que passou em minha vida.
A rua se chamava Liberdade e até hoje tenho na memória os momentos que vivi ali. Eu tinha 12 anos e na Rua Liberdade tinha um cinema que tocava músicas o dia inteiro. A gente veio morar ali por acaso, depois de mudarmos da fazenda.
Foi a primeira vez que vimos televisão e através da janela da vizinha – até o bom humor dela durar e fechar a janela bruscamente, e isso, acontecia muitas vezes – e a novela era Locomotivas. A trilha sonora da novela tocava no cinema da minha rua, alternando entre Diana, Porque brigamos, Odair José e seu Pare de tomar a pílula e Caetano com Sem lenço e sem documento.
Quando acabava a novela – ou D. Vilma, a vizinha, fechava a janela – a gente brincava de esconde-esconde, bete e de contar histórias. A calçada alta em frente da casa era o ponto de encontro. Eu sonhava com as histórias que o cinema contava. Via os casais passarem por nós comentando sobre um romance ou comédia. E havia os dias em o matinê acontecia, mas com sete filhos, minha mãe não podia pagara para todos irem.
Na rua morava um policial e muitas vezes ele nos contava histórias dos bandidos que ele prendia. Nessas noites eu não dormia. Me encolhia toda embaixo do lençol e encostava em minha irmã mais velha, já que eu dormia com ela. Qualquer barulho era motivo para o grito e eu acordava a casa inteira.
Nas tardes mornas, descobrimos o picolé minissaia – um picolé colorido com sabores de duas ou três frutas – que levava nossa mesada toda em uma semana. O picolezeiro era o Sebastião, que vendia picolés e doces para ajudar a mãe e os oito irmãos. Ele aproveitava a venda para brincar com a gente.
Ainda me lembro do sabor e de como dividíamos os picolés através de mordidas e repartíamos abraços. Sorríamos o tempo todo. Não havia uma razão para alegria, mas a gente sentia ela no sabor do picolé, na boa vontade da vizinha que, às vezes, esquecia de fechar a janela e a gente podia ver um episódio inteiro da novela, nas canções que tocavam no cinema e nas brincadeiras com as crianças da rua.
Foi ali que nossos cabelos foram cortados por causa do piolho e foi também onde minha irmã mais velha foi morar depois de casada. Eu quero muito continuar lembrando disso. Das coisas que me lembro e me fizeram ser o que sou hoje, Do cheiro das comidas das vizinhas, do riso guardado do policial que virou meu padrinho depois, do pé quebrado depois que caí da calçada alta, dos dias passados no hospital recebendo visitas dos meninos e ganhando picolé minissaia de graça do Sebastião e da rua que se chamava Liberdade.
Mariana Gouveia
Todas as ruas

Na rua em que cresci também tinha policial. Um carabinieri aposentado e que me fazia pensar naquele personagem do filme Mary Popins, sem o assistente. Ele tinhas dois cães e quase todo mundo tinha medo deles. Mas eu não. Adorava os meninos e ganhava muitos afagos.
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eu tenho muitas histórias com esse policial que se tornou meu padrinho. Um dia, quem sabe, eu conte.
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Que lembranças não é?
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Muitas! Abraços
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Obrigada
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