Corredores, Codinome Locura

Cheiro de lua


Não era cheiro de mato
nem de alecrim no jardim

Cheirava a céu
de estrelas – eu pensei

Mas confesso que errei
Uma nuvem se acentua
e eis que assim, despida
toda nua

Senti o cheiro da Lua.

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr

Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Outono

Cuiabá querida!

Queria dizer que já não tenho mais palavras para dizer para você que suas ruas na primavera tem um quê do seu próprio nome… mas, em seus 299 anos é no outono que te concedo um olhar melhor.

Você se transforma em uma cidade dourada, com o cheiro das folhas a espalhar o aroma da estação.

O outono, esse menino travesso que veio brincar no meu quintal e seu céu roubam de mim os suspiros e tão senhor de si, o sol de todo dia se modifica em cada fim de tarde.

Nunca o mesmo, nunca igual, sempre solene e as nuvens se embelezam ainda mais para mostrar para todos a magia da estação.

Ah, Cuiabá! De cidade verde você se põe dourada e enche de encantos quem vive aqui.Nas tardes amenas sua cor se intensifica como se quisesse mostrar que no outono sua dimensão de cidade grande amplia.

A moça que lê a previsão do tempo cita seu nome e fala da possibilidade do tempo dourar – ou sou eu quem te faço mágica na brisa leve que meus olhos alcançam para além da janela.

Suas aves no voo te faz tão menina… E, para mim, suas calçadas me acolhem em cada canto que vou.Tão gigante, etérea e tão senhora de si.

Tão bravia e ao mesmo tempo acolhedora com seu povo hospitaleiro.
Cheia de falhas é completa de fé.

Te escrever, quase às vésperas de seus 299 anos na mansidão dos seus quintais me faz refletir que já sou parte sua e levo seu nome por onde for… Mas é dentro da estação que cobre seus dias que declaro meu amor. Feliz idade, Felicidades, Feliz cidade, Cuiabá!   Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural

Participam desse projeto:
Lunna Guedes – Maria Vitória – Obdúlio Nunes Ortega

Corredores, Codinome Locura

Ave, borboleta!

Visitava a sala
depois de olhar cada canto
aposento abandonado pela saudade
precisava aspirar ela no quintal.

Olhou céu
o dia coloria as flores
dentro dela
germinava asas
pariu borboleta
em um idioma que não era o seu.

De noite, a situação era pior
o céu gemia dentro dela e as estrelas
agitava seu interior
calma aparente de quem ama.

depois que amanhece
asa feita

retrato na parede
e ali, todo dia,
quando ainda era madrugada
fazia reza pra ela
Ave, borboleta!

Mariana Gouveia
*imagem: Dina Bova

Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 On 6 – Minhas manhãs

Nasço amanhã
ando onde há espaço;
– Meu tempo é quando.
Vinicius de Moraes

As minhas manhãs acontecem em frente a inquieta cortina lilás. Os dias nascem laranjas por aqui – com algumas raras exceções  – o barulho do rio atravessa a paisagem e o sol – companheiro diário – se acende. Era quase estender a mão e tocar o horizonte da infância e seus códigos indecifráveis. A rota do olho a buscar abrigo na paisagem. As memórias aquecidas no fogão a lenha e todas as outras manhãs ganhando sentido de uma.

As minhas manhãs são cheias de aromas. O capim dourado ainda orvalhado, o cheiro do café a atiçar memórias…
O perfume do sabonete logo após o banho… A pele a respirar poemas de saudades. Frases relembradas ao acaso. O cão da vizinha da frente que se chama Meia Noite a abanar o rabo enquanto levo as sacolas para o moço da reciclagem que – parece – vem na rua de cima.

Minhas manhãs tem as cores azuladas. O céu a desenhar mil corações e a palavra cantada na voz do homem da reciclagem entoando emoção. Os detalhes dos últimos dias como desabafo. A sorte que teve na semana passada quando encontrou a bolsa de alguém e conseguiu devolver. As histórias se tornando magia diante de meus olhos e o mundo sendo meu nas palavras do homem.

O quintal me acolhe com suas vidas minúsculas e expande na cena que me acompanhará o dia todo. Os cães e suas alegrias em brincadeiras eternas. O som da casa vizinha a acordar. Tudo torna especial minhas manhãs dentro das rotinas tortas. As plantas a receber a chuva que dou enquanto o regador cumpre sua função no jardim.

As aves diante de meus olhos e o pássaro de todo dia a costurar estrelas em minha alma. As mensagens de saudades escritas em um curto espaço de tempo…

O beija-flor a demarcar seu canto e o dia dentro de uma paz falsa a rabiscar saudades nas paredes das ruas. A rua de cima a me acolher ainda dentro das manhãs e os gestos de rotina da casa como continuidade das memórias. O vasculhar das coisas a procurar os gestos seus em cada canto. As palavras salivando nas asas do amor.

