Quando a noite se aproxima o quintal se apresenta para mim, de forma diferente do que durante o dia. As sombras dos galhos ganham formas transformando minha insônia noturna em um terreno denso na imaginação. Sou insone, na maioria das noites. Uso a noite como companhia, junto ao cão que se deita aos meus pés, quando me aquieto.
Mas, antes de me aquietar, passo horas olhando o céu noturno. As estrelas parecem acenar dentro do quadrante do meu lugar. A mancha escura, de um musgo seco, grudado no muro parece os monstros dos pesadelos antigos. Têm olhos, boca e cabelos grandes – que se movem à medida que o vento sacode as folhas da palmeira.
Quando o cansaço bate, sento-me na varanda, olhos voltados para a estante da sala, com seus retratos de família em quadros antigos, e ao lado deles, o elefantinho de porcelana ao lado da coleção nova de Pessoa, que ganhei de presente em um desses aniversários. Lembro-me quando Fernando Pessoa e suas entidades chegaram até a mim em uma sacola de livros doados, A maioria sem capa e pareciam carentes de olhos para lê-los. Era uma coletânea com os livros que alguém se desfez. Acho que eu tinha 13 anos e devorei tudo em uma noite escura, apenas iluminada pela luz do lampião.
Havia aprendido com minha mãe a consertar capas de livros e revistas, usando a velha máquina Singer. Foi o que fiz nos dias que se seguiram. Eu ainda não entendia os diversos tipos dele – acho que ainda não os entendo – e só absorvia o que estava escrito ali.
Acho que eu era sedenta da poesia e possuía a natureza na alma. Em tantas noites, lá atrás, eu lia para uma plateia feita dos meus irmãos, pai e empregados. O guardador de Rebanhos de Caieiro tocava a todos ali, e antes que eu escolhesse qualquer outro poema, o nome saia em uníssono. Acho que todos eles se viam dentro daquelas palavras, escrita por um homem que viveu além-mar.
E nessas noites em que a melancolia bate aqui, o poema quase decorado pela alma salta da epiderme e releio baixinho para não acordar os que dormem no quarto. Quase me transformo na guardadora de rebanho dos meus sentimentos e da saudade.
Mariana Gouveia

sabe aqueles textos cheios de suspiros? Deu até vontade de ler Caeiro. Houve uma época, que ele era o meu preferido, muito mais pelo meu avó que por mim. Campos me atingiu feito um raio… rs
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Eu entendo esses suspiros… sinto-os quando te leio. ❤
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Acredito que a noite é acompanhate de todos os poetas e poetisas e sim basta uma luz de vela ou mesmo da lua cheia e a leitura se faz companheira.
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Eu também acredito… abraços
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very nice…
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Thanks!
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Adorei, muito bom! Acompanhando por aqui
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Muito obrigada! Bem vinda sempre!
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