Leio histórias que lembram você. O homem da esquina entoa um mantra dentro da solidão – pede sementes da flor que nem nasceu – faz perguntas sobre o amor que canto na letra da canção. Inventei sua presença, ali, no canto do jardim. É lá que beijo pétala a pétala da flor.
Essa impossibilidade do toque não me afeta – fecho os olhos e a alma busca – porque eu toco-a. Vejo de perto seus caminhos – seu céu sob o rio – e outras mãos que podem te tocar. Era quase nada essa distância – é preciso um certo encantamento para viver a vida – para superar esses corredores cheios da noite. Perguntas rondam minha vontade de falar. Quase esqueço o último pedido do não. Onde esse medo de nada que vasculha minha noite? Onde essa flor que se abre dentro das ausências e mora nos poemas que me leem? Onde o pólen se transforma na onda que se arrasta em meu quintal? Dentro das perguntas em volta da flor apenas seu nome e minha declaração de amor.
Mariana Gouveia Ph: Nishe Entre a estação e a primavera
eu também já tive infinitas vezes – e ainda tenho, e sei que terei – alguma borboleta sob minha tutela. Já aconteceu de uma noite, sob intenso temporal, eu ficar com uma em minha mão e mesmo que eu colocasse ela arrumadinha – quase embrulhada – em algum canto, ela revoava e voltava para mim.
Eu acho que elas nem sentem o peso do mundo sobre elas. Elas apenas são. O meu quintal tem de área livre 20×10 e aqui, além do meu pé de ipê, de trepadeiras variadas, trapoeirabas azuis, orai pro nóbis com buquês que parecem feitos para noivas, orquídeas, lantanas e muito mais plantas, elas acham graça de vir para dentro de casa. Você já conhece a história do meu beija-flor Chiquinho… pois com elas ainda é mais engraçado… eu as chamo de bebês… e surgem casulos em cada lugar que você nem imagina. Passo horas vigiando, guardando elas também dos cães.
Algumas fazem o desvio no meu quintal, mas outras – atrevidas – ficam horas sob meu celular como se fosse ninho. Outras, resolvem usar minhas mãos como se fosse cama… Ah, Luci, tu ia adorar ver isso. Estendo as mãos e elas vem.
Depois disso, posso contar os dias e casulos começarão a invadir os galhos, as portas e os lugares mais inusitados que daria um livro. E sabe, Luci? Quando conto isso, muita gente duvida… tenho de mostrar fotos e provar… até parei de falar das borboletas. Algumas, nascem fortes e voam tão logo a asa sangre – sim, elas sangram – voam alegremente… Outras, ficam por aqui, como se meu lugar fosse abrigo… é o tempo delas…
Sei que isso é para poucos, Luci… a natureza reconhece seus iguais e nessa hora, confesso que me sinto diferente… privilegiada. E sei que você também se sente assim. Acompanho seus ritos, seus instantes e seus amigos que de uma forma ou de outra te buscam para se protegerem.
A vida é tão confusa, tão doida e doída que isso, nesse período que estamos vivendo me fez mais forte. É essa espera de vida que me faz seguir… lamentar pela vida dos que foram, chorar pelo que não posso mudar, mas tentando fazer diferença no que posso e sei que você também faz assim… por isso, te abraço através dessa carta e espero um dia, quem sabe, te abraçar dentro do meu quintal.
