Fui andar no quintal descalça e cheirar o verde das folhas do alecrim. Deixei um pouco de lado as linhas e o tecido já marcado com as letras para bordar e cantarolei para o quintal. Fiz o café há pouco e a xícara ainda permanece pela metade em minhas mãos. Lembrei-me da frase que li em algum lugar sobre minhas mãos de tecedeira. Isso me levou para a bambina que costura com fitas de cetim e foi quase como abrir um portal entre os quintais. Acho até que se tornou mais um rito as conversas pelas manhãs, onde as frestas de minhas árvores se desmancham nas flores da jabuticabeira dela. É bonito pensar como esse rito organiza o nosso amanhecer na mistura dos fusos e, de certa forma, o pulsar do lado de dentro. Olho para as plantas do quintal e percebo que a vida essencial é justamente feita dessa costura invisível que traçamos com as palavras alheias. As minhas se misturando com as delas e a magia acontece.
Lembro-me de que ela me apresentou Borges e deparei-me muitas vezes com os diálogos entre ela e ele. Eu me tornava a intrusa com os olhos na conversa dos outros, de um Outro que ele escreveu. E é esse outro que nos lembra que somos feitos de retalhos — um pouco de cada história que cruzou o nosso caminho, o fragmento de um poema descoberto ao acaso na poeira de um sebo, as margens dos livros que sublinhamos ao longo da vida. Se fisicamente carregamos os traços de quem veio antes de nós, na literatura somos feitos das leituras que nos acolheram.
Ligo a playlist que tem o nome dela no repeat e volto ao trabalho com as linhas, tecendo nomes e pontos. Penso na bambina que se vê no reflexo de um espelho, múltipla de tantas pessoas, e acredito que assim é. Porque ninguém é uma unidade só. Há sempre uma mistura de seus antepassados e até mesmo das poesias que lê em silêncio, quando o seu futuro cruza o meu passado para além das esquinas e dos quintais. Com isso, nossos lugares se conectam como forma de reconhecimento através de um livro, costuras e fitas de cetim. De alguma forma, a gente se torna a garrafa que atravessa os quintais e, com isso, ele também se torna nosso cais.
O ipê aqui, que com sua sombra me acolhe. A jabuticabeira lá, que adoça os dias dela. Afinal, a luz que entra suave pelas frestas da janela, despertando o dia para o mundo partilhado, é a mesma que ilumina o invisível onde o passado e o presente escolhem se encontrar. E quando penso no Outro, lembro-me que já nos encontramos algumas vezes, dentro do que escrevemos com as meninas que fomos e, de maneira diferente, tecemos um caminho que me levou até ela.
Mariana Gouveia

Você e sua magia, sempre!
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Você tão gentil comigo. Nem tenho palavras para agradecer.
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