Corredores, Codinome Locura

Com sabor de chocolate

A parte mais gostosa pra mim era quando nós entrávamos na mata (para desespero dos meus irmãos, que ficavam na entrada, esperando a gente voltar) à procura dos cogumelos que ela espalhara pelos cantinhos que ela chamava de canteiros e só ela sabia onde era. Aquele era meu paraíso!

O cheiro das folhas se decompondo, o verde em tanta profusão de cor. Tudo me levava para um mundo fantástico de faz de conta e que eu vivia.

Alguns eram especiais pra ela, eu percebia isso e também passaram a ser para mim. Tinham cheiro e sabor de chocolate, de castanha… Havia um preparo genioso em cobrir com gravetos, folhas e um ritual que ela fazia ao lidar com eles. A faquinha pequena de corte profundo, que meu dedo já sentiu várias vezes, fazia um furo no chão fofo e úmido e ela os colhiam. Vinham direto para uma cesta especial, onde com todo cuidado não podiam esbarrar um no outro, como ovos que pudessem se quebrar.

A manhã voava ali na mata, e antes de ir embora a toalha era estendida debaixo de uma árvore e o lanche era servido. Acredito que era só por mim, porque ela mal tocava na comida. O suco de limão rosa que ela fazia melhor do que minha mãe, o pãozinho recheado com a geleia das amoras que a gente mesmo colhia, tinha para mim o sabor da mata. Onde quer que eu comesse a geleia de amoras eu me transportava para a floresta, que tinha o encanto e os cheiros dos cogumelos com gosto de chocolate.

A volta sempre era barulhenta. Eu falava do pássaro, da água do rio, da teia da aranha e ela entre um explicar e outro sobre alguma planta parecia imensamente feliz.

E ao voltar pra casa, logo na saída da mata, meu irmão mais velho, com o capim habitual na boca queria saber de tudo… e minhas histórias tinham o sabor dos cogumelos com sabor de chocolate.

Mariana Gouveia

Agosto é o mês dos sabores e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli –Darlene Regina


Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Pedras no caminho de ninguém

Querido Pedro,

Quis te escrever para falar da pedra que você me deu e lembro-me o dia e do que falamos na ocasião. Admirei a ônix – assim pensávamos que era – e detalhei para você o sentido da palavra e da misticidade que envolvia a pedra. Embora, acredite na simbologia da pedra/palavra e quando falava que uma de suas características é capaz de elevar nossa energia vital você me deu ela.

Dentro do abraço de amigo, a gente falou sobre os rituais e de que ela seria essa fonte de proteção do lugar, onde quer que estivéssemos… Acredito nisso… não importa onde estamos o elo fica no universo e volta em pensamentos bons.

Pois bem, a pedra, que por um acidente caiu de minha mão, lascou e como pode ver na foto que acompanha essa carta, mostrou que era apenas uma tinta que alguém passou e vendeu como se ônix fosse. Na hora, pensei em te ligar e falar sobre… não que fizesse diferença para mim ela ser uma simples pedra – pintada, claro – mas uma simples pedra… Ao invés de ligar, resolvi escrever. O moço da loja de artigos místicos te enganou e vem enganando tanta gente… Fiquei chocada, Pedro! Eu mesma comprei uma turmalina para presentear um sobrinho que ama as pedras, assim como eu e eis que numa tentativa de descobrir, joguei-a ao chão e não é que também era uma pedra comum?!

Mas, como não quero ser pedra no caminho de ninguém deixo que o destino cuide das pedras do caminho dele… e o que quero te falar é que apesar de não termos o mesmo contato de antes, e nossas conversas longas sobre, livros, pedras, espiritismo, tatuagens e donuts – que eu morro de vontade de comer – e combustíveis a energia vibrante que te ronda cabe aqui em mim em forma de oração.

Embora a cor da pedra real esteja longe de ser ônix, o significado dela permanece aqui. Riso farto, alma limpa, plantar e colher, ação e reação… essas coisas que acredito que o universo nos dá de acordo conforme o que pedimos.

Que você continue forte, inspirado e amigo… e as cores que te tocam na forma simbólica de alegria sejam as dos donuts mais deliciosos que comi.

Abraço carinhoso
Mariana Gouveia
Agosto é o mês das misticidades e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega  Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli –Darlene Regina

Corredores, Codinome Locura

O caminho da armadilha.

