles. Um pajé me adotou para as significâncias das coisas e esse elo vez ou outra me ajuda a sair do comum. A gente precisa do desconhecido para a alma alçar voos, menina – ele falou em uma noite de lua cheia, quando eu visitei a aldeia. Nesse dia, Flávia, eu apenas me encantei com a lua enorme sobre as árvores da floresta, enquanto ele falava sobre os espíritos da terra. O cheiro das folhas, o brilho da lua, criou em mim a sensação de estar diante de um sábio, tipo aqueles seres mágicos que a gente lê em livros de fábulas.

Ele me ensinou que somos nós que abrimos e fechamos nossas portas internas. Que somos o bem e o mal e que nós mesmos somos o portal e a chave. Na linguagem dele simples, de conhecedor da natureza eu entendi que a magia existia naquele instante.

O equilíbrio terno é esse perfume a relembrar instantes. O cheiro da comida da vizinha e da grama verde recém cortada… Os cheiros me trazem lembranças de quando qualquer saudade eu apagava com um poema. Hoje, o poema é esse cheiro de flor que nem molhou.

O invisível que ronda traz sempre os mistérios que não entendemos – aprendi com o pajé isso – e deixamos – às vezes – que ele roube nossa energia vital. Isso, porque em alguns momentos, esquecemos de que somos possuidoras da chave mestra que abre caminhos lindos. E se por acaso, um dia, precisar dessa chave vou deixar uma cópia aqui, nessa carta para que você encontre.

Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso Suzana Martins
Ph:  Tott photo

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

a carta foi escrita com os espinhos que ninguém plantou

Diva,

eu já te contei sobre o moço da reciclagem e de como ele sofre por amor? um dia desses, quando eu colocava o lixo reciclável lá fora, ele virou a esquina. Ele cantarolava uma canção que fala de despedida e sobre não ter aprendido a dizer adeus. Ele me fez um pedido estranho, Diva. Pediu que eu escrevesse uma carta de amor para o amor dele.

Te conto isso, porque ele mora na rua de cima, quatro casas depois da sua. O olho dele tinha poesia dentro quando ele me perguntou se eu escrevia cartas para as pessoas e me disse que foi você quem falou, Diva. Como posso escrever cartas falando sobre sofrer de amor? Já não basta o meu?

Mas, confesso que fiquei com pena e nos sentamos debaixo do pé de ipê enquanto o olho dele se alongava no jardim, para além das flores. Diva, escrever sobre o amor dos outros é dolorido. Você sente na alma.

Enquanto ele me dizia o que queria passar na carta, ele se perdeu nas memórias, Diva. Ele estava na minha frente, com o copo de água na mão, mas sua alma parecia em outro canto. Quando ele me contava sobre o amor dele e de como ela havia ido embora e ele só precisava saber se um dia ela voltaria, eu fiquei buscando palavras além de mim.

As flores do meu quintal foram testemunhas de que busquei em outras dores que senti para que as palavras minhas se transformassem nas dele, Diva. A carta foi escrita com os espinhos que ninguém plantou… foi o que ele disse para mim, no final, já com o envelope nas mãos, como se fosse um tesouro.

Ninguém planta espinhos, menina! – ele repetiu mais de uma vez a frase. A gente só planta flores. O espinho, vem junto. As flores do Orai pro nóbis estavam em plena floração e ele usou a metáfora dos espinhos da planta, Diva. O olho dele perdido, no amor que se foi…

Tentei dizer que quando a gente ama, sofrer também faz parte. Mas, ele com o envelope no peito se emocionava com o que escrevi. Depois disso, ele virou a esquina e seguiu rua afora, Diva… enquanto fiquei aqui pensando se ele conseguirá reciclar esse amor que mexe tanto com ele ou sentirá apenas os espinhos que o amor contém.


Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso Suzana Martins
Ph: Elena Vizerskaya

Das palavras das cartas · infinitamente · Scenarium Livros Artesanais

O mundo parou ali

onde dói a alma
e onde o silêncio é apenas aquele eco que invade
os meus ouvidos surdos

Suzana Martins
In Versos

Ana,

quando a gente define que o mundo para e que a gente não escuta mais as coisas bonitas? Quando eu esqueci a esquina que vira para sua rua? Dia desses eu esqueci e fui seguindo rua acima e quando percebi eu já era saudade na sua porta.