Como se no voar dentro do silêncio a manhã se fizesse voz e que por si só isso já fosse amor. Enquanto isso, o relógio nas minhas manhãs tem a vibração do segundo. É quase hora de ir viver o dia.

Mariana Gouveia
Projeto Scenarium Plural 6 on 6 –

Também fazem parte desse Projeto:
Lunna Guedes – Maria Vitória – Obdúlio Nunes Ortega

Corredores, Codinome Locura

Andou guardando estrelas por brincadeira

Redigiu o horóscopo do dia. Alternou a imensidão das coisas. No alinhamento dos astros, chove hoje. A moça do tempo avisa: leve seu guarda-chuva. Júpiter causa uma mudança interestelar. Pode se apaixonar de novo. Prefiro não dizer a palavra cuidado. Qual seria seu signo no horóscopo chinês?
O período da tarde pode haver mudanças. Realinho os astros no papel. A carta da lua teima em sair. Mistérios no ar. Ciclos. A vida não é feita apenas daquilo que podemos tocar. Nem ouvir. Nem ver. Há dimensões de estrelas na minha mesa. Números rodeiam meu destino de hoje. Ontem presenciei a queda de um mito. Já não há heróis para se espelhar.
A menina da mesa ao lado me pressiona com verdades que ela mesma não aceita. Recorta a parte que fala de seu signo e guarda. O dia de hoje é para ficar marcado. Relembro que há uma coisa chamada esperança. Na previsão do dia há poesia. A voz dela lembra qualquer coisa de fada.
A lua em Peixes enfeita o dia. Alguém compra o jornal e lê. Suspira e conhece a palavra vontade.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Subversiva

Vive de flor.
Come a espécie e grita a fome.
Adoece por falta de seiva – a dela –
Clorofila pura do sentido de ser natural.
Ama.
Por dentro, flor espalha em tudo que é canto.
Veia, sangue, ar. Respira jardim.
No sentido pleno da frase.
Dentro dela germina vontades… da essência dela em todo lugar.
Reage quando muda de espaço.
Trepa no limite do que pode sugar.
A história dos outros dentro da sua.
Subversiva, vive de flor.
Por que, só assim, pode viver.

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr

Divã

"Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante…"

Entro na sala e ela não está.
Sento próxima da janela. Vejo vultos como se fossem formigas. Apressados para a rotina diária. Refaço meu dia para a continuidade das coisas. Ela entra.
Senta. Anota.
Me inquieto na cadeira. Ela fixa seu olhar em algum ponto.

Às vezes, tenho a impressão de que não me ouve quando falo.
– Vamos falar de seu quintal? Alguma coisa nova por lá?
Estranho a pergunta. Quero sair correndo dali. Mas alguma coisa me prende, sei lá.
Nessa hora, penso que sou eu quem a ajudo.
– Há uns vinte casulos no meu quintal. – Ela se espanta –
– De borboletas – digo eu – As lagartas se espalham e criam os casulos em lugares que contando, ninguém acredita.

Ela anota, escuta. Olho fixo num ponto da parede.
– Fiquei sete dias sem poder abrir o portão todo, porque uma foi criar o casulo na dobradiça maior do portão. A ordem em casa era: abra o portão de correr.
Parece inacreditável, mas está lá, o casulo seco para quem quiser ver.
Vigio os casulos como eu fosse pari-los.

Percebo que ela anota a palavra pari-los. Pergunta:
– E depois? –
– Depois, quando nascem, elas gravitam em torno de mim como se eu pudesse voar. Mapeiam meu quintal com seus voos e pousam nas flores, plantadas ali, para elas.

De novo ela fala de suas inquietações sobre borboletas.
Olha o relógio. O assunto traz ansiedade. Não é de mim que ela quer ouvir. Acho que é dela mesmo a palavra – preciso respirar –

Saio de lá com a sensação de ter visto nas mãos dela algo que lembrasse borboletas e me pareceu ouvi-la cantarolar Raul quando a porta se fechou.
“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante…”

Mariana Gouveia – do Divã
*imagem: We Hearts It

Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 | O que te inspira

 É dentro de ti que toda a música é ave.
Eugénio de Andrade
Ave.

A minha principal inspiração vem em primeiro lugar – e os que me acompanham sabem – de asas – das mais diversas significâncias – e de voo, de pouso e ave.
E a ave dona do meu carinho e pensamento se chama Chiquinho e é esse pequeno beija-flor – já com 6 anos, que vive aqui no meu quintal.
Nasceu dentro do meu xaxim de orquídea em uma noite chuvosa e livre, resolveu dividir seus voos entre meus varais, os quintais vizinhos e o ventilador de teto da sala.
A inspiração vem enquanto seus voos rasantes me abraçam.

6 on 6.JPG
“Tenho o tempo das borboletas, uma semana é uma vida”
Graça Carpes

Toque (borboleta).

