
Eu rejeito a tristeza
Soberba e vã
Sobressaio entre muralhas
Engano raios
Adormeço trovões
Renas Barreto
Hoje amanheceu aqui com seus trovões, bambina. Maio veio tempestade quente de um céu rugindo e ventos nervosos. Raios cortam o céu como se partisse ele com um golpe só, o cinza – que você adora, toma conta do dia.
Acordei assustada com um barulho nas janelas. Era uma libélula que ficou presa dentro da sala, por um descuido meu. Sempre faço a vistoria antes de deitar. Vago nos quartos procurando algum vestígio de bichos alados que insistem em povoar meu lugar.
Foi quando maio – o seu – veio passear por aqui mudando a rotina das histórias. Não sei porque essa palavra tempestade vem ocupando assombrosamente minha vida. Muitas vezes, num bom sentido. Outras, nem tanto.
Gosto das palavras úmidas, dos cheiros que elas me trazem. Seja chuva, seja orvalho, gota e esse mar imenso que cai agora. Embora, a palavra chuva me banha mais na alma do que nos pulos que dou de braços abertos, como se essa chuva de hoje, enquanto penso em você me benze, me lava e me prepara para uma imensidão de coisas que virão.
Gosto de ver meu beija-flor no seu banho de chuva. É a vida úmida acontecendo aqui, dentro do meu quintal. Tudo soa diferente dos costumes rotineiros. Não molho o jardim. Ele todo respinga alegria e a terra já exala o cheiro que tanto gosto.
Parece gosto de infância, de paletó de flanela xadrez, de leite fervido com eucalipto que minha mãe fazia no fogão a lenha que aquecia a mim e aos meus irmãos enquanto lia para nós.
Sempre fiquei com a impressão de que ela inventava algumas das histórias. Lembro de cada uma como se fosse hoje. Os cheiros nos leva para esse passeio insistente da alma em visitar passados, e nas lembranças minhas, o cheiro, tem o maior elemento.
Cheiro das folhas molhadas, cheiro do leite fervido. Do café. Da fumaça do cigarro do meu pai, que olhava a chuva da janela. Essa mesma janela que trago sempre na lembrança que é de onde te espio. Chego a empurrar a chuva para você. Imagino sua cidade cinza e o seu cão no sofá de sempre, em seu silêncio puro e acolhedor.
Hoje, trago-te essa tempestade. Ela desaba aqui. Também guardo-a em palavras nas histórias que escrevo, que leio para um dia, num abraço poder derramar sobre você meu carinho. De alguma forma, mesmo que não possa ouvir, o céu ruge aqui como se nos ligasse no mesmo ponto das vontades de chuva.
Dizem que o tempo mudará e que o inverno antecipará seus dias por aqui. Confesso que não acredito muito na meteorologia. Porém, se tudo isso acontecer, teremos um frio histórico aqui. Um lugar que chega aos 40º em sua maioria dos dias, qualquer 20º já dá para pensar nos cachecóis – esses que você adora e que para mim, tem sua marca registrada – e nos paletós.
O dia pede urgência. Fervo o latte para o cappuccino. Canto “Luna, tu. Tu rischiari il cielo e la sua imensità” e deixo meu bacio envolvido pelo barulho do céu que desaba aqui. Hoje, sua alma morou em mim.
Mariana Gouveia
lindo texto, deu pra sentir daqui 🙂
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Muito bom quando a intenção da escrita atinge o objetivo. Beijo
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