Eu descobri que o mundo parou ali… o pé de cerejeira que o moço que comprou a casa deixou por memória de nós duas deu um botão minúsculo em uma madrugada – e ele quase me ligou nesse dia – e a maria-sem-vergonha está coberta de flores. Eu nem sei como fui parar ali, Ana. Era apenas para fazer uma entrega de uma encomenda para além da rua de cima e quando percebi, já estava na porta quase soletrando seu nome, como eu fazia ao te chamar.

Por sua causa me tornei marítima, Ana e invado oceanos atrás de lembranças suas. Por sua causa, me tornei entendedora de astronomia. Capturo Marte em qualquer canto do céu. Leio em notícias que pode ter vida em Marte e eu já te vejo. Leio que Marte pode estar destruindo uma de suas luas e eu já imagino o que a coitada fez para te irritar. E o que você fez com as marés? Alguém disse que as marés estão incontroláveis em algum ponto do sul. E com o céu, Ana? O que você fez com o céu?

Eu vi o céu de madrugada e contei todas as estrelas que se encaminharam – quase como o Caminho de Santiago – para Marte… tão visível no céu e no meu coração. Só que, como eu disse, o mundo parou no poema da Suzana Martins e eu fico seguindo o rumo das marés…. envio sinais de que você ainda vive em mim e clamo saudades em seu idioma favorito.

Mas, quem disse que escuto, Ana? Devo reciclar as conchas? Devo redecorar as memórias e devo dizer que a vida além de Marte é só lúdica dentro de mim? Não me entenda mal… não é tão sofrido esse sentimento… ou até é. Mas, como eu te disse várias vezes, que algumas etapas eu nunca vivi e as que vivi, preservo como se fossem fósseis para serem guardados, para que todo mundo saiba que existiu,

E te confesso que para alguns sons que me levam até você, fiquei surda. Ignoro-os. Mas, na madrugada silente, quando ouço o vento ecoar nas folhas de árvores que você não viu brotar, é seu nome que escuto, quase em braile.

Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins
Ph: tumblr

Das palavras das cartas · infinitamente · Scenarium Livros Artesanais

10 anos de muito amor.

Yoshi,

Ainda me lembro a primeira vez que te vi e de como te escolhi entre tantos irmãos. A foto acima é a primeira que tirei para mostrar que você era o escolhido.

Depois disso, o 20 de novembro ficou marcado e nossa casa e quintal ganhou a presença do amor de quatro patas.

Ainda bem que a gente não precisa dizer que te ama, porque sei que você sente esse amor em todos os momentos e a cada ano que passa esse amor aumenta.

Você torna nossa vida melhor e a vida de Lolla também, que deixou de ser só e passou a cuidar dos seus passos pelo quintal.

10 anos é uma vida inteira para um cão… mas para nós, você é o nosso meniniquinho. Temperamental e doce. Briguento e carinhoso.

E à medida que vai crescendo enche ainda mais nossos corações de carinho. É impossível não emocionar quando me chama com a pata para te levar além dos muros.

As milhares de fotos na galeria não retratam instantes únicos onde a lambida foi o afago e a confiança, o aconchego.

Viva você nesse nosso amor e viva os dez anos de puro carinho!

Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Um caderno que colecionava

relatos de personagens antigos
Suzana Martins – As estações

Su,

a sua poesia me fez reverberar aqui e juntei minha memória com a tua. Fiz uma pausa dentro do aconchego de suas palavras e me permiti ‘folgar’ em uma tarde quente e abafada. Peguei as caixas, os baús com as cartas e os cadernos antigos, sentei-me no chão na varanda e espalhei fotografias e lembranças. Aspirei saudades e nostalgia.

Sabe, Su, eu ainda tenho os cadernos onde eu escrevia minhas coisas. É quase uma espécie de diário – vários – onde eu escrevia histórias, poemas que eu gostava de algum autor favorito e coisas sobre os personagens que me rodeavam. Eram tantos! Cada um com sua peculiaridade e encanto.

Algumas fotografias amareladas pelo tempo, os irmãos mais novos retratados nelas e o cheiro de um tempo que fica grudado na gente como se fosse o perfume das memórias. Tudo parece se encaixar dentro de seu poema e o afeto aquece meu coração.