Conheci Mariana Gouveia num entremez, no hiato entre um e outro ato da ópera. Aconteceu quando me deu na telha começar a registrar o meu tédio na rede, ocasião em que pari um blogue. Bem, na verdade verdadinha veraz não conheci realmente à Mariana, somente à distância, enquanto lia seus escritos, de modo assim fantasmal, internético. Mariana, a Gouveia, desde o começo gostei de pensar nela assim, cerimoniosamente, como se me dirigisse a uma castelã. Dona Mariana, dos Gouveias. De Goiás e Mato Grosso adentro. Falava do que mesmo? Já se me esqueço. Não, relembro, quero escrever sobre. Homessa, nunca termino um período! Bem, PORTAS ABERTAS: CODINOME LUCIDEZ, livro de Mariana Gouveia, que escreverei deste jeitinho, com as maiúsculas nos lugares errados, sapecando um itálico se o editor de texto suportar. Uma resenha, minha ambição. Mas queria muito mais, queria que não fosse a resenha laudatória habitual. Queria, quero mesmo, que seja uma conversa aqui do lado de fora sobre o que ocorreu no lado de dentro. Que seja este um texto que soe como um assobio despretensioso. De Mariana, primeiro, conheci seu estro. Uma escrita sedosa, no seu blogue O OUTRO LADO (PORQUE O LADO MELHOR É O DE DENTRO). Depois os livros, como este Portas Abertas, com páginas atadas por fitas. Portas Abertas é um daqueles livros na linha da declaração atribuída a Clarice Lispector, “gênero não me pega mais”. Não é confessional, mas é. Não há o narrador onisciente clássico. Mas é como se houvesse e a quem eu chamaria de comedido. Há fluxo de consciência, também comedido, quase a medo de ser desrespeitoso, toca aqui e toca ali, mas nunca se aprofunda. Há fluxo, mas o que informa, o que se nos dá a perceber são as pequenas coisas. Um teto, uma boneca, uma janela, um sofrimento, uma fotografia. Um monólogo da personagem, Maria, um livro-razão de sentimentos. Liberta do manicômio, mas com ele dentro de si, se reconstruindo com as peças que tem à mão. Refazendo-se com pequenezas diversas, agregando silêncios. Os americanos chamam de “Revelatory Plot” ao texto literário que aparentemente prescinde do enredo. “Kishōtenketsu” é o termo japonês para uma estrutura que não atende aos padrões ocidentais da escrita definida por suas tensões. Quem leu Yukio Mishima irá entender. Existe um centro, um fulcro e dele a escrita se irradia e, portanto, não começa e nem finda, mesmo quando há morte, mesmo quando se propõem finais. Assim também o “Portas” de Mariana, simples até a medula, como se toda a coisa pudesse ser reduzida a um momento íntimo, a um ato banal se irradiando em teia, como um cobertor definindo relevos. Falei de Mishima e me vem à mente um seu conto no qual o motivo condutor é uma garrafa térmica que ao ser aberta produz um som que assusta a uma criança e partir disto levamos um tempo enorme de leitura para perceber que trata da história de um pai, exilado em um país estrangeiro onde encontra uma amante do passado. Ou uma frívola concubina imperial que corrompe um homem santo e no processo alcança a iluminação. Aparentemente sem ponto de ancoragem, “Portas Abertas”. Só a voz de Maria e o enredo dos dias. Portas Abertas: codinome lucidez é um livro que tem primeira página, depois outras e mais outras. E, se você o encomendar, virá atado em fitas (uma ideia linda, um achado da editora, a Scenarium) e necessariamente você cogitará que alguém o montou, assim, despretensiosamente, com fitas unindo papéis diversos. Acho que é tudo o que eu tinha a dizer sobre o livro e sobre Maria e sobre Mariana, a Gouveia, de Goiás e Mato Grosso adentro.
Que petulância da moça, que, depois de roubar-me a alma atravessar um oceano de possibilidades levar ainda meu juízo e calma me colocar num mar de imprevisibilidades, deixar-me escondida dentro dela ainda me pergunta se tenho alma pra ela.
Mariana Gouveia in, O Lado de dentro *imagem: Stumble Upon
Escrever-te é como se eu repetisse um caderno que te dei anos atrás – você se lembra? – e foi ali que ganhei de presente a amizade de sua mãe. Ela mesmo me confessou tempos depois que a curiosidade dela era saber quem era a mulher que gostava imensamente do filho dela tanto quanto ela, e que o ciúme fez com que ela encomendasse os meus bordados como “isca” para saber de mim.
Tenho muitas histórias dela. Muita riqueza na amizade e muita braveza nos gestos. “Ela é uma figura” – você me disse um dia e eu te digo que ela é uma história incrível. Dividia comigo os livros, os artesanatos, e o perfume Curve. Em cada viagem dela eu ganhava um frasco.
Quantas vezes viajei com ela conhecendo o mundo! Bélgica, França, Espanha, Portugal e no Brasil, infinitos lugares. Falávamos horas seguidas, fui em todos os lugares com as descrições que ela fazia e quantas vezes ficamos quietas, em silêncio, no quarto dela por horas, aos sábados… e nos dias em que eu cuidava dela pós operações, ela dormia ouvindo Simple Three, Rain… É a melodia que ecoa aqui.
Sonhei com ela essa noite. Era isso que eu queria te dizer e ela estava feliz. Falou dos meus abraços quentes – que ela sempre reclamava que eu gostava de abraçar – que ela não transpira mais e que a vista é maravilhosa. Falou das orações que fiz e das que bordei em espanhol para ela. Disse que estava livre… e que a paisagem era quase uma canção que ela não lembrava o nome. Brigou comigo, como sempre. Depois riu e repetiu uma brincadeira só nossa sobre capítulos, que retrato a seguir:
Ela me ligou e perguntou se eu tinha tempo e eu respondi: Pra você? Tenho todo tempo do mundo. – ela riu e me mandou sentar. E discorria com todos os pormenores, que só ela sabia como contar uma história, que podia ser da vizinha, de um de vocês, do trabalho, do moço da portaria ou coisas da avó bandida que ela adorava ser. Falou para eu continuar te amando e fez aquela puxada na sobrancelha que só ela sabia fazer.
