Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

de quantos atalhos são feitas uma vida inteira?

Bambina mia,


Essa é a primeira carta do ano… e escolhi te escrever para responder sua pergunta – de quantos atalhos são feitas uma vida inteira? – e nem sei se tenho a resposta.

Hoje, eu fugi… fui para o mato para respirar, para me munir de energias para esse ano que se inicia – pelo menos, é o que o calendário daqui de casa anuncia – e embora não tenha tido contato com nenhuma pessoa que não o moço daqui de casa, pude presenciar cada bizarrice vista da janela do carro enquanto dirigia cerrado adentro que você se assustaria, mesmo já conhecendo algumas por aí.

Sabe, bambina, mesmo com dias de chuva e já passado algum tempo depois das queimadas, o verde predomina, os animais se procriam mas o cerrado ainda busca respiração. Das flores, de milhares – de outros tempos – hoje encontrei poucas. As libélulas diminuíram e as cachoeiras pareciam filetes de água. Qual atalho sigo rumo aos ninhos dos pássaros? Quais vidas buscam um atalho dentro do rio que quase secou.

Mas, antes que minha energia contamine a tua digo que a vida ali vibra e os atalhos viram caminhos de esperanças, de toque, de afago, de afeto. O cheiro do verde, o capim brotando, a chuva caindo me fazendo correr dali, de onde a cachoeira ganha forma de véu ainda me faz encher de esperança nos dias que virão. Ainda continuo sendo pouso na mão.

Quando voltei pra casa, a mesma menina que havia me dito que conseguia criar atalhos veio me receber… Perdeu mais vidas nesses três dias, mas disse que os atalhos são feitos de coragem… e que isso, eu havia ensinado a ela mesmo sem saber… E que vida inteira pode durar uma estação, uma tarde, uma noite, uma manhã, um sábado… Depende do atalho que você escolher.

Meu pote de energia está cheio e divido com você, porque para quem perdeu a referência de pai, de dois tios em menos de duas semanas ainda consegue me ensinar coragem, bambina e me lembrar que mesmo com atalhos complicados eu ainda desenhei em palavras Desvios para atravessar quintais, só posso agradecer.

Bacio.

Grazie,
Mariana Gouveia
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4 comentários em “de quantos atalhos são feitas uma vida inteira?

  1. Acho que a pergunta feira foi apenas para ouvir o som da própria voz a dizer certas palavras e a pensar no que vai dentro. Não esperava por uma resposta. Mas, ao percorrer tuas linhas, encontrei outras perguntas e tantos atalhos para mundos-vidas. Acho que eu estou a buscar por um atalho para fora da realidade. Tenho para mim que estou em fuga por cansaço nos músculos. Por preguiça também.
    Que bom que existem lugares onde se refugiar, nessa tua carta, por exemplo.
    Grata por ser o destino de tuas linhas nessa noite de domingo, um pequeno atalho para um sorriso. te amo

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