Afetos · Das palavras das cartas

BEDA #9 – A Mutação: O avesso que herdei de você.

pai,

Hoje o calendário diz que é o teu dia, mas aqui dentro a vida exige o avesso. Dizem que há muitas fases para o luto, pai; a falta de uma pessoa que se foi provoca muitas mudanças nos anos que se seguem e descobri que mudar é um processo invisível e doloroso. Para que o voo aconteça amanhã, é preciso desmanchar-se por dentro hoje, recompor as certezas e aceitar a perda da antiga forma.

Dói deixar de ser o que eu era. Antes, eu era a filha; hoje, sou órfã. Mas, enquanto me desmonto no escuro desse processo, é a tua força que me sustenta. Olho para as minhas mãos e reconheço nelas os teus traços, a tua teimosia bonita e a herança da tua firmeza. As coisas de que você gostava passam a fazer parte das lembranças e, em diálogos com meus irmãos, é comum repetir: meu pai gostava disso. Cada um reage diferente à tua falta, cada um repete em gestos os teus gostos.

Neste domingo de sol forte, recolho os meus pedaços sabendo que herdei de você a coragem de enfrentar os próprios desertos. Bebo meu café pensando no teu abraço. Sigo daqui, sangrando as asas no silêncio, mas pronta para o tamanho do mundo que me espera.

Feliz dia, onde quer que a tua ilha esteja!

Com todo o meu amor,

Mariana Gouveia

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