A natureza e os livros pertencem aos olhos que os veem, já dizia Ralph Waldo Emerson… Fiquei imaginando aqui que observar quem folheia a vida sem o cuidado de deter o olhar nas entrelinhas é um exercício que exige uma paciência sem tamanho, e a gente sabe que, muitas vezes, isso nos falta. Há uma pressa nos tempos de agora que avança rápido demais pelas páginas dos dias, transformando o silêncio e as sombras em espaços de desconforto. Ouço o relato sobre esse falso leitor que recusa Modigliani e passa por Hopper sem notar o frio, as ruas vazias ou o homem alienado na janela, e imediatamente compreendo que a verdadeira leitura é um ato de permanência, um território sagrado que a maioria das pessoas tem medo de habitar.
Passo por lugares e pessoas que parecem ter saído das telas de Hopper: elas nos devolvem as nossas próprias perguntas, escancarando aquela solidão urbana que nos obriga a olhar para dentro, para o verso da nossa própria pele. Enquanto o mundo lá fora prefere o barulho das conversas inúteis e os diálogos servidos em bandejas imaginárias, a escrita me ensina a buscar a doçura da quietude. Para mim, o zunido das abelhas nas flores do quintal sempre terá mais importância e ritmo do que as opiniões sinceras de bocas nada santas que se espremem nas tardes aquecidas. É preciso manter a independência da própria órbita, mesmo quando estamos emparedadas num canto do ambiente. Já falamos sobre isso algumas vezes.
A xícara vazia só nos cabe na pergunta que você me faz sempre: vai um café? E rimos da pessoa que pergunta se, mesmo com o calor do meu lugar, eu ainda bebo café quente. É quase como comentar que quem mora no frio não pode beber nada gelado. A gente só ri porque sabemos que o tempo de pouso da palavra tem o seu próprio compasso. E algumas perguntas infundadas devem ficar vazias de respostas. No meu quadrante de terra, a solidão acontece no canto da vidraça onde a borboleta pousa esperando a hora certa de voar. Isso sim é o impacto do espetáculo invisível das coisas simples: a luz mansa que muda de tom na parede na hora em que se encerra o dia ou a caligrafia sutil das estações que afetam o corpo.
Ao final da manhã, quando recolho meus cadernos e deixo que o imaginário repouse na margem, celebro os mestres que nos ensinaram a suportar os nossos próprios abismos. Se a vã criatura prefere o horizonte alienado das grandes multidões, eu escolho o silêncio que rompe o papel com a força de uma verdade que não precisa de palco. A escrita, afinal, é a nossa única soma permitida.
Mariana Gouveia

Gratidão por este texto. Uma prosa poética refinada que traduz com maestria a solitude, contemplação, silêncio e busca de sentido pintadas por Hopper.
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Muito obrigada por estar aqui, Pedro. Grata sempre!
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