Afetos · Das palavras das cartas

para além das variáveis do outono.

Uma vez um homem encontrou duas folhas e entrou em casa segurando-as com os braços esticados dizendo aos pais que era uma árvore.  Ao que eles disseram então vai para o pátio e não cresças na sala  pois as tuas raízes podem estragar a carpete. Ele disse eu estava a brincar não sou uma árvore e deixou cair as folhas. Mas os pais disseram olha é outono.
Russell Edson

Querida Perla,

em um dia desses, uma poeta, em conversa com uma bambina se confundiu com o dia que o calendário marca na folhinha a chegada do outono. Imagine você que a poeta sou e te explico a confusão.

O meu quintal havia amanhecido com as folhas a dançar no chão… era um balé bonito de se ver, com as folhas num vruumm, vrumm, crááás, crááás… e os galhos todos pelados, como se tivessem mesmo despidos. Era 20 de fevereiro e não fiquei atenta ao outono mesmo… só me encantei com a delícia do som das folhas a se espalharem no quintal.

Mas, conversando com nossa bambina percebi que a natureza ultrapassa as linhas invisíveis das estações. A primavera atravessa os desvios aqui em pleno verão, e os manacá da serra daí exalam suas belezas fora do tempo. Talvez, pelo meu lado poético eu diria que o tempo endoidou e o calendário já não segue mais certinho os equinócios e suas mudanças . É definido aqui, nos astros e terminologia que rege em meu lugar que o outono , o meu outono antecipou suas variáveis e o ipê desfolhou todinho… ainda em um ontem recente estava com suas flores temporãs amarelas a dourar o chão.

Então, deve ser por isso, que ao atravessar o quintal daí, onde nascem jabuticabas, pitangas, maracujás e helicônias, suculentas e flor de maio – que floresce em outros meses além do maio – que a amoreira esteja recebendo os ares do outono. Ele está bem aí, batendo a porta…

Vamos abrir a porta para ele?
Abraço carinhoso.

Mariana Gouveia

4 comentários em “para além das variáveis do outono.

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