Afetos · Lunna Guedes

Quando morrer os caderninhos irão todos para a vitrine da exposição póstuma: relíquias.

Ph: Pinterest

Quando completei meus doze anos veio a notícia de que iríamos mudar para a cidade. Os irmãos mais velhos teriam que estudar para formação de trabalho e a fazenda seria vendida. Confesso que para mim, ir morar na cidade significava não vivenciar as magias que minha bá me proporcionava e isso me deixou emburrada e triste por dias… até adoeci.

Meus irmãos vibravam com as coisas novas que podiam fazer e experimentar.  A escola da cidade era diferente da que a gente frequentava na roça, e tudo era novidade. Somente eu que sentia a falta dos meus lugares e para amenizar ou melhorar meu humor fui matriculada no curso de datilografia – incentivada de que poderia escrever minhas histórias na máquina que eu ganharia assim que aprendesse a lidar com ela – e na aula de piano – sonho de meu pai.

As mãos que até então usava o lápis para escrever meus textos na meninice agora recebia a palmatória quando errava as teclas da tal máquina e do piano.

A máquina consegui domar em pouco tempo e passei com louvor, mas duas casas abaixo da escola de datilografia, a professora de piano entendeu que a música me alcançava de outra forma, para desgosto do meu pai.

Com o certificado em mãos foi a hora de meu pai cumprir a promessa e ganhei a pequena máquina Olivetti vermelha, mas tinha que dividir com a metade de meus irmãos, principalmente com a mais velha que fazia o balanço do Supermercado Brasil que meu pai havia comprado. Mas por algumas horas, a máquina era só minha e as histórias haviam modificadas. As aulas de português me encantavam. A fazenda foi ficando apenas na memória e nas coisas que eu escrevi… os cadernos ainda guardo alguns… outros, se perderam com as mudanças – assim como a pequena máquina – que se tornaram rotineiras até chegar nesse lugar. O que não mudou foi que ainda continuo a escrever e a contar histórias

Mariana Gouveia

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