A caixa dos poemas e das cartas parece sufocada de lembranças. O retrato 3×4 que você enviou, um lenço perfumado anunciando o cítrico que tanto gostava, e o envelope azul que nunca abri… Eram nas manhãs que aconteciam os nossos encontros e eu te levava comigo feito tatuagem para onde quer que eu fosse. Eu ainda vivo da nostalgia de momentos que ficaram registrados em fotografias pequenas, onde o teu sorriso ainda se espalha e provoca arrepios em minha pele gasta. Tenho ciúmes das viagens que não fizemos juntas e das vezes em que você chamou outro alguém pelo nome sem lembrar-se do meu. Folheei o nosso álbum de fotografias e só para não te esquecer de vez, deixei apenas a foto 3×4 que estampa os teus documentos.
Mariana gouveia Projeto Coletivo Mosaicum Scenarium Livros Artesanais
Como eu escreveria sobre a outra – aquela que me habita na solidão dos dias. A fumaça envolta naquela menina que ri e conta histórias que ninguém conhecia. Como pode o ritmo ser medido pelo movimento que roda a saia e o vento pelas folhas que ele derruba? Quantas tem o pertencimento sobre o que você sente? A que dança? A que que chora? A que segue as regras e lê os manuais? Aquela que se esconde dentro do espelho? A que nunca se maquiou ou a que anda nua nas madrugadas insones pela casa em uma noite de calor infernal… Quantas mulheres te habitam, hein? Que voz sai de sua boca quando grita nos rituais da lua? Quantos humanos estão dentro de você? Cada vez que fala traz em você os seus irmãos – e os pais e avós – nas suas lembranças? Ah, você, tão dona de si e tão frágil… tão forte e complexa… tão fraca, às vezes. Talvez, se olhando na água que balança na bacia no quintal apenas responda: tanta gente, Mariana!
comecei dezenas de histórias e não terminei nenhuma, não sei para onde vão as minhas personagens porque começam a falar e logo se calam. no papel sucede-me o mesmo que fora dele: a minha vida é um punhado de começos suspensos Miriam Reyes
Ph: Pinterest
Ana,
tive que formatar meu notbook e com isso, perdi alguns arquivos que não consegui salvar, mesmo o técnico tentando inúmeras vezes. Com isso, perdi alguns áudios onde a gente falava bobagens e que me alegravam em dias difíceis.
Por várias vezes, nossas conversas foram motivos de força quando algo errado acontecia. Daí, de repente, entre esses anos todos, que se transformaram em séculos eu vi que a história chegou ao final… sem fim… como algumas séries que amo e ficam com a ‘suposição’ de segunda temporada e sabe, Ana? A segunda temporada piora a história que às vezes acho que poderia ter ficado apenas a suposição.
Penso que foi assim com a gente. Um fiasco… os momentos, as ausências e de repente você não faz parte mais da vida da pessoa. Tudo se transforma em lugar comum.
De repente, fica as lembranças dependuradas na janela, na cerca como se fizessem partes dos momentos, mas ficaram ali expostas e tudo bem. Sabe, Ana, o tempo é esse inimigo íntimo da gente – ou seria a distância? ou seria o sentimento? – e quando percebi, você se transformou na memória de carinho que me faz rir quando lembro, mas que o afago está ou ficou inacansável.
Não houve adeus, não houve fim – e mesmo assim, entendemos que houve um final – como os doramas que eu amo e fico imaginando as segundas temporadas e prefiro que não aconteçam.
Eu entendo que podemos esquecer o 11, o 13, o 23 e até o 1º… mas, não podemos esquecer as respostas e como elas não vieram e sejam por quais motivos, subentendi que nem valiam a pena responder.
E fica suspenso um final como se nem precisasse chegar ao final para se saber que é o fim. E nem precisamos dizer adeus para entendermos que o fim não tem explicação. Beijo meu,
Eu existo dentro das memórias que guardei. Ainda consigo vislumbrar com o instante como se fosse hoje. O vento ainda era brisa no quintal e ela aconteceu.