O céu a desenhar outono
memórias de final de tarde
espectro detalhes
âmbar
a saltar
as letras furtadas
de um caderno
que colecionava retratos
de personagens antigos

Eu apenas suspiro, Su e te reverencio na docilidade de me integrar com suas palavras como se com isso, eu pudesse sorver o tempo passado. Sabe o mais engraçado, Su? É que de repente um vento sopra, o poema ganha vida e um dos personagens antigos te liga do nada e fala sobre a saudade. As frases vão ganhando contornos de reencontro. O cheiro de pipoca vindo de algum vizinho…. Lembra-se das pipocas? – e as lembranças se misturam, unas. Tem até a canção antiga cantada no refrão.

Nesse momento, Su, eu apenas lacrimejo os olhos e agradeço o universo tão único no jeito de me ligar as pessoas. Seja de um tempo antigo, ou seja, de agora. Assim como você. Peu Pte Pa Pmo ❤

Grata por isso!
Te abraço!

Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Enrolo em laços e fitas

a linha do tempo presente
Nirlei Maria Oliveira

(palavr(Ar)

Nirlei querida,

Parece que você desenhou minhas manhãs em seu poema. Eu devia dizer olá, como vai? e começar a escrever, mas me vi banhada pela sua poesia. Ganhei intimidade e o poema pediu a carta e o livro pediu ar…. Como se aspira Palavr(ar) sem perder o ar?

Eu também escrevi várias cartas de amor que não enviei. Algumas, embolei e desamassei por desacato ao amor. outras, desenhei passarinhos em envelopes e coloquei tudo certinho, com código de endereçamento postal, endereço, versos, e com as letras – não tão bonitas também – enviei. Posso confessr que em algumas nunca tive respostas?

E sobre laços e fitas, ainda tenho um pedaço – já esgarçado – da fita de veludo laranja que minha mãe amarrava em meus cabelos. Ou enrolava nas tranças.

As minhas manhãs também são regadas às asas. Tenho adornos de bem-te-vis no meu quintal. A disputa pelo melhor lugar do comedouro, a asa a plainar na árvore seca da casa da vizinha, o canto a marcar canções em dias de sol.

A única diferença é que o sol aqui, não tem vergonha. Ele por si só reina poderoso tão logo que nasce e silêncio também aqui não tem vez. Camacicas disputam espaços com meu Chiquinho – o beija-flor que chama de meu – e os bem-te-vis – que disputam com os cães o prato de comida. Há chilreios nos nomes mais variados de pássaros e há um bem-que-vi-eu-que-te-vi numa disputa comigo para chamar atenção.

E há o crochê e nem é para a rotina imposta não. É para cumpri prazos das encomendas antes que o Natal venha. Me enrolo em linhas e agulhas também. Mas também me envolvo nas suas palavras e respiro nessa manhã tão comum a nós duas e tão distantes.

Que seu dia seja salvo nos cantos, na arte e no amor. Todas as manhãs e em cada pedaço do seu dia.

abraço carinhoso
Mariana Gouveia
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Das palavras das cartas · infinitamente · Scenarium Livros Artesanais

*Coração transplantado

procurando resquícios do que já foi humano
Lua Souza (Estratosférica) 

Eva, minha pequenininha,

Hoje recebi notícias suas e o som do seu novo coração por mensagens e foi o efeito sonoro mais lindo que ouvi. Falei para sua mãe que iria te escrever e aqui estou eu, mais uma vez te enviando vidas, como da última vez que nos vimos e você me pedia vida para seu jogo de celular.

Seria tão bom se a gente pudesse fazer isso na vida real, né? Com certeza, você já estaria aqui, no seu cantinho, com o truuumm truuumm do celular ou ligando, pedindo para eu ir te ver.

Lembro-me de você perguntar sobre o valor de um coração. E sobre a fantasia de ter um lugar onde a gente pudesse trocar as peças com defeitos em nós. Em seus quase 09 anos, a vida ficou te devendo instantes bonitos. Muitos natais e aniversários vividos em um quarto de hospital. Os daqui e os daí.

Mas, hoje, eu ouvi o seu novo coração num tum tum feliz. Você recebeu a doação mais linda que alguém pode ter. Um coração novinho, pronto para amar a vida e as pessoas que te amam. A cardiopatia congênita te fez atravessar corredores inteiros e você precisou de um coração novo e hoje, ele bate dentro de você.

