Afetos

O escafandro e a borboleta

Ainda lutava. Secretamente, porque ao redor ninguém acreditava. Por oito anos em coma ouviu passos espaçaram, choros se tornarem raros.

Naquele torpor, ela entrava. Pontualmente. Apoiava a caneca de café coado na mesinha ao lado da sua cabeça e ia bebericando, enquanto procedia a minuciosa limpeza do corpo inerte. E por isso ele ainda lutava. Secretamente.

Adriana Aneli
Amor Expresso
Scenarium Livros Artesanais
Ph: Elisa Lazo de Valdez

Scenarium Livros Artesanais · Sete Pecados

Avareza

                                                                                                                               Era como se a cada passo eu me rasgasse um pouco, porque minha pele tinha ficado presa
naquela mulher

Chico Buarque

Cada vez que eu a visitava queria levar tudo dela em mim, inclusive o perfume. As digitais impregnadas no meu corpo, feitas no aperto dos abraços. O riso que eu capturava e guardava nas lembranças para recorrer a ele horas depois, quando a saudade teimava em morar em mim.
Dela eu queria tudo e não queria deixar nada, para que diante da falta sentisse que precisasse de mim. Mas ela não sentia, porque me tinha o tempo todo.

Mesmo quando eu não estava por perto, minha presença se fazia instante. Não queria dividi-la com ninguém. Nem com a chuva que por vezes caía, nem com o sol que dourava a pele dela. Avara de tudo que pertencia a ela. Do chá que ela bebia. Do aroma das flores que ela aspirava. Na boca que declamava poesias para mim. 

Por isso, gostava de levá-la para ver a lua quando não havia mais ninguém nas ruas e apenas um cão ou outro latia aos nossos passos e eu podia mostrar as estrelas sem que ninguém conhecesse o riso que brilhava dentro das meninas dos olhos dela.

Era assim que eu a tinha. Em sonhos e por ela eu nunca acordaria. Hoje, o eco da melodia me faz ser uma mendiga de vontades e revirando meu baú o cheiro dela permanece intacto no lenço que ficou. Na echarpe colorida que eu enrolava nos cabelos dela. Hoje, ela é apenas saudades.

Mariana Gouveia
Série Sete Pecados
Scenarium Livros Artesanais
Ph: Alexander Borisov

Corredores, Codinome Locura

teus olhos/meus olhos

 

encantados
luz multiplicada
nos olhares-candelabros
e nos lábios
o sopro úmido
e o silêncio ruidoso
do que sentimos
e na pele o sentido pleno do toque e do prazer.

 

Mariana Gouveia
*imagem: Laurie Kaplowitz

 

Corredores, Codinome Locura

Busca

 

Despe-me
quase alada
de asas me faço
para voar em ti.
nua.

Na leveza dos teus gesto
me solto em teu braço

[eu ia lá fora
em brancas nuvens, esparsas
buscar-te]
no entanto, era em mim que vivias…

Meu corpo, teu céu
meu céu, teu olhar
Serve-se do céu
asas, canto
pouso e a leveza da vida no olhar.
A tua asa faz poesia em minha pele.

Mariana Gouveia
*imagem: Amy Judd

O lado de dentro

Ave, amor!

haverá os dias em que as manhãs semeadas a pássaros voarão em mim.

 

Quando falava… da sua boca
voavam pássaros!
Aves banhadas na saliva do beijo
No contorno dos lábios… o pouso seguro.

Quando falava… exalava poesia
Hálito fresco de carinho doce
De eterno desejo… de vontade própria. 
De sublime amor.

Quando falava… era como se o céu
se abrisse…  e alada, eu me perdia no voar.

Não sei como lidar com o silêncio 
Por que quando falava…
soava como uma prece {minha}

Ave, Amor!

Mariana Gouveia
Ph:  Miss Aniela
In: O Lado de Dentro
Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura

Enquanto eu inquilina

enquanto eu inquilina

Enquanto eu desatino,
você, menina;
eu, pé no chão,
você rumo.
Enquanto eu pluma,
você, asa;
enquanto eu inquilina
você podia
ser moradia,
ser casa.