O caminho até a casa dela era encantado. Um pequeno trilho entre os arbustos que meus irmãos diziam se tratar do Caminho da Armadilha.
Em cada planta ao redor havia um jeito dela e era remédio, ela dizia que podia curar qualquer doença, mas também podia matar.
– Por isso, crianças, cuidado com o que põe na boca. – ela gritava sempre da janela quando percebia meus irmãos de olho nas frutinhas vermelhas que se apresentavam em uma árvore logo além da cerca.
Parte da vegetação era cerrada e as frutas, muitas, que em sua maioria a gente conhecia e comia. O cerrado nos dava iguarias que não se via em outra parte.
Mas, o que mais me encantava eram as teias de aranha que logo pela manhã, quando íamos levar o leite se estendia feito rede ao longo do trieiro, cujas gotas do orvalho da noite formavam colares na mata entre uma árvore e outra.
A tecelã da magia era mais um termo poético que ela usava e eu só percebi isso depois.
Eu não entendia como os meninos da região, incluindo meus irmãos podiam temer a fada -meio bruxa – meio flor se ela só vivia poesia. Eles nunca ultrapassavam a porteira, que rangia ao pequeno encostar e a missão de carregar o balde até a casa era minha. E a premiação também. As broinhas de milho eram feitas para mim!
Eu adorava essa parte da manhã. Descarregava minha ansiedade em perguntas sobre qualquer dúvida que tivesse enquanto o cachorro Lamparina me cheirava e latia pedindo um pedaço da broa.
Ali, eu ouvia a programação do dia: a cata dos cogumelos, a colheita das folhas, o nascer de um bebê na fazenda vizinha…
E eu voltava saltitante e meus irmãos respiravam aliviados… enquanto eu ia correndo na frente vendo as teias enfeitando de colares a floresta.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês das teias e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia LeonardiObdúlio Ortega Lunna GuedesRoseli Pedroso Adriana AneliDarlene Regina

Corredores, Codinome Locura

A mesma noite em um dia.

Fazíamos aquela rota duas vezes na semana. Entrar floresta adentro.
Ela sempre ia à frente com seu andar manso e olhar investigador. Meu irmão mais velho,  lá atrás, de vez em quando apertava o passo para me manter sob vista e com o capim na boca.
Eu perguntava sobre tudo. Que flor era aquela? Que pássaro cantou? Que barulho foi esse?
Ela sempre respondia com mais coisas do que eu havia perguntado.

Quando o caminho ficava estreito, a floresta se fechava como um portal e já estávamos dentro dela. Eu  adorava aquele cheiro, aquelas cores e aquele encanto.
Parecia noite ali e era dia claro lá fora. Era como se eu tivesse atravessado o portal entre o segredo do dia e da noite.
Colhíamos os cogumelos até o meio dia. Depois era a hora do almoço e quando meu irmão se aproximava mais.

Eu aspirava o cheiro das folhas e tudo que envolvia o encanto e a floresta. Ela vistoriava cada canto onde encontrava os cogumelos, mas dessa vez eu os encontrei, meio ao acaso depois de acompanhar um voo das borboletas.

– Os cogumelos dourados! Gritei…

Delicadamente ela os colheu com o canivete e colocou em minha cesta e ganhei o colar de flores…
Depois passávamos a colher as folhas que eram remédios. Voltávamos no fim do dia…
E quando saímos estrada afora, além da mata densa a noite se preparava pra acordar do lado de fora.
Era como se eu pudesse viver no mesmo dia duas noites.
E sempre quando relembro daqueles dias é como se a floresta renascesse dentro de mim.


Mariana Gouveia
Agosto é o mês das florestas e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli –Darlene Regina

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

A alegria é um aroma de tangerina na ponta dos dedos.

Pai,

A foto foi tirada em outro tempo, onde a vida “normal” me permitia te ver. Fui contar no calendário e perdi a noção dos dias. Mas, a minha memória ainda traz a tradição das cartas, enquanto no vizinho as canções antigas me lembram que você gostava das modas antigas e o som da viola – que é o que toca aqui – e chego a pensar que a gente é feito dessas lembranças.

A gente comemorava o dia dos pais, mas a gente comemorava todos os outros dias… e dentro de minhas memórias a roça, a horta e o pomar eram os contextos nos nossos dias. O cheiro do arrozal quase pronto para a colheita, o cafezal em flor tal qual a canção de outrora, as hortaliças exalando o cheiro ao menor toque e as tangerinas no ponto de colher… Os irmãos, no riso, entre uma fruta descascada e outra, à espera de que você fizesse isso para a gente… ali, eu vivia a alegria refletida no aroma de tangerina entre seus dedos. O sabor a fruta era o nosso ponto de amor na partilha. O pomar, apenas o ponto de ensinamento de plantar e colher.

