Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

De repente, faço uma anticarta, antidoto de páthos

Bambina mia,

Ainda tenho na memória o sabor da massa a dissolver na boca e o cheiro que exalava no dia. Alguém me disse que há dias em que os próprios dias acontecem e esses dias, que acontecem assim, aleatórios são os que ficam dentro da gente como se vestíssemos a alma com as lembranças.

A palavra pão agora sempre me leva até você, assim como a palavra lua, que está majestosa no céu de hoje. Enquanto refaço na memória seu roteiro na cozinha no ontem que pareceu hoje. O cão aos meus pés, à espreita dos pedaços que escapam e o vinho.

Sabe, bambina, eu que era de medidas agora meço no olho qualquer receita. E acaba por dar certo – ou não, como tu mesmo disse – e tudo bem também.

Agora, enquanto te escrevo o pássaro noturno se aproxima e não tenho nem um pedaço de pão para espalhar por ali, se bem que ele prefere o bebedouro do Chiquinho enquanto sob o telhado da vizinha a lua cheia surge sobre o quadrante do meu quintal. Coloco a playlist que leva seu nome, com as músicas que ouvimos aí e com as que me envia sempre. Seria essa a trilha sonora da saudade e da vontade de um abraço?

Faço mentalmente mais uma vez a lista das comidas que quero quando for aí… chego a salivar, assim como quando vejo as fotos dos seus pães… o cheiro da manteiga a derreter e a saudade de você que aquece meu coração.

Bacio

Mariana Gouveia

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