Eva, nessa carta quero pedir para que as pessoas aprendam sobre a verdadeira doação. Isso te salvou e salva muitas vidas. Eu sei que é muito difícil, em um momento doloroso fazer a doação…. Mas, sei também que esse ato demonstra o que mais de humano existe no mundo. Permitir que alguém que a gente ama, viva através de outra pessoa.

Logo você estará de volta à sua casa, ao seu quarto, suas coisas e viverá lindamente, tenho certeza! Já estou te braços abertos te esperando.

Mariana Gouveia
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Ph: Jay Alders

* Hoje, no Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde 37.512 pessoas esperam por uma doação de órgãos.
Em 2022, até o momento, foram realizados 6.059 transplantes.
Converse com sua família. Doar órgãos é um ato de amor.

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Me despi de tudo

desisti do arrependimento faria tudo de novo.

*Adriana Aneli (o sol da tarde)

Leonor,

essa é a última carta que te escrevo… sabe quantas vezes eu já te escrevi uma última carta e não cumpri a promessa? E as que rasguei sem enviar? E as que ficaram apenas como nota mental? E as que viraram rascunhos e as que embolei e joguei fora? Foram tantas, Leonor!

Embora, eu pretenda que esta seja a última, tenho certeza de que em alguma noite acordarei e te escreverei de novo. Pode ser que nem coloque em envelopes, mas ainda assim, suspiro aqui e reafirmo que é a última. É a última das últimas, é a última da 13ª que havia sido a última.

Acontece que hoje acordei pensando em você. Um poema que li ontem me fez lembrar da gente e daí, mais uma vez, recaí. Tem sido assim, nos últimos anos. Ainda ontem, eu tinha os dias marcados na agenda. Eram mais de 10.500 dias…. folhinhas arrancadas uma a uma e guardadas no meu baú de memória. Mas, dessas, eu consegui me livrar. Coloquei tudo em um saco preto e justo quando o carro do lixo passava joguei dentro, para não correr o risco de pegar de novo. Quando me arrependi, o caminhão já virava a rua de cima. Fiquei eu, parada no meio da rua, com gosto de sangue na boca, como quem perdeu uma vida. Depois, entrei e fui ler o poema de Adriane Aneli:

Para não acabar o jogo mudei as regras
abandonei as ruas para velar seu sono
cruzei a estrada
acompanhei o cortejo
por amor desci mergulhei tão fundo
despejei o passado
desalojei lembranças
feri gritei desaprendi a andar
me despi de tudo
desisti do arrependimento
faria tudo de novo

De repente, Leonor, vieram todas as lembranças juntas… uma empilhada na outra, como filme, desses que revelamos entre risos e carinho. Lembrei-me de você debaixo da chuva morna, contando que meu lugar era igual ao que você nasceu e eu apenas sorri. Vibrei por isso nos ligar de alguma maneira. Lembrei-me da camiseta branca grudada no corpo revelando o seu corpo enquanto as gotas da chuva te bebiam.

Confesso que busquei notícias suas. Algumas perguntas me assolam sem que eu saiba as respostas – morreu? casou-se? apaixonou-se por alguém? – qualquer coisa é melhor que esse silêncio, essa falta de notícias, esse vazio da caixa de correios, sem respostas… apenas um vazio das coisas.

Eu ainda continuo olhando as manchetes do Diário de Notícias de sua cidade… quem sabe, não aparece alguma coisa sobre você. Hoje, exaltam o feminino no poder e a dúvida entre sardinha, atum ou feijão e a duração de conservas. Falam de cinema, arte e Saramago, mas nada de você.

Se pelo menos um pequeno bilhete chegasse, com uma ou duas frases de adeus… acho que bastaria. Ou se de repente, do nada, uma mensagem viesse como se você nunca tivesse se afastado. Eu juro, Leonor, que recomeçaria tudo de novo, sem arrependimentos, sem dramas. Eu faria tudo de novo, para de novo viver você

Mariana Gouveia
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Ph: Jerry Uelsmann

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Pode chover a qualquer hora

e o sol surgir forte em minha manhã laranja

Luci,

vi que você foi no último show de Milton. Quase segurei sua mão num aceno onde seus olhos brilhavam. Nesse dia choveu aqui, Luci e enquanto a tv transmitia o evento eu via as gotas dançando na janela, como se estivessem acompanhando a música, como se já soubessem da despedida. Esses dias de novembro têm sido estranhos. Já tive todas as estações nesses 15 dias, Luci. Teve frio, calor, vento, temporal, chuva e sol…. muito sol.