O tempo passa, a gente recorda, busca nas lembranças as coisas e no peito a nostalgia dos dias, pai… E já são tantas cartas que te escrevi e ainda assim, não me sinto repetitiva, com a rara exceção do meu amor, que é o mesmo sempre e terno. E assim, no seu dia, te abraço dentro das minhas palavras.

Feliz dia dos pais!
Te amo!

Mariana Gouveia
Agosto é o mês do dia dos pais e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi  Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina

Corredores, Codinome Locura

Cultivo regularmente as minhas memórias.

Eu sempre colhi os cogumelos… principalmente os negris – um nome que a fada meio bruxa meio flor colocou para separar os especiais, dela, que curava e podia matar…
– Esses – ela dizia. Devem ser colhidos por mãos leves que tocam seda…
Eu sempre toquei sedas. Bordava elas em forma de véus com fios de algodão que minha mãe tecia. Talvez por isso, os cogumelos me encantavam, até os mais venenosos e eu ria quando meu irmão passava longe deles, achando que só de passar perto, morreria.

Um dia, à beira do lago que circundava a floresta ela sussurrou olhando minha cestinha cheia dos negris – o psilocybe semilanceata – que segundo ela, bastava um pequeno pedaço para matar alguém. Mas, que sabendo lidar com ele, podia salvar vidas.
– Toque nele… e tirou um mais volumoso e colocou na minha mão. A maciez era surpreendente. Parecia que a qualquer momento se transformaria no cetim suave dos tecidos.

– Não! – ela me interrompeu – toque com os olhos fechados e sinta a textura e a emoção dele. Um dia, ao leve toque da alma entenderá esse momento. E saberá o que quero dizer. Quando as emoções transpassarem a fronteira do querer e a vontade ser mais forte do que o que tem que ser… me entenderá. Aí, eu já serei poesia.
E você já viverá poesia. E mesmo que seja um sentimento passageiro será tão intenso que será eterno.

Hoje, quase 47 anos depois eu entendo e sinto a linguagem do toque e para não esquecer, cultivo minhas memórias regularmente… Cultivo elas como se fossem flores para que esses momentos permaneçam em mim, assim como a poesia que ela tanto falava.

Mariana Gouveia – Das delicadezas dos instantes
Agosto é o mês das lembranças e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina

Corredores, Codinome Locura

6 on 6 – Vícios

As paixões, quando mandam em nós, são vícios.
Blaise Pascal

O tema do 6 on 6 de hoje é vícios… Poderia falar sobre vários temas dentro da imperfeição que a palavra define. Considerado como ruim, a palavra derivada do latim vitium me levou por outros caminhos… Ouvi de amigos desde sempre sobre meus “vícios” dentro das coisas que gosto e me fazem bem e no fim, fazem parte de minhas paixões… estão preparados?

Xícaras… Mais do que a palavra café, um dos muitos vícios que tenho são as xícaras. Tenho uma infinidade delas, de variados tamanhos e modelos diferentes. A maioria delas foram presentes de amigas. Algumas, perdi após quedas ou estão esquecidas em alguma caixa ou baú… As das fotos são as que estão sempre à mão… seja para uso, ou expostas na estante.

Artesanatos… ainda menina aprendi o crochê e o bordado. Já adolescente, além da pintura, me apaixonei pela máquina de costura e seu poder de juntar retalhos e transformá-los em arte. Desde então, como artesã – acho que minha primeira profissão – passei a fazer vários tipos de artesanatos e esse é um dos “vícios” que me acalma, e me rende uma renda extra no orçamento.

Fotografia… sem dúvida é o “vício” maior que possuo… O meu quintal é o lugar preferido e os pássaros, joaninhas, borboletas, etc… os modelos preferidos. Onde estou, sempre tenho minha câmera – ou câmeras – comigo. E sim, eu ainda uso a velha Kodak, com seus filmes 35mm, e em sua maioria das vezes, em preto e branco. Costumo dizer que comecei na fotografia, mais por hobby e levada pelo problema de usar imagens de internet com seus direitos autorais e resolvi usar minhas próprias imagens. Sem nenhum conhecimento técnico, seguia apenas o impulso e apaixonei. Claro, que depois de um tempo fiz alguns cursos, aulas e aperfeiçoamento com leituras e estudos sobre fotografia, embora, as câmeras dos celulares hoje, ganham em imagem, nitidez e rapidez. Mas, eu ainda prefiro as fotos de minhas boas – e nem tão velhas assim – câmeras.

