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Eclipse solar

Ph Jade Danielle Smith

Nisia surgiu por acaso. Era a vizinha da terceira casa da rua sem asfalto onde morei
por cinco anos. Eu, com os meus dezoito anos descobrindo a sexualidade e ela, saindo de um casamento violento, sedenta por
liberdade. Embora bem mais nova, parecia
que era o contrário.

Quando vi o sorriso dela pela primeira vez
— que nem era dirigido para mim — senti
que fui fisgada.

Um aceno, as boas-vindas e quando dei
por mim, estava adentrando a casa dela,
como se fosse minha.

Ficamos amigas e ficou impossível
ver uma sem a outra.

Como eu adorava ver o riso solto que
Nísia oferecia a todos e ela adorava
as minhas tranças.

A princípio a conversa foi sobre livros
— uma paixão em comum.

Mas não era a única:
vestidos, flores e comidas.

Eu adorava vê-la atrás do balcão de sua
cozinha de piso queimado vermelho,
preparando petiscos e servindo a minha boca,
com sua gentileza rotineira.

Com ela, aprendi tudo que sei a respeito de
vinhos. Foi depois de umas taças a mais que
nos surpreendemos tão próximas uma da
outra, com as mãos buscando pele
e revolvendo toques.

Nem eu e muito menos ela tinha experimentado
o feminino. Mas era como se conhecêssemos o
corpo uma da outra e soubesse por onde
avançar e como agir.

Não houve medo ou recusa.
Nós oferecemos aos caprichos…

Nísia tornou-se minha amante, mulher,
namorada e amiga. Tudo que queríamos era
estar uma com a outra, uma na outra
pelas horas dos dias, das noites e se o tempo
parasse, melhor ainda.

E como tudo começou em um rompante…
O fim seguiu pelo mesmo caminho…
como se fosse uma rua sem saída.

Eu me lembrava dela como se tudo que
experimentamos fosse um sonho. A realidade
não cabia dentro de tudo o que vivemos
naqueles dias.

Ela surgia com seu jeito de menina e aquele
andar esguio de quem aprende a se equilibrar
em saltos, cambaleando vez ou outra. Procurava
alguma coisa no meu armário. Tinha predileção
pelo soutien vermelho, que ficava perfeito em
seu corpo moreno.

Exibia-se para o espelho e enviesava o olhar
para se certificar de que eu estava ali,
a espiá-la.

Ela me olhava com fome de uma vida inteira.

Passava o dedo em minha boca. Dava ordens.
Eu cumpria. Aqui, bem aqui! — e ali…
Eu descobri o paraíso.

Bebia no ápice, meu gozo.
Andava de um lugar para o outro e o céu e
seu eclipse solar.

Éramos diurnas, feitas de sol… e para abrasar
o calor: a água…

O sabonete passeando pela pele. Ela ficava
quieta num canto e eu a falar e falar…
da estação preferia. A Primavera era ela…
Eu era o outono. A maneira como o sol ardia
lá fora. O halo ao redor do sol e eu ao redor
dela. Não sei se era sonho… parecia que era.

Eu via a Lua dar uma mordida no sol.
O eclipse para ela era poesia e eu era um
verso em sua boca.

Mas quem escrevia era eu…
E fiz dela um parágrafo inteiro.
O conflito que o conto pede.
O fio condutor de uma trama perfeita.
Um romance com começo e meio…

Ela era a protagonista e eu, a narradora.
Tudo na Primeira Pessoa… do nosso plural.

Cenas e mais cenas onde beijos lambem bocas
e a línguas passeiam pela pele. A lua a parir
mil estrelas dentro de mim. Grávida de nós
duas e um parto da soma dos iguais.

Estava no quintal da frente a olhar para o
céu, quando ela apareceu e acenou.
Prometeu voltar… e se foi.

Antes, deitou na minha boca um beijo
de até logo. O sabor que ficou… foi de adeus.

Na minha mão direita, uma flor — coisa de
música antiga que, vez ou outra,
me surpreendo cantarolando,
como se a nossa voz se misturasse de novo e
de novo e de novo… principalmente quando
passo pela rua de terra e olho na direção da
casa onde agora, residem outras pessoas.

Parece sonho… e talvez seja!

Mas, eu ainda tenho na boca o gosto do
beijo… e na pele o jeito do toque e na vontade,
a fome-sede e as minhas mãos a temperatura

dos nossos eclipses…

Mariana Gouveia
Amora – Coletivos de Contos Lésbicos
Scenarium Livros Artesanais

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