Das palavras das cartas

Beda – do meu pai ao pai do meu filho

Pai,

Como se corre contra o tempo? Se eu fosse contar os dias me perderia no calendário nos agostos todos em que me vi sua filha… quantas sementes você colocou em minhas mãos para que eu semeasse muito mais do que palavras.

Meu olho de filha segue os caminhos que você traçou para mim, muito mais do que os ensinamentos básicos, eu aprendi sobre a natureza das coisas. Sobre reconhecer os sinais do céu… de como a lua influencia nas marés e de como a colheita tem de ser feitas em madrugadas amenas – antes que chovesse no dia seguinte – para a perda não ser maior.

Acho que uso a data – meramente capitalista – para aprofundar meu amor nas cartas que te escrevo… e lembro-me das vezes em que me falava sobre escolhas. De como eu escolheria alguém para seguir comigo no caminho que eu trilhasse. E eu soube escolher bem, pai…

Um dia, o meu olho cruzou o dele em uma avenida e eu já sabia que se havia alguém que pudesse ser o pai do meu filho seria ele. Até hoje, não sei porque e a amiga que me acompanhava ouviu que eu disse: é ele. Se existe alguém nesse mundo que pudesse ser o pai de um filho meu, seria ele. E foi!

Li em alguns textos e comentários sobre o marido ser parecido com o pai. Durante anos, acreditei nisso… Depois, pensando melhor sobre os pais de nossa família, entendi que o olho da filha sobre o pai é que designa essa teoria. Talvez, a forma em que vejo meu pai tenha trazido para mim o melhor pai para meu filho. Não é cientifico e nem posso provar. Mas posso dizer que minha escolha – ou a do destino – foi certa.

O que posso dizer é que não poderia ter pai melhor… dias atrás, entre suas palavras, afetadas pelo avc meu pai ria com o olhar. Reconheceu tão antes de mim, o homem que me acompanha vida afora na palavra amor.

E assim, dias atrás, o pai do meu filho me guiou com as mãos como se ele fosse o sortudo de ter sido escolhido por mim.

O Universo me presenteia com os melhores. Sempre. Os que riem comigo nos momentos engraçados e os que riem comigo, mesmo em momentos doloridos. Os que silenciam comigo nas coisas absurdas que se apresentam na vida e os que falam comigo sobre bobagens… Os que se tornaram pais por mim-comigo. O meu pai e o pai do meu filho.

Já vi tantos modelos de pais. Já vi tantas mães que são pais também e em tantos momentos que vivi como filha e mãe sou a pessoa mais sortuda. Sou pura gratidão.

Poderia ter escrito duas cartas, mas dentro de mim, um complementa o outro. O pai que me guiou até eu entender os caminhos da estrada e o pai que me ajudou a ensinar ao meu filho como se descobre os caminhos.

Amo vocês!
Feliz Dia dos Pais!

Mariana Gouveia
Agosto é o mês dos pais e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso

6 comentários em “Beda – do meu pai ao pai do meu filho”

  1. Nossa, eu parei e olhei entre mundos e realidades quando li esse papo de pai ser igual a namorado-marido-amante e posso assegurar: não tem relação. Bem, no meu caso não tem.
    E acho interessante você olhar para alguém na rua e apontá-lo como pai do seu filho.
    Coisas do Universo, será?

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    1. Isso aconteceu mesmo. Trabalhávamos na mesma empresa. Uma empresa de ônibus. A mesma que ele trabalha já há 36 anos. Ele estava iniciando e eu já tinha alguns anos na casa. Eu era operadora de rádio e ele começou como cobrador.
      Eu o vi sair do Departamento de Tráfego e se encaminhar para o Departamento de RH. Eu o vi e perguntei para minha amiga quem era e disse: ele será o pai do meu filho. Dois meses depois, começamos a namorar e cinco depois, nos casamos. Isso, já fazem 36 anos. Algumas outras histórias, tu já conhece.
      Acho que o Universo gosta de mim.

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