No sonho, ela mandou eu encerrar o capítulo. Era a frase que ela terminava sempre quando nos falávamos. Me descreveu a última frase e eu perguntei para ela se era um sonho e ela dizia que eu tinha domínio sobre isso… Mandou eu escrever final feliz e assim eu escrevo. A felicidade que a gente tinha com ela ganha ares de saudades… eu a vi leve, como nunca a vi. Eu a vi sumindo enquanto ela cantava que os sonhos vão para o coração e é onde a guardo de agora em diante.
Eu te abraço na leveza de quem a viu… resolvi te escrever essa carta para com isso te abraçar. Um dia, você, com uma simples mensagem me tirou de uma depressão… hoje, queria que sentisse minha gratidão por ter me dado oportunidade de ter vivido com sua mãe. A foto que registra esse post é de um quadro entre os tantos que bordei para ela, em espanhol, que ela amava e me fez estudar junto com ela.
Beijo carinhoso, estarei aqui sempre, se precisar.
Essa é a primeira carta do ano… e escolhi te escrever para responder sua pergunta – de quantos atalhos são feitas uma vida inteira? – e nem sei se tenho a resposta.
Hoje, eu fugi… fui para o mato para respirar, para me munir de energias para esse ano que se inicia – pelo menos, é o que o calendário daqui de casa anuncia – e embora não tenha tido contato com nenhuma pessoa que não o moço daqui de casa, pude presenciar cada bizarrice vista da janela do carro enquanto dirigia cerrado adentro que você se assustaria, mesmo já conhecendo algumas por aí.
Sabe, bambina, mesmo com dias de chuva e já passado algum tempo depois das queimadas, o verde predomina, os animais se procriam mas o cerrado ainda busca respiração. Das flores, de milhares – de outros tempos – hoje encontrei poucas. As libélulas diminuíram e as cachoeiras pareciam filetes de água. Qual atalho sigo rumo aos ninhos dos pássaros? Quais vidas buscam um atalho dentro do rio que quase secou.
Mas, antes que minha energia contamine a tua digo que a vida ali vibra e os atalhos viram caminhos de esperanças, de toque, de afago, de afeto. O cheiro do verde, o capim brotando, a chuva caindo me fazendo correr dali, de onde a cachoeira ganha forma de véu ainda me faz encher de esperança nos dias que virão. Ainda continuo sendo pouso na mão.
Quando voltei pra casa, a mesma menina que havia me dito que conseguia criar atalhos veio me receber… Perdeu mais vidas nesses três dias, mas disse que os atalhos são feitos de coragem… e que isso, eu havia ensinado a ela mesmo sem saber… E que vida inteira pode durar uma estação, uma tarde, uma noite, uma manhã, um sábado… Depende do atalho que você escolher.
Meu pote de energia está cheio e divido com você, porque para quem perdeu a referência de pai, de dois tios em menos de duas semanas ainda consegue me ensinar coragem, bambina e me lembrar que mesmo com atalhos complicados eu ainda desenhei em palavras Desvios para atravessar quintais, só posso agradecer.
Ouvi os ritmos da rua de cima desde cedo. As crianças começaram a correr logo que o sol surgiu e o moço da reciclagem vasculhava os cestos de lixo em busca de algo que servisse para a venda. Um galo cantou – e não foi a primeira vez que ouvi… há dias que ouço o cocoricó esganiçado de um galo garnizé – o pássaro de todo dia veio buscar colo na minha mão.
Parece segunda-feira – tenho essa sensação – e o ipê ganha cachos de sementes que ao menor sinal de vento voam como se tivessem asas. Aqui, em casa, o silêncio só é quebrado pelo amuo dos cães, que já pressentem a aproximação do banho. Já sinto a proximidade das flores e o verão chega como quem vem para morar.
É só o segundo dia do ano. A primeira folhinha foi arrancada do calendário e eu conto uma história para a menina que perdeu o pai. Como dar esperança para quem viu seu herói partir? Ela segurou minha mão com a força de quem ficou sem rumo, mas que já sabe como criar um atalho para viver.
1 – Rasgo as folhinhas antigas e enquanto limpo o quintal com suas folhas secas o novo surge no encanto do florescer. É como se o buquê fosse a oferta do ano novo que surge. A vida sendo retratada nas cartas de tarô. A vida indo embora de forma repentina. A lua se opõe a Saturno enquanto escrevo cartas e as estrelas se escondem atrás das nuvens. O primeiro bebê do ano não é um… São vários, inclusive, o ano nasceu junto com as flores.