Os dias voaram no calendário para além do tempo. Não consigo dizer se parte das minhas memórias sejam lembranças de fato, ou se no relance da vontade eu a criei no interior de minha mente.
Parece o mar mas é o céu. A rotina, Mariana, tem feito me esquivar da beleza, interromper soluços que fantasio para pensar em mapas e conceitos e mais mapas, tem também me feito entrar devagarinho nos lugares como quem evita fazer golos de impedimento. Tenho estado (Tiago gosta quanto falo assim), logo, tenho estado abstrata, azulada e voadora como os personagens de Chagall. Hoje precisava trabalhar tanto e a poesia a me fazer muito mal, porque me força buscar metáforas para dizer o que se resolveria de chofre, o que me faz um bicho prolixo e esquisito. Ontem pintei a lápis de cor. Precisava voltar ao hábito de colorir (colorir é como varrer, percebes, Mariana? Se não, me pergunte de onde tirei essa ideia). Houve uma época em que pintei minúsculas marinhas, é tão fácil pintar marinhas, mas o azul me incomoda um pouco, porque sinto um frio quando uso azul tanto na pele, quanto no ver e tocar. Já contei que, quando pequena, não suportava ter unhas? Achava que elas atrapalhavam e apertava contra as palmas para não sentir, aí que as sentia mais… São tão bobas as crianças pequenas que morro de ternura por elas. Ainda hoje acho que poderia bem viver sem unhas. O azul, a poesia e as unhas me atrapalham, mas são coisas que existem e não posso fazer nada contra a existência delas.
Luci, o caminho até a aldeia tem seus encantos. Às vezes, são miudezas que o olho nem enxerga… Nesses casos, como diz o pajé, é preciso olhar com o olho do coração. Acho até que já te contei sobre isso. Mas o que eu queria mesmo te contar, Luci, é que eu voltei a viver esses instantes junto deles e com eles. Às vezes, a aldeia é muito longe, e de alguma forma, eles a trazem para perto de mim. Seja nas ações, no que faço no dia a dia e nas conversas sobre a vida deles. Eu ainda me lembro do pajé que se foi, Luci… Acho até que ele virou flor pela estradinha agora aonde ele colhia ervas para curar os doentes. É lá, de vez em quando que eu o abraço quando toco as pétalas das flores.
Quando o dia alaranja no meu quintal e o pássaro canta a melodia da vida, é para ti que falo. Quando as nuvens douram no céu e o sol abre sua cortina majestosa, é para ti que falo. Quando falo do riso da criança e do cachorro que faz arte na varanda, é para ti que falo.
Quando falo de amor e de poesia, e te canto uma doce melodia, é em ti que derramo. Quando eu fico em silêncio diante da vida, e ao falar teu nome me acalmo, é de ti apenas que falo e amo.
escrevo mil mensagens só com seu nome e tatuo na pele – a sangue-frio – o coração que você descreveu em palavras. Abro todas as gaiolas para que as saudades acumuladas voem e grito como a louca da rua.
Gasto a revolta da não chegada, da não notícia, do não chamado em passos ao redor do quintal. Era ainda ontem no calendário quando a palavra do poeta me tocou em meu olhar gasto da espera.
Antes que a vergonha do afeto que te emprestei me domine eu rasgo as palavras todas, as cartas, os bilhetes, as mensagens. Rasgo em mil pedacinhos seus toques em mim… faço ranhuras no espaça da agenda onde tem seu nome… nessa hora, eu começo a te esquecer.
situação que eu não conheça.
nem fases em que eu não me veja.
e em cada estação me submeto ao teu amor.
O meu olhar te descobre mesmo quando esconde e se refugia nos teus pensamentos.
É quando eu mais te descubro.
Não haverá em ti lugar em que eu não habite.
Trilho pelas tuas pegadas e é em teu interior minha morada.
Não haverá lugar em ti que eu não me encante e pelas tuas ruas cantarei meu amor.