Enquanto eu descalça,
na rua
você insinua
indecisão
enquanto eu paixão,
você razão.
Enquanto eu cama,
você…chão.

e assim eu me entrego,
não nego
mexe comigo,
com minha emoção
enquanto eu demonstro ternura
você, aventura
loucura.
Paixão.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Alada

 

carregava sonhos
desses alados
que voava nas asas
que ria por tudo
que dançava sem música
e que cantava sem voz.

Lembrava-se das palavras dela
e do pedido terno para ir de scarpin vermelho
e quando os tirou percebeu que de seu rastro
voavam borboletas
as mesmas que faziam festa no seu coração.

Mariana Gouveia
*imagem: Moony Wolf.

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Vitrines

E aí o mundo ficou de cabeça pra baixo.
Do nada, era você, no centro de tudo. Era você, meu mundo.
Ágatha Ramos

Ela é minha melhor vitrine. E fez surgir em mim o amor incondicional. E vê o mundo de cabeça para baixo. Onde quer que esteja, lá está ela, de ponta cabeça.

Ouve músicas, mexe no celular sempre com a cabeça para baixo. Mas isso, tem uma razão de ser:

Ela consegue mudar o mundo e transforma as coisas ao seu redor. Traz a leveza da alegria e faz com que a vida seja vista de maneira diferente.

É a melhor forma de amor em mim e mesmo tão longe, me faz a avó mais feliz!

Porque o mundo dela melhora o meu e o riso dela é a melhor coisa que a vitrine da vida me mostra.

Ela entrou em minha vida e passou a fazer parte de minha história. Gladys é o amor em forma de menina e eu a amo muito! Ela é a vitrine onde eu exponho meu melhor amor.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais

Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

Meu Scenarium – Sete Luas

Sete Luas foi aquele apaixonar diário desde o convite vindo por email e a palavra Cais rondou meus dias por um bom tempo.
Quando bati os olhos na capa – ainda sendo dúvidas da editora -Lunna – horas antes do lançamento – rendi -me! 
O amarelo foi como se o dourado da lua cheia invadisse as janelas do edifício e ali, todas as fases e sensações dos escritos me invadisse. Foi quase um uivo de lua.

Aconteceu uma pausa entre o encanto e a posse. O carteiro de todo dia não cabia em risos e repetiu a frase quase que costumeira quando o pacote ganhava meu abraço: – acho que a sua lua chegou!

Sufoquei – me com as luas incompletas e fiquei a beira do cais esperando que a poesia me guiasse. Era possível repetir a palavra encanto nas fases da lua.

Sete Luas  é esse frescor  e guardo como relicário e nas noites sem lua vou lá na estante e cheiro a maresia dentro dos poemas.
Enquanto saboreio as palavras uma lua em vírgula brinca no céu e me lembra que se eu apontar o dedo para as estrelas, nasce uma verruga bem na ponta do nariz – porque aqui, a lua é a parte principal…

No meu Scenarium desse desafio de fevereiro, Sete Luas e  No cais outra vez me leva pelos ancoradouros de minha infância como se sempre estivesse ali, faminta de amor e possuída de saudades. E ainda nem sabia o que era amor.

o cais a seus pés
e o mar em seu estado bruto
– de onda

Quase fases de luas cheias o tempo todo.

Sabe aquelas fases em que você sempre viveu e que é quase além das fases a lua que você conhece? A lua oscilando na bacia cheia de água no quintal e o mar quase molhando meus pés num cenário de cais que criei na memória.
Sete Luas é esse cheiro de maresia em mim. É essa espera de alguém que não vem – ou vem. O grito preso na garganta e quando solta consegue voar pelos plexos lunares.
Foi no meu cais, por detrás da cortina que me contive na voz e nas palavras. Aluei!

As luas em suas intensidades me deixa avuada de lua… e avuada era a palavra que me definia para minha mãe:
– Esse jeito de lua que você tem, menina… Parece avuada! Essa letra feita de satélite nas pontas do dedo…
Por falar em lua…

e essa Lua de Papel que sempre me domina?
Posso ser eu, assim?

Mariana Gouveia
Sete Luas – Scenarium Livros Artesanais
Desafios de fevereiro