Cartas… esse é um vício desde a adolescência… escrever cartas. Adoro o cheiro do papel, a letra de quem envia… os envelopes coloridos e as palavras. O carteiro da minha rua já sabe dessa paixão e embora possa colocar a carta na caixa de correspondência, como faz em todas as outras casas, ele disse que prefere ver a alegria do meu olho ao pegar o envelope. Não sei explicar a sensação de abrir o envelope e ler… nem da emoção de responder uma carta recebida, seja de parentes dando notícias, ou mesmo de alguém do outro lado do oceano falando de poesia e mar…

E por falar em mar… as conchas marinhas me encantam. Mesmo sendo alguém que nunca pisou na areia do mar. As conchas chegam até a mim trazendo o barulho do mar e a poesia marítima – ser que sou – e oceânica que quero ser. É algo que não sei dizer ou explicar… sou quase maresia, mesmo sendo gente de rio e córregos.

E a caçulinha dos vícios – entre outros tantos menos danosos – as suculentas. De várias espécies e tamanhos e não couberam na fotos todas juntas. Passo horas inteiras cuidando, admirando e até conversando com elas. Há a preferida, a diferente, a comum – e ainda assim, magnífica – a mais nova, a que mais cresceu e a que precisa ser mais cuidada e no fim do dia, na leveza do tempo e no quintal, a observação delas.

Se você chegou até aqui, não diria que meus vícios sejam vícios… o chocolate – hummmm – o doce de leite da infância… e o café de todo dia cabem mais aqui, talvez… porém, a minha realidade caminha por atalhos diferentes e entre um gole de chá ou de café, essa sou eu.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês dos vícios e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina

Corredores, Codinome Locura

Nenhuma noite é igual a outra.

Nenhuma noite é igual à outra… Algumas são mais especiais… Tem horas que teimam em voltar no tempo, em mim.

A noite de lua cheia era diferente. Ela ficava sentada lá fora, num banquinho de madeira e ficava fitando e acompanhava o movimento que a lua fazia, como que enfeitiçada.

Os cogumelos ficavam dourados com o brilho dela. E os pirilampos pareciam as estrelas que haviam descido para o chão.

Eu vi essa cena três ou quatro vezes e nunca mais esqueci. Havia um encantamento naquela mulher que encantava todo bosque, toda fazenda, e todo o universo. A luz rescendia em seus cabelos brancos e ela me lembrava um personagem de um livro.

O bosque fazia silêncio e a silhueta dela à luz da lua lhe dava a magia certa. Ela também se vestia de dourada.

Entendi que todo mistério que a envolvia devia ter vindo de alguma noite dessas. Alguém devia ter visto ela assim toda dourada e a acharam meio bruxa – meio fada – meio flor. Ela fazia os cogumelos ganharem cor de ouro. Ganharem sabor, dependendo de onde os plantavam. Fazia crianças nascerem sobre tuas mãos. Ela era mágica.
Quando passava essa fase de lua cheia. Ela voltava ao normal, se bem que nada para ela era normal. Mas a vida começava a fluir…

Mariana Gouveia
Agosto é o mês das histórias encantadas e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina

Corredores, Codinome Locura

Entre o dia e a noite, há sempre uma pausa quebradiça…

Separo-me de ti nos solstícios de verão, diante da mesa do juiz supremo dos amantes.
(…)

Virás quando houver uma fala indestrutível devolvida à boca dos mais vivos. Então virás vivo também. Sempre esperei ver-te ressuscitado. Desiludiste-me.
(…)

Calo-me.
Reparei de repente que não estavas aqui. Pus-me a falar a falar. Coisas de mulher desabitada.

(…)

É a altura de escrever sobre a espera. A espera tem unhas de fome, bico calado, pernas para que as quer. Senta-se de frente e de lado em qualquer assento. Descai com o sono a cabeça de animal exótico enquanto os olhos se fixam sobre a ponta do meu pé e principiam um movimento de rotação em volta de mim em volta de mim … de ti.
Nunca te conheci – assim explico o teu desaparecimento.

(…)

Luiza Neto Jorge

O vulto na janela da casa 18 da rua de cima me intrigava e se hoje você for lá, não encontrará nada do que vou retratar porque entre o dia e a noite, há sempre uma pausa quebradiça e o silêncio habita atrás das cortinas. Porque silêncio é assim… se impõe e cria raízes onde a terra da solidão é fértil.