A moça do tempo aqui, de vez em quando, erra a previsão… por isso, acho que virou rotina a velha frase: pode chover a qualquer hora… e até inventei um poema no meu livro O lado de dentro, dizendo que eu entendia de meteorologia. Isso de chover a qualquer hora me causa confusão, Luci, pois preciso ficar atenta ao guarda-chuvas. Confesso que sou apaixonada por guarda-chuvas, mas também sou atrapalhada com eles.

Já esqueci tantos em vários lugares que o Seiko – um dia te falo sobre ele – me disse que eu poderia montar uma loja bem grande com os que perdi e quando dizem que pode chover a qualquer hora penso no bendito guarda-chuvas. Embora, mesmo quando não chove tenho de usá-lo por causa do sol, por isso, implico com a moça do tempo por aqui.

Acho que prefiro o método que meu pai me ensinou sobre o tempo. Já te contei, Luci, que meu pai sabe quando vai chover um dia antes de acontecer sem sequer conhecer a ciência da meteorologia? Um dia, vendo as formigas indo em carreirinha para o formigueiro, ele disse: amanhã chove! E pronto, não deu outra, Luci. Na manhã seguinte amanheceu chovendo.

Meu pai tem a ciência das águas, Luci. Desde menina, eu o via com uns gravetos a procura de lugar para furar o poço. Vinha gente de tudo quanto é lugar para ele descobrir por onde a água fluía e lá ia ele, campo adentro com os gravetos na mão e em determinado ponto parava e dizia: aqui! E bastavam cavar ali que a água jorrava. Eu achava isso um poder tão grande, que chegava a pensar que meu pai tinha o poder da água benta da igreja. Vê se pode isso, Luci?!

Mas, eu entendo a moça do tempo, Luci… nem sempre a previsão acontece como ela anuncia. Há fatores fora do controle de quem olha o céu através de instrumentos. Eu mesma, daqui de onde estou posso dizer que hoje pode chover a qualquer hora, Luci e o sol surgir forte na minha manhã laranja. Isso, até eu posso prever. Agora, outro Milton, Luci, não acontecerá mais. Restará apenas as canções feitas de pura poesia para a gente desfrutar.

Beijo meu,
Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
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Ph: Pinterest

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Em delírio me transporto ao limbo

Maria querida,

Hoje escureceu mais cedo por aqui… também choveu o dia inteiro e a rua ficou deserta. No meu quintal, as sombras se projetaram como se os galhos ganhassem vida, as roupas ainda úmidas no varal e o pássaro – que parecia perdido em seu canto – no canto do muro.

Lembra de como a gente falava dessas noites estranhas em que o medo é muito maior que a coragem? Acho que hoje ela aconteceu por aqui. Li o poema da minha tão minha Katia Castañeda e vi ali nossa conversa, Maria:

E se durante a noite ela vem
e me toma
Me cega e eu
Em delírio me transporto
ao limbo
Dos inquietantes sintomas
Com final e sem luz
Nesse túnel
Psico ansiolítico
da noite longa

Teria de ter sido eu a te dizer que a rua de cima ficou vazia o dia inteiro e que essa escuridão é tão sua como minha. Eu vi em seus olhos, Maria, essas coisas de mar aberto que você traz no peito em noites assim. Essas coisas internas suas que você carrega e solta por onde anda, como se despejasse vontades para além de onde veio. Como se uma noite escura durasse uma eternidade.

Sabe, Maria… já te falei das minhas noites frias e brancas em cartas? Já te contei sobre os monstros que em algumas noites se transportam para o meu quintal quando não tem lua? Foi por isso, que comprei lanterninhas e espalhei pelo jardim, para que o escuro não predominasse por aqui em noites assim e que junto com as lanterninhas, os vagalumes também brilhassem.

Lembro-me de que você riu e achou graça da palavra vagalumes e pronunciou bem baixinho a palavra pirilampos e ficamos horas a rir disso. Nessa noite – recordo-me – que não houve delírios nem medo. Apenas o sussurro de uma palavra ganhando cor em nós.

Por isso, antes que escureça mais ainda resolvi te escrever e te lembrar do som das asas dos pirilampos a voarem por entre as lanterninhas que coloquei por aqui, só para que você saiba que a luz acaba com as sombras. Mesmo as que insistem em habitar dentro de nós.

Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia
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