Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Experimenta a suave melancolia de uma manhã feliz.

Um dia feliz
Às vezes é muito raro
Falar é complicado
Quero uma canção
Fácil, extremamente fácil
Pra você, e eu e todo mundo cantar junto

Jota Quest

Roseli querida,

Reparei que nunca te escrevi uma carta e aproveitei esse domingo estranho – amanheceu frio aqui – para te levar pela mão no meu quintal. Queria te mostrar os ritmos das borboletas por aqui… Já faz tempo que percebi as lagartas no pé de cleome e de como rapidamente foram devorando as folhas. Eu plantei essa espécie, justamente para elas…

Depois de alguns dias, ao invés das lagartas, foram os casulos que se formaram… eu acho pura magia essa transformação, Roseli… e mesmo que eu já tenha visto várias vezes esse processo, é sempre como se fosse a primeira vez e a cada vez me emociono, então, se meu olho lacrimejar, não repare, viu?

Domingo amanhece aqui com uma tonalidade de azul tão linda que acho um pecado assistir sozinha esse céu… assim como sinto uma dó enorme alguém não presenciar as borboletas nascerem. Já te contei que elas nascem pela manhã? algumas espécies demoram cerca de uma semana para eclodirem o casulo e ganhar voos nos desvios do meu quintal.

Algumas, como se precisassem de amparo, buscam minhas mãos, mas isso, é só até as asas ficarem firmes e elas vão para as flores, plantadas para ela e para o Chiquinho.

Eu diria que minha casa é habitada por elas… assim como pelas suculentas, os cambacicas – que brigam com Chiquinho pelo bebedouro – e por essas manhãs melancólicas, mas felizes… quer experimentar comigo elas?

O chá – ou café – pode ser escolhido pelas ervas frescas, quase ao toque de mão através das janelas… assim como a geleia de jabuticaba, ou de menta – que eu aprendi a fazer recentemente – com pimenta. Mas, se você preferir o café, eu ainda o faço da maneira antiga, no coador de pano, torrado e moído pelo meu pai, vindo lá do lugar onde ele mora… e só não vou te dizer que ele plantou, porque a força dele já não dá mais para isso.

Sabe, Roseli, te mostrar meu canto, mesmo que em fotografias e palavras me faz sentir nostalgia sobre a época dos encontros…

Eu sempre fui de casa cheia, de risos largos, de manhãs de domingos com a cozinha em polvorosa na preparação da macarronada com queijo, da carne assada e maionese. Mas, o tempo foi levando os irmãos para longe, e hoje, nessa manhã atípica – mas feliz e tranquila – te agradeço pela companhia. Que as borboletas tenham adoçado seu dia e que setembro nos envolva em seus dias na proximidade do carinho.

Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia
Missivas de Setembro
Scenarium Livros Artesanais

Estão junto comigo nesse projeto
Lunna Guedes Obdúlio Nunes OrtegaRoseli Pedroso e Suzana Martins

14 comentários em “Experimenta a suave melancolia de uma manhã feliz.

  1. Acho que misturei domingos aqui…
    E até me perdi do dia. Só para constar: não fiz bolo hoje, mas recebi a visita de uma farfalla que lutava contra o vento forte que aterrissou aqui, como se fosse julho.
    Os dias, as semanas e os meses estão confusos e eu estou cá, entre ontem-hoje-amanhã, estações várias. O seu domingo eu não sei onde ficou não…

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    1. Tu sabes que a farfalla sou eu, né? Ops, era eu…
      Aqui também tudo se misturam nos dias-meses-anos… o meu domingo só foi domingo por causa da missiva. De resto, são dias.
      E agora, surge um vento vindo do norte. Será que esfria?

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  2. Doce e querida Mariana, desculpe meu atraso em aparecer, ler e me deliciar no passeio por seu quintal. Na ida ao seu mundo, me perdi pelos labirintos de concreto de minha cidade e de meus porquês. Ando confusa, também tenho me perdido nos dias, meses. Apenas vivo mecanicamente. E meu notebook pifou, pra ajudar. Ainda bem que sempre contamos com a presença dos anjos e encontrei um que restaurou meu note. Amei visitar seu mundo e abraçar você. Vamos repetir mais vezes!

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    1. Será que isso é do decanato?
      Ultimamente, também me sinto assim…
      mas, sabe o que é bom de ser canceriana? A gente sempre se levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.
      Estou aqui sempre para o colo e abraço.

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