Era uma manhã escura dessas que não se costura com linhas. Lá fora, o pássaro agourento – segundo as lendas da minha mãe – grunhia como se isso fosse a missão dele. Depois disso, nada mais prestou – ela escreveu no diário que eu encontrei tempos depois no baú.

Havia vida ali, atrás das cortinas lilases e por algum motivo o riso se perdeu além das flores… a canção de amor perdido ficava no repeat o dia inteiro e estava escrita entre as notas feitas no diário, com caligrafia de quem treinou tanto as letras cursivas…

Cheguei a ver os olhos dela perdidos no nada… Um riso meio sem noção enquanto o cão latia denunciando minha presença e ela repetia o mesmo mantra de ontem-anteontem-trasanteontem – quero ficar sozinha…

De olho brando no carinho, lembrei a ela que estava ali… e ela dizia que não seguia regras – só os fracos seguem as regras… Os fortes, criam- nas… Morro de amor, e não te conto nada. Não falo das madrugadas insones, nem da falta que faz a cada dia. Dos meses que conto no calendário da cozinha, das plantas que arranquei sem mostrar. Porque essa saudade só diz respeito a mim… Escreva uma história, se preferir – e riu num quase sem voz e sumiu entre o esvoaçar das cortinas… Disse que a psicóloga falou que ela tinha um amor bonito. Cheguei a odiar essa psicóloga… devia ser a mesma que me trancou nos dias de confissão quando retratei meu mundo de amor.

Escrevi milhares de histórias depois disso… ainda continuo escrevendo sobre o amor e suas diversas nuances… Nenhum tempo é essa coisa de agora… Era Leonor seu nome, embora seus amigos e familiares a chamavam por outro nome. Mas, quando eu pensava nela era ternura que eu sentia e só de imaginá-la, era ternura que eu via.

Trocou a casa dela por aquela última da rua cheia de escombros e vive ali, na solidão que encontrei dentro do baú esquecido na casa 18 da rua de cima… sempre que passo por ali, ainda vejo um vulto na janela. Deve ser o fantasma do amor que ficou…

Mariana Gouveia
Agosto é o mês dos amores quebrados e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes  Roseli Pedroso  Adriana Aneli  Darlene Regina

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Gosto de existir no mistérios das coisas…

Arterapia:
desenhe sua casa.
As minhas sempre foram ocos de árvore ou botas com chaminés Tudor
ou abóboras com escadas e varais ou cogumelos com hortas.

Luciane Lucieri

Luci,

Estive visitando seus lugares e me perdi entre os mistérios que te rodeiam e a maciez com que você toca minha alma. Vi que encontrou uma carta de amor e que não era destinada a você e resolvi te escrever… não é uma carta de amor ou até é… de um amor nas coisas que gostamos e que guardam mistérios que não sabemos desvendar, nem resolver.

O sol filtrou aqui também, logo além do bosque que já nem existe mais – estão derrubando todas as árvores de lá – onde conheço cada uma.

Dizem que vão construir no lugar mil e quinhentas moradias e sabe-se lá quantos jardins… Mas, já era um jardim que eu mesma fotografei mais de mil e quinhentas vezes os bichos, os brotos dos ipês que nasciam das sementes trazidas pelo sanhaço azul e por descuido ele deixava cair. Fotografei ali vários fins de tardes e algumas manhãs acabadas de acordar. Os cogumelos que nasciam por ali pareciam doces de vó ou o sorvete de flocos da sorveteria da infância. Dava até vontade de comer. A pata de vaca muitas vezes me cedia folhas para o chá contra infecções e as libelinhas azuis cabiam num canto qualquer de tão pequenas que eram.

Agora, aquilo tudo vai se transformar em moradia e hoje, quando fui buscar as cestas para as doações vi tudo limpo. Deu um vazio no peito… Corri para seu lugar e fui beber poesia nos estuques do muro. Ainda bem que tenho as sementes de quase tudo que tinha lá… a maioria brotou como que por encanto e fui estrada afora cavando covinhas e deixando elas em uma nova morada. Achei que devia te escrever sobre isso, Luci e sei que o que sinto é que o mesmo que sentiu quando seu coração se tornou em um cemitério de borboletas tocando Mozart… O meu, hoje se transformou em um de cogumelos, florestas e seres cheios de mistérios que existiam por lá… e não tocava canção nenhuma.

Hoje, tive que criar um lugar para eles no meu quintal, Luci… por que em alguns momentos gosto de existir no mistério das coisas em que ninguém mais acredita.

Abraço carinhoso

Mariana Gouveia
Agosto é o mês dos bosques derrubados e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina