Corredores, Codinome Locura

— a leitura que faço de mim mesma

“Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher,
com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado

Clarice Lispector

a leitura que faço de mim mesma .

Quando Setembro se inicia em meu íntimo já é primavera e escrever é quase esse espalhar sementes em um quintal povoado de pássaros. Sou esse ser em formação em matéria de escrever. Perco-me diante das banalidades e minha escrita ganha vida no dia a dia. Sou a que planta, colhe e faz poesias. A palavra me toma como se parte dela fosse parte de mim e outros tantos eu caminham por nortes diferentes dentro da escrita.

Ser escritora em plena primavera de 2017 talvez tenha a leveza da estação, mas ainda assim continua sendo peso o fato de ser mulher, dona de casa e escritora – e o novo século não alterou em nada essa questão –  e atrevida, ganho voz através das redes sociais; a escritora de hoje sente na pele a mesma opressão que desde os séculos passados outras viveram e sentiram. A luta pelos direitos iguais dentro do movimento feminista imprime mudanças substanciais na ótica e nas relações sociais. E isso influencia a escrita, o pensamento e as ações.

Diante disso vivo em constante reconstrução e a cada dia me dispo diante das palavras e levo a quem me lê meu coração. Meu linguajar se mistura com a estação onde tento passar a minha emoção para o outro.

Moderna-antiga-ultrapassada-atuante, muitas vezes muitas dentro de uma só. Múltipla de mim mesma. De qualquer forma, assumo minha independência e força admitindo meus desejos e me coloco como protagonista de minha própria história.

Mariana Gouveia
Projeto Scenarium Plural – Crônicas de Outubro.

 

Corredores, Codinome Locura

Ave, flor!

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Desenha em todo lugar
lembranças que ela deixou.
Um farelo de pão sobre a mesa serve para criar corações nas rotinas.
Uma linha que o pano de chão deixou, traz a inicial dela.
escreve ela em todo lugar.
Desenha corações nos muros.
Escreve o nome dela nas janelas dos ônibus
por onde vai a leva, dentro, fora, além.
Vê a vida com os olhos dela.
Vê ela dentro dos olhos
e ri quando imagina fantasias que ela
diria,
teria.
Vontades surgem e o respirar é ela.
Dentro, funda. Imensa. Aqui.
Coleciono pétala no olhar. Invoco o nome dela como prece.
Bem a quero. Eu bem quis.
Ave,flor!

Mariana Gouveia
*imagem: Marta Orlowska

Corredores, Codinome Locura

Adágio

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Amanheço
pela minúcia das lembranças…

Em tudo busco a palavra que disse :sou tua!
Em toda letra busco o verso que não me dedicou e ainda assim sei que pensa.
Na moldura sem rosto é o teu que sempre vejo

Mariana Gouveia
*imagem: Nishe

Corredores, Codinome Locura

das minhas memórias todas

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seu nome escrito nos muros
sangrando as paredes
onde escrevo saudade
a palavra que não disse
o beijo que não deu
o abandono todo.
O sentir do teu toque na pele,
as borboletas a voar no estômago
das minhas memórias todas
o livro que não li em braile em tua pele
o abraço que não dei em seu dia
das minhas memórias todas, você.

Mariana Gouveia
*imagem: Rimel Neffati

Corredores, Codinome Locura

Era tudo escuro no corredor cinza.

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Cheirava a ossos a nitidez da tarde.
Ela me deu um riso torto enquanto eu esperava.
A solidão entre as pessoas é desigual.
Vivo o silêncio dos gritos.
Era pouco o dia para tanta gente.
A moça de azul desafiou as dores que eu tinha.
A lucidez se perdeu no cesto de frutas e não havia copo para sede.
E de repente tudo perdeu o sentido.
Era estação das flores quando eu acordei e você vivia o inverno.

Mariana Gouveia
*imagem: Lauren Treece

Corredores, Codinome Locura

O jardim não está para peixes

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Ph: Louis Treserras

O jornal não acredita na história dos signos. Pediu para trocar a personagem do meio. Como pseudônimo usou o nome verdadeiro. O editor corrigiu para um nome engraçado. e assim a lua transitou suave pela constelação do agora.
No porta-retratos familiares antigos. Pessoas que não recordam da infância.

Há muita distração na grama do jardim. A história é a mesma. Só muda o nome. Não há conexão com o astral. A demora atrasa o dia. Afinal, o jardim não está para peixe. Eles voam para fora da gaiola.
Ninguém consegue entender a isca.
O inverso acontece dentro de mim.
Hoje a solidão exagera na palavra.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Era para ser apenas esse, o nosso tempo.

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Foi escolhido para ser no tempo de agora. Não era para ser pesado nem leve.
Era para ser apenas esse, o nosso tempo.
Ela me mostraria os caminhos que fez. Os 1.700 e tantos kms percorridos. As colinas, os montes, as aldeias que desvendou. Eu, falaria das lendas que criei no intuito de trazê-la até a mim.
Ela me ensinaria coisas que nunca viveu. Eu aprenderia prazeres nunca vivido por ninguém, porque só ela sabia o segredo para tanto.
A mão dela tinha a magia das flores. Tudo era pretexto para o toque.
Quando me tocava, deixava ali, seu cheiro de flor.
É esse o nosso tempo e não havia previsões dizendo quando seria. Nem que horas o portal se abriria para o encanto.
Só sei que, quando aconteceu…
Eu já estava pronta.

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr

Corredores, Codinome Locura

Sabiam as hortências do desejo vivido.

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Sabiam as hortênsias da vida líquida
dos seus beijos.
Marejava os olhos com jeito de mar
tão ela, menina de rio.
Cavalgava cavalos marinhos rumo ao oceano.
Os muros dividiam os desejos no quintal.
Não era a hora de amar na concordância verbal do dia.
Chovia – fazia sol em outro destino.
a imagem do paraíso – ela.
Cheirava a amor as palavras escritas.
E a cor da flor resumia o destino da mão
Sabiam as hortências do desejo vivido.

Mariana Gouveia

*imagem: Anna O.

Corredores, Codinome Locura

Era todo o verbo no gesto de amar.

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O pássaro não veio na lógica do dia.
Havia nuvens sem cores no céu. As folhas dançavam com o vento.
Algum vizinho preparou o café. O cheiro invadiu a madrugada e mudou a rotina do dia. Não havia a voz dela a desenhar as linhas da manhã.
O dia tinha tonalidades de arte. Pintura abstrata na solidão das cores.
Vi uma mulher que ria pra dentro.
Marquei mais um século no acontecimento do dia. Relembrei a manhã do pedido e a rotina do tempo. Chovia quando a palavra pronunciada trazia prazeres.
Faltava o ar na maioria das vezes.
Era todo o verbo no gesto de amar.

Mariana Gouveia
*imagem: Craig Gum

Corredores, Codinome Locura

Quando o mar invadiu…

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minha janela
eu já era plena de riso
Já era nua e o vento, meu
Peguei a onda pelo cabelo
e os peixes, em delírio de estar
era toque de mão no corpo todo.

Quando o mar entrou em minha vida adentro
trazendo a maresia para a moldura da sala
eu já era poesia na palavra dela

Quando o mar me amou
eu já era marítima e mais nada
eu já era puro amor de mar.
E já não podia ser de mais ninguém.
Só dela.

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr