Corredores, Codinome Locura

Costuras

Costuro as pontas dos dias nos olhos do pássaro de todo dia, que depois de uma – mais uma – briga pelo espaço chega sem penas no rabo. Mas voa com pose, de quem sabe costurar com o bico, o ninho.
Costuro o bordado no tecido enquanto ele me espia do varal e meu olho viaja para dentro das lembranças do tempo em que minha mãe costurava a colcha com o que sobrava dos tecidos das costuras que fazia e dos retalhos pequenos aproveitados no giramundo para segurar os filhos na arte.
Observo a costura do livro Lua de Papel III, que releio pela terceira vez e aspiro a destreza da artesã que transforma sonhos com papel, palavras e cetim e as memórias ecoam em poemas, poesias e arte dentro do que se pode costurar.
A vida é esse instante tão pequeno que passa feito voo de beija-flor ou linha entre um tecido e outro, uma agulha e o papel, um ponto arrematando o dia que aconteceu.

Mariana Gouveia
No bico do beija-flor beija a flor.

Corredores, Codinome Locura

No bico do beija-flor beija a flor…

Ele chegou até a mim em um dia frio, quase igual a hoje, há 10 anos atrás.
Caiu do ninho feito no meu xaxim de orquídeas e nem percebi que ali tinha um ninho. Era meu aniversário e embora ele não tenha nascido nesse dia, é nele que comemoro os nossos aniversários.
São 10 anos ele aqui, entre os quintais vizinhos e o meu.
Ele conhece os desvios para atravessar os quintais e vir pousar em minha mão. Dei-lhe o nome de Chiquinho e ele atende quando o chamo… Vem, voa, e mora no pé de algodão, com rasantes nos pés de ipês e nas flores que plantei para ele.
Dorminhoco, não pode ouvir @mariagadu cantar Dona Cila que vem pousar na minha mão. É um dos meus amores e possuidor da liberdade que encontrou aqui.
Nos seus milhares de voos, pouso e beijo.
Feliz aniversário para nós dois!

Mariana Gouveia
No bico do beija flor beija a flor.

Corredores, Codinome Locura

Eu era a estranha perdida

Eu era a estranha perdida

Parada na manhã, no meio do nada.
Caótico trânsito dentro de mim.
Eu era a estranha perdida e ninguém conhecia.
Vozes me indicavam a direção.
Rumo a lugar nenhum.
Não sabia o endereço, nem conhecia nada além do corpo dela.
A mão, pedia toque.
Sobrava solidão nas estrelas.
E a vontade exagerada no olhar.
Foi assim que amanheci em tua roupa.
Cheiro de pele molhada.
Cheiro da chuva que vi escorrer na calma
de uma manhã onde desejei ser vidraça.

Mariana Gouveia
*Fotografia: Facebook

Corredores, Codinome Locura

Ela era todo sabor

 

A porta entreaberta denunciava o que estaria por vir. Tocou lentamente nos sonhos. Era um costume antigo. Desnuda diante de si mesma, ela sentia-se bem. Enquanto tocava-se imaginando não imaginar nada, absorvia uma cumplicidade divina emanada pelo silêncio.

O vento estragara a possibilidade de um deleite ainda mais profundo na frente do espelho. Os pelos arrepiados pelo auto prazer reverenciavam, aos poucos, a pele sedosa que protegiam.

A calcinha estava bem confortável. Os detalhes em miçangas e um bordado especial nas extremidades do tecido davam um toque de requinte ao que se bastava.

Havia fogo escapando pela pele. Abaixou-se vagarosamente, Respirar.

Numa parte do sonho ela chegava. Havia ocupado a porta e o vulto era apenas reflexo sentido. Não apagou nenhuma luz, tampouco as chamas de si. Ao mesmo tempo em que experimentava o tato do prazer materializado em líquidos claros e consistentes, puxava o próprio cabelo, de maneira suave, punindo-se pelo desejo do orgasmo solitário mas junto com ela.

As cortinas iam de um lado para o outro. O vento que soprara rangendo a porta dança, ao passo que ela faz-se de violão: dedilha e escorrega, onde as notas musicais são expressas pelos gemidos tímidos em lá menor. Todo o corpo reage ao testemunhar seu momento sublime. Os suores percorriam as curvas suculentos e rebolavam sobre as curvas dela. Contração total dos músculos: cruzou as pernas tentando prender para dentro todo o gozo do qual fugia há anos. Não conseguiu.  Fora de si, ela continuava lá. Mas a inocência não estava mais nela.

Entorpecida por todo o ocorrido. Logo depois tomou o banho mais leve de sua vida, colocou a mesma calcinha  que usara, repôs o vestido de bolinhas verdes que ela adorava. Ela era todo sabor… E ainda é.

 

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr

Corredores, Codinome Locura

As borboletas nascem pela manhã.

Eclipse lunar e o quintal se prepara para o nascimento. A mudança acontece de dentro para fora e as sombras refletem as asas que logo voarão e alcançarão a liberdade.
A flor da pele, o brilho e a dor da metamorfose, porque as transformações são necessárias.
O que é frágil se fortifica no inesperado.
As borboletas nascem pela manhã.

Mariana Gouveia
Projeto: Na rota das borboletas – do voo ao pouso.

Corredores, Codinome Locura

b.e.d.a – Brancura

Brancura

É quase um pecado a brancura da pele.
O toque, rezo – quase.
o silêncio é quebrado pela respiração suave – ou rápida…não sei.
O roçar provoca barulho interno de carícias na alma.

É quase uma tentação a brancura da pele.
Como se tocasse fosse manchar de digitais… as minhas –
Tinha a disposição do encanto e de ficar por horas e horas, ali… Só a olhá-la.

É quase um suspiro a doçura da pele.
Eu a toco. Respiro.
Quase um origami de amor.

Mariana Gouveia

*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

Corredores, Codinome Locura

b.e.d.a – Brisa

Brisa

Não pude ver.

Apenas senti a brisa e tinha certeza de que estava ali.

Mariana Gouveia

*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

Corredores, Codinome Locura

.b.e.d.a – Parabéns, Cuiabá!

Cuiabá querida,

O dia se rompe e mais uma vez te espio da janela. Meu caso de amor com você é o bordado que crio ao longo dos dias.
Cheguei aqui menina e trazia a esperança de ser abraçada por você e sua gente. Suas ruas antigas, os casarios e os quintais com suas árvores e frutas. Você era a cidade verde e muitas vezes foi só eu e você nas madrugadas no rádio onde minha voz alcançava além dos seus domínios.
O tempo foi nos tornando íntimas e meu amor por você foi crescendo, assim como você se agigantou tão rapidamente aos olhos do mundo.
Hoje, 38 anos depois eu já te pertenço.
Somos partes uma da outra. Em seus 301 anos agradeço pelas imagens que me proporciona todos os dias.
Feliz aniversário!

Mariana Gouveia

*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

 

Corredores, Codinome Locura

b.e.d.a – manhã acontece no equilíbrio da asa…

Um avião cruza o céu e o pássaro voa em sua rotina de ninho.
A libélula em seu ritmo de pouso, e eu, na docilidade de sua voz, voo.
Tudo vibra na delicadeza do instante.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora

*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

Corredores, Codinome Locura

Inquilino invasor

Inquilino invasor.jpg

Chegou o primeiro
como posse e herdeiro
quis amor a nada fez

e o segundo
achou-se dono do meu mundo
falou de um amor profundo
e ali ficou de vez

e com isso achou que não mais precisava
agradar porque gostava
e ficava ali quietinho

E o terceiro chegou como o derradeiro
colocou em mim poesia
e quando eu percebia
já era dono do meu mundo
e eu já dava carinho

como inquilino, invasor do meu direito
fez bater forte meu peito
e tornou-se ilusão
tão senhor do que eu vivi
e de tudo que eu senti
já era dele meu coração.

Mariana Gouveia