Afetos · Das palavras das cartas · infinitamente · Lunna Guedes

A noite despencou e quebrou três estrelas.

Procuraram toda a casa, toda a terra,
Ninguém a achava.
Ela estava no telhado atrás da chaminé.
Olhava as estrelas e cantava.
Estava tão feliz e sossegada!
Olhava as estrelas e cantava.
Meu Deus, está louca ! Vamos levá-la.
Estava tão feliz!
Olhava as estrelas e cantava

Ana Hatherly

Bambina mia,

eu queria lavar algumas palavras antes de dizê-las para você. Queria fazer igual, lá na minha infância-juventude aonde ia para a beira do rio lavar os lençóis de linho que minha mãe bordava. Tudo era feito com tanto cuidado para não estragar as linhas. Eu lavaria com perfume de flores a palavra amor, só para deixar o meu abraço com cheiro de poesia para você.

As imagens do último ano passaram rápido na minha mente. Parece que foi ontem que eu disse Auguri! e já é seu dia de novo. Sei bem que será tudo novo e tudo diferente. Sei também que deve ser difícil esse primeiro momento, mesmo que haja trovoadas, esse reencontro com uma saudade estimada em falta. Mas, sei que os trovões são quase como um presente de volta e de amor.

Assim, como para mim, você se tornou um presente diário. É com você que me abro como se pudesse chover e te molhar com minhas histórias que se casam com as suas e que se tornam nossas. Com você, eu sou essa verdade que tão pouca gente sabe. E mesmo com tantos mil quilômetros entre nós sei a careta que está fazendo e até a próxima fala. Mas, isso não quer dizer que sei tudo de você, que é essa caixa de Pandora e que desenterra poesias e afagos no cão e na minha alma.

Algumas coisas nos liga… os mapas, a bússola, os livros, as músicas e as missivas. Deve ter mais de um milhão de coisas com nomes diferentes e significados iguais entre as mulheres da poesia que você me trouxe e a bá que te apresentei… entre qualquer coisa que em uníssono eu e o meu moço aqui dizemos seu nome ao menor sinal de Itália. Seja em comida, música e futebol. A lua em riso, a lua tão cheia, a lua de nomes estranhos e cores que fogem da nossa lua… da lua minguante, crescente e das fases que a gente diz divinal. E das estrelas – de Marte, que está em Sagitário agora – e de rotas geográficas que nos levam sempre para a anoite, onde três estrelas despencou…

A gente ri de amora madura, de sabiá tomando banho em uma saladeira que virou piscina de pássaro; ri de gato subindo escadas, de cão se escondendo debaixo do edredom e de memes engraçados. a gente ri porque é bom rir com você, mesmo que a mensagem só seja respondida depois da fisioterapia ou de uma reunião de última hora.

Eu te amo imenso e te desejo paz no tuo cuore… te desejo prazeres como os passeios com o cão, o café coado na hora, as suculentas dando filhotes e mais mudas encontradas nas calçadas por onde anda. Também desejo descobertas de livros novos, em sebos aleatórios, ou livrarias escondidas em uma ruazinha qualquer da sua cidade. Um pé de manacá da serra florido, ou um pé de ipê forrando a calçada com seu tapete de flores só para você fotografar e lembrar de mim.

Te desejo trovões-saudade, temporais-saudade, garoa e folhas pelos caminhos… ah, e não posso me esquecer das hortênsias azuis em um jardim qualquer a arrancar-lhe o riso… Mas, antes de tudo isso, te desejo coragem… de enfrentar a noite, de vasculhar gavetas, de reler cartas/missivas, de mergulhar nas lembranças e até para enfrentar o calor…

(acho que você entendeu sobre o calor)

Te desejo abraços, pessoas novas, estranhas – que se tornam as melhores pessoas pra você gostar e desgostar – e muitos rabos de dogs te cumprimentando nas ruas. E por fim, desejo bolo de fubá nas manhãs ensolaradas, risotos para um almoço qualquer e muito café – ou um pouco de tanto – e pão… com o cheiro acordando a vizinhança com memórias de quem sabe o que guardar no cuore e na mente.

Vou estar aqui sempre, se precisar, com todos os desvios e acessos liberados para meu quintal, minha casa, minha vida. Minha mão estendida te alcança mesmo quando na lonjura não te acho… quero que sua gargalhada ecoe sempre nas minhas mensagens e que o som dos pássaros seja a nossa playlist nas manhãs/tardes/noites de nossas vidas.

Amo tu imenso!
Auguri!
Bacio,
Mariana Gouveia

4 comentários em “A noite despencou e quebrou três estrelas.

  1. semana louca por aqui que culminou em um sábado muito maluco. Agradável e sem chuva. Foi estranho não ouvir um trovão em Sampa no dia do meu aniversário, mas sei que tem os seus motivos. Em 44 anos foi a primeira vez… Recebi vídeos de chuvas e trovões de várias cidades, paises. Foi um dia azul e estive com muitos e com “nenhuns”…

    grata pelo carinho e por ser essa ponte com a realidade.

    Te voglio molto benne!

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