Cada manhã habita -me a leveza do toque e isso me inspira enquanto o aroma das flores me abraçam. O silêncio traz o vento que pelas asas ecoam… a mão é o pouso de descanso e a poesia muito mais do que as pontas dos dedos.

6 on 6 (2).JPG
“O céu sempre me pareceu
tão masculino
todo azul
e com um deus morando dentro”

Simone Teodoro
Céu do meu lugar

Sempre deixo de esperar o que era espera para ser entrega. O céu do meu lugar é onde a inspiração me ganha. Sou menina – a procurar figuras nas nuvens – que se encanta e com os braços danço entre o azul e o dourado – nas manhãs ou tardes de sol… apenas espaços em branco onde cabe tudo dentro de mim, inclusive, a poesia…

6 on 6-001.JPG
“… mas preciso de magia. Não consigo viver em preto e branco.”
Nietzche

A noite mágica no meu quintal

Quando anoitece, tudo muda de tom e som… O meu quintal ganha ares de magia e nos cantos dos muros, a floresta se torna minha e única. A noite me inspira e pira. A estação na pele.

A pele, na memória e o céu, infinito em sua magia me acolhe.

6 on 6-002.JPG

 

“Chamo o vento.
Para dançar comigo.
Na copa do ipê”.
Dayse Sene

Os ipês da rua de cima

A rua de cima tem a inspiração do portal mágico. É ali que a inspiração mora – feito menina travessa – e corre dentro de mim, como se a liberdade morasse na voz do homem da reciclagem, na terra amarela da rua que o homem do riso fácil varre todo dia. Na rua de cima, os ipês nascem nas manhãs serenas e ganham vida dentro de mim.

6 on 6-004
“Canta o teu encanto que é pra me encantar”.
Los Hermanos

 

Joaninha – encanto

 Quando se trata de paixão é dela que falo. Em cada canto da casa e do quintal ela está. Mora ali, no botão da rosa, na folha do pé de algodão e na inspiração que vem. Podia dizer que sou lembrada por ela. Que às vezes, um pequeno nada se torna gigante entre a singeleza da cor e no brilho que meus olhos ganham.

Muitas vezes, as inspirações vem de pequenos nadas que se ampliam e ganham contornos de plenitude.

É isso que ofereço – e entrego – me nas palavras – e se diante disso, eu conseguir te tocar, então, tudo terá valido a pena.

6 on 6-005.JPG

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 ON 6  | O que te inspira?
EDITORA SCENARIUM PLURAL – 2018
www.scenariumplural.worpress.com

Divã

Às vezes, é preciso enfrentar a verdade.

Aquela que dói no peito e bate na porta avisando: não tem jeito. Eu anoto. Não antecipei o contexto. Apenas repeti. E previ. Era outono nas manhãs do nada. Um pássaro morre no meu quintal. Tento fazer a simpatia que minha mãe fazia quando eu era criança. Coloco o pescoço do pássaro em volta dele mesmo. Molho a cabeça dele e depois o coloco debaixo de um balde. Dou as três batidas e mais três. Já não tem vida ali.

Já não há voos na minha manhã sombria. Pensei que seria véspera de asas. Acabou.
– Tem dificuldades em lidar com o que acaba?
– Não! Sou áspera na palavra respirar. Acato. Aceito. Sou submissa na atenção dos dias. O fim é sempre uma porta para um novo começo.
– Mas?
– É a reconstrução de um tecido que já foi rasgado. Ditados populares de séculos – Não deite remendo novo em pano velho – e por aí, vai. Diante da verdade possível fica um vão de medo. Planejei o dia de hoje em uma conversa simples, limpa, feliz e pensei nisto com o coração, lembrei de todas as conversas que quis ter, cafés, sorvetes, sombras e varais repletos de palavras e libélulas penduradas na palavra acariciar.
– E não aconteceu?
– Não. Tive de lidar com a morte logo cedo.
Seria possível remendar sonhos?
Anoto eu mesma a minha resposta.
A verdade é que às vezes, é preciso enfrentar a verdade.
Há um pássaro vazio de voo na minha mão.
Hoje, ela não fala…

Mariana Gouveia – Divã

Corredores, Codinome Locura

O céu, sendo universal em cada luz

1ª lua de 2018.JPG

O dia começou com perdas. A aldeia chora a partida de um sábio. O dia grande sendo pequeno. Alguém ousa na coragem de tirar a vida. O verbo falha na rotina desavisada. O encantamento ganha cor quando alguém parte sem sofrer. Era o dia grande sendo dor dentro das perdas. O espírito do guerreiro ganhando sentido na floresta inteira.
O céu, sendo universal em cada luz.
A lua sendo guia da alma. O dia termina infinitamente grande quando anoitece.

Mariana Gouveia
Primeira Super Lua de 2018
Cuiabá – janeiro de 2018